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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Laranja

Alívio refrescante

Em meio a crises ano após ano, o Governo realiza leilões para garantir o preço mínimo ao produtor de laranja e colocar parte da safra no mercado

Gilson R. da Rosa

Acitricultura brasileira segue atravessando momentos de dificuldade na safra 2014/2015. O aumento da produção, a queda nas exportações, os preços baixos, os problemas na comercialização da fruta por conta de uma política de concentração da indústria e o crescente endividamento dos produtores independentes são alguns dos fatores que levaram o Governo Federal a buscar alternativas para minimizar os efeitos de uma crise que se agrava a cada ano.

Com a inclusão da laranja na Política de Garantia de Preços Mínimos, o Governo estabeleceu parâmetros para a concessão de subvenção econômica, na forma de equalização de preços, por meio de leilões públicos pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e por intermédio dos instrumentos de apoio à comercialização do Prêmio Equalizador Pago ao Produtor Rural e/ ou sua Cooperativa (Pepro) e do Prêmio de Escoamento de Produto (PEP), para a laranja in natura, da safra 2014/2015.

Serão destinados R$ 50 milhões para os leilões de venda de laranja com o objetivo de garantir ao produtor o preço mínimo de R$ 11,45 por caixa com 40,8 quilos, sendo subsidiada a diferença entre o valor real de mercado e preço mínimo de garantia. No primeiro leilão de Pepro, realizado em julho de 2014, do qual apenas produtores paulistas participaram, a demanda atingiu 45% das 3 milhões de caixas ofertadas. Já no segundo, dias depois no mesmo mês, 100% da oferta foi negociada com produtores de São Paulo e do Paraná. Os próximos leilões terão como novidade a inclusão de chamadas para operações de citricultores da Bahia, de Minas Gerais, do Sergipe e do Rio Grande do Sul.

Produção cresce -— A Associação Nacional dos Exportadores de Sucos Cítricos (CitrusBR) estima que a safra 2014/2015 será de 308,8 milhões de caixas para o cinturão citrícola que compreende São Paulo e Sul de Minas Gerais. Desse total, 50 milhões de caixas devem ser destinadas ao mercado interno e 259 milhões poderão ser processadas por empresas associadas e não associadas à entidade.

Na avaliação do presidente executivo da CitrusBR, Ibiapaba Netto, o volume estimado representa uma alta de 6,5% sobre a temporada passada (289,9 milhões de caixas) e queda de 2,8% em relação aos primeiros dados anunciados pela entidade. O dirigente projeta que a produção total de suco de laranja deverá ser de 973 mil toneladas, considerando um rendimento industrial de 265 caixas necessárias para a produção de uma tonelada de FCOJ (suco concentrado congelado), enquanto as exportações devem se manter nos mesmos níveis de 1,080 milhão de toneladas. O levantamento também confirma a tendência de queda nos estoques, que nos últimos anos se acumularam em função de dois períodos de superoferta nas safras 2011/2012 e 2012/2013.

A CitrusBR calcula que os estoques de passagem em posse de seus associados em 30 de junho de 2014 seja de aproximadamente 517 mil toneladas, representando uma redução de 32,5% em relação às 766 mil toneladas existentes em 30 de junho de 2013. “Para a safra 2014/15, o volume que estimamos é de aproximadamente 350 mil toneladas em 30 de junho de 2015”, calcula o dirigente.

Queda nas exportações -— O consumo global de suco de laranja voltou a crescer em 2013 depois de três anos de quedas, impulsionado por países emergentes e pelo aumento observado nos Estados Unidos, conforme estudo realizado pelo Centro de Pesquisas e Projetos em Marketing e Estratégia (Markestrat), com sede em Ribeirão Preto/SP. “Houve avanços na América do Norte, na Ásia, na América Latina e na África, enquanto na Europa, na Oceania e no Oriente Médio a tendência de baixa prevaleceu. Porém, em relação ao patamar de dez anos antes, a retração supera 10%”, observa o professor titular da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP e membro do conselho do Markestrat, Marcos Fava Neves.

A CitrusBR estima que a safra 2014/2015 será de 308,8 milhões de caixas para o cinturão citrícola que compreende São Paulo e Sul de Minas Gerais, alta de 6,5% sobre a temporada passada

Entretanto, as vendas de suco de laranja brasileiro para o mercado externo no primeiro semestre de 2014 apresentaram queda significativa. Até maio, as exportações totalizaram 375 mil toneladas, queda de 25% (232 mil toneladas) em comparação com o mesmo período de 2013. Em valor, diminuíram 30% em dólares para U$ 679 milhões. A redução de 232 mil toneladas equivale a mais do que o consumo anual da Alemanha, segundo maior destino brasileiro.

Já a demanda industrial pela laranja tem sido maior frente à observada no ano passado no mercado spot paulista e/ ou de contratos de uma safra. Algumas processadoras, inclusive, têm comprado frutas precoces. O preço médio dessas variedades é de R$ 8 pela caixa de 40,8 quilos, colhida e posta na indústria, podendo contar com adicional de participação, a ser pago em fevereiro de 2016. No caso da laranja-pêra, o interesse das indústrias é mais elevado, e os valores estão em torno de R$ 10 à caixa – também podendo contar com adicional.

Política de concentração -— Mesmo com os preços superiores aos de 2013, os produtores vinculados à Associação Brasileira de Citricultores (Associtrus) argumentam que os valores atuais ainda não compensam os prejuízos de safras anteriores e nem amenizam o nível de endividamento dos citricultores independentes. “Embora os custos de produção estejam por volta de US$ 8 por caixa tanto em São Paulo como na Flórida, enquanto os produtores daqui recebem na média de US$ 4, os citricultores de lá recebem US$ 14 por caixa de laranja. As processadoras compram e pagam preços diferenciados aos produtores que, a critério delas, devam permanecer no setor”, compara o presidente da Associtrus, Flávio Viegas.

De acordo com o dirigente, mesmo os produtores que conseguem fazer contrato com as esmagadoras sofrem com as dificuldades em colher e entregar sua produção. “Além de estarem sujeitos a um estrito controle na liberação da colheita, concorrem em desvantagem na contratação dos colhedores e transportadoras. As indústrias, por sua vez, dão prioridade ao recebimento da fruta própria e represam os caminhões dos demais fornecedores provocando interrupções na colheita e entrega da fruta”, relata.

O resultado dessa política de concentração, na avaliação de Viegas, tem sido a redução dos pomares dos pequenos e médios fornecedores e o aumento dos pomares vinculados à indústria. “Este modelo, como temos denunciado, exclui aqueles agricultores que internalizam e distribuem a renda pelas regiões produtoras e tem importantes impactos sociais e econômicos nas regiões citrícolas. A renda da indústria de suco praticamente triplicou nos últimos anos, enquanto os citricultores, endividados, continuam a perder renda e patrimônio”, afirma.