A Granja do Ano – 33 anos da melhor prestação de informações e serviços ao profissional do campo.

Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Leite

Na temperatura do mercado

A evolução positiva da rentabilidade do produtor em 2013, em razão dos preços elevados, será determinante para o aumento da oferta em 2014. Porém, a baixa expectativa de crescimento da economia pode limitar a demanda

Gilson R. da Rosa

A produção brasileira de leite para 2014 está estimada em 33 bilhões de litros, volume que corresponde a mais de 90% da demanda prevista pelo mercado interno, mas pode chegar bem perto dos 34 bilhões de litros, caso seja confirmada a tendência de migração do leite não inspecionado para o leite inspecionado em decorrência dos preços altos pagos aos produtores durante boa parte de 2013. A avaliação é do diretor da AgriPoint Consultoria Marcelo Pereira de Carvalho. “No ano passado, o crescimento da produção abaixo do esperado, a redução na oferta mundial e o consumo em alta estimularam o aumento dos preços no mercado interno, que subiram de R$ 0,8829 na média do primeiro semestre de 2012 para R$ 1,0178 no mesmo período de 2013. Em anos como esse, a produção informal tende a cair. Em 2007, por exemplo, caiu 5%. Mas é sempre uma dúvida, porque o cálculo dessa produção informal é, por definição, sujeito a erros”, observa.

Ele explica que em 2013 a produção inspecionada cresceu 5,4%, quando a média dos últimos dez anos foi de 5,7%. “Em 2012, crescemos pouco, algo em torno de 0,65%, o que resultou em uma produção de 32,3 bilhões de litros. A informalidade, que era de 42,7% em 1997, atualmente está em 30,9%. Neste ano, a produção inspecionada registrou um incremento de 8,9% no primeiro trimestre em comparação com o mesmo período em 2013. Ainda não dispomos de dados sobre o segundo semestre, mas estimamos algo entre 4% e 5%. Em termos de produção total de leite, calculamos que no segundo semestre o crescimento será baixo, entre 1% e 2%, dentro das médias históricas”, compara.

Para o presidente da Comissão Nacional do Leite da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Rodrigo Alvin, a evolução positiva da rentabilidade do produtor de leite registrada no ano passado em razão dos preços elevados será determinante para o aumento da oferta em 2014: “A resposta do gado em termos de produtividade é sempre maior depois de um ano de bons preços. O produtor está mais capitalizado e com isso o rebanho é bem alimentado. O clima frio no Sul do País, onde a safra está apenas começando, também favorece o aumento da produção nos próximos meses”, argumenta.

Por outro lado, conforme o dirigente, a expectativa de menor crescimento da economia e as pressões inflacionárias podem limitar o aumento da demanda. “O consumo deverá ser menor este ano, refletindo a queda na renda do consumidor. O crescimento do País no semestre foi de apenas1%. A economia está desaquecida e isso sempre acaba influenciando o consumo de lácteos. Em Minas Gerais, Estado que responde por 28% da produção brasileira de leite, o parque industrial vem operando com 30% de ociosidade”, afirma Alvin.

O presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Leite (Leite Brasil), Jorge Rubez, estima que após sucessivas altas nos valores repassados ao produtor, os preços do leite deverão se manter estáveis em 2014 para que não haja recuo na demanda. “O produto atingiu o teto para o consumidor e os preços, negociados em torno de R$ 1,10 o litro na média nacional, não devem ultrapassar esses patamares, independentemente do período de entressafra”, projeta. O Brasil, segundo dados da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), é o quarto maior produtor de leite, ficando abaixo dos Estados Unidos, da Índia e da China. Minas Gerais lidera o ranking da produção brasileira com 28% da captação de leite, seguido por Rio Grande do Sul (13%), Paraná, (12%), Goiás (11%), Santa Catarina (8%) e São Paulo (5%).

Consumo desacelerado —- Após três anos consecutivos de aumento, o consumo de leite no País voltou a recuar em 2014, o que, na análise de Alvin, reflete a desaceleração da economia brasileira no primeiro semestre. “Em dez anos, o consumo per capita chegou a passar de 125 litros para 180 litros, mas o ritmo de crescimento da economia brasileira era maior em 2013”, pondera. De acordo com o dirigente, o crescimento do consumo de lácteos está diretamente ligado ao aumento da renda do consumidor. “É sempre maior quando a economia cresce, e menor quando ela está estagnada”, aponta. Para Carvalho, da AgriPoint, o consumo per capita estimado para este ano deve ficar na faixa de 170 litros por habitante, mas esse número, segundo ele, depende da produção informal ter realmente recuado 5% em relação ao ano passado. “A tendência é que não cresça muito além disso, primeiro pelo desempenho mais baixo da economia e segundo porque esse volume já não pode mais ser considerado tão baixo”, avalia.

Recuo nas importações —- O Brasil produz anualmente 97,5% do volume que é consumido pelo mercado interno. Para atender a demanda, são importados cerca de 1 bilhão de litros, a maior parte proveniente do Uruguai e da Argentina. Conforme Marcelo Carvalho, com a desaceleração do consumo verificada nos primeiros meses de 2014, a tendência também é de queda nas importações. Segundo ele, o País importou, em 2013, o equivalente a 1,02 bilhão de litros e exportou 131 milhões de litros. “No primeiro semestre de 2014, importamos menos: 306 milhões de litros; e exportamos 283 milhões de litros. Para o segundo semestre, a tendência é voltarmos aos padrões anteriores, com importações maiores, na faixa de 400 a 500 milhões de litros, e exportações menores, entre 100 e 150 milhões de litros. Isso corresponde a um saldo negativo de 300 a 350 milhões de litros, bem abaixo dos 900 milhões de litros de 2013”, calcula.

A análise é compartilhada pelo presidente da Comissão Nacional do Leite da CNA, Rodrigo Alvin: “Pela primeira vez, em abril deste ano, a balança comercial brasileira foi superavitária, mesmo com o preço do leite importado entrando a R$ 0,85 o litro. O custo das importações até maio corresponde a US$ 39 milhões. Em 2013, considerando os 12 meses, totalizaram US$ 478 milhões, e em 2012, US$ 513,8 milhões. Argentina e Uruguai, que são os maiores exportadores de leite para o Brasil, agora estão focados nos mercados da Venezuela e da China”, ressalta.

Custos elevados -— Embora o valor do leite pago ao produtor em 2013, de acordo com o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), tenha sido o maior em cinco anos, e a perspectiva para 2014 seja de preços estáveis, na média de R$ 1,10, a margem para investimentos na propriedade rural ainda permanece aquém das expectativas do setor. Na avaliação de Alvin, o número de produtores que investem em programas de qualidade do leite, genética, inseminação artificial, fertilização in vitro, vêm aumentando a cada ano. Porém, esse crescimento ainda é modesto considerando os mais de 1,3 milhão de estabelecimentos rurais dedicados à atividade no país.

O dirigente considera um equívoco taxar o leite brasileiro como um dos mais caros do mundo com base nos preços praticados no mercado. “O valor pago aos produtores pela indústria está nos mesmos patamares de países como Uruguai, Argentina, Estados Unidos, Chile e Nova Zelândia. A diferença é que no Brasil os custos de produção são maiores e são influenciados pelas altas cotações do milho e da soja no mercado mundial”, aponta. Alvin cita como exemplo a alimentação do rebanho e a mão de obra, que antes representavam 50% dos custos de produção e que atualmente já estão em 60%. “A mão de obra está, em média, 10% acima da inflação, mas dependendo da região esse percentual pode chegar até 14%. A grande maioria dos agricultores não tem margem para investir e aqueles que têm alguma acabam reduzindo os investimentos para evitar prejuízos. Isso acaba refletindo negativamente na produtividade do gado”, lamenta.

Esta assimetria em relação aos demais países produtores de leite também compromete a competitividade do produto brasileiro no tocante às exportações. “A CNA avaliou os custos de produção do leite em três propriedades no Estado de Goiás, onde a soja e o milho são cultivados em larga escala e que devido à proximidade os preços acabam sendo menores. Na média das três, o custo variou de R$ 0,90 e R$ 0,92”, relata Alvin. Com base nesses valores, que na avaliação do dirigente são muito otimistas se comparados a outras regiões do Brasil, para uma indústria exportar, com uma margem de lucratividade razoável, o preço pago ao produtor deveria ficar em torno de R$ 0,72. “Ou seja, não há competitividade para exportar. Mesmo no mercado interno, a indústria está espremida entre o produtor, que precisa ser remunerado pelos preços do mercado, e a rede varejista que quer vender o produto pelo menor preço”, reconhece.

Foco na qualidade -— Os produtores de leite das Regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul têm até 2016 para se adequarem às exigências de qualidade da Instrução Normativa nº 62, que entrou em vigor no início de julho. Apesar da existência de programas para capacitação, segundo a Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (Cati), da Secretaria de Agricultura de São Paulo, cerca de 40% dos produtores do Estado ainda não estão dentro dos novos padrões – que focam os níveis da produção leiteira na Europa.

Os produtores de leite das Regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul têm até 2016 para se adequarem às exigências de qualidade da Instrução Normativa nº 62, que substitui a Instrução Normativa nº 51

Nos Estados do Norte e Nordeste, onde a produção é menor, os produtores têm um ano a mais para adaptação, até 2017. A regra veio para substituir a Instrução Normativa nº 51, cujo prazo para adaptação venceu neste ano, e muda os parâmetros para a contagem bacteriana total (CBT) e a contagem de células somáticas (CCS). “O alvo principal agora é o consumidor. As mudanças estão em todos os itens que se referem a qualidade, regras para ordenha, higienização e armazenamento. Até o pequeno produtor, que faz a ordenha manual, pode se enquadrar”, revela Rubez. Alvim afirma que a ideia é chegar ao patamar dos produtos nativos da União Europeia. “A diferença é que eles estão com programas de qualidade há 50 anos e a Instrução Normativa nº 51 é de 2002. Além disso, cerca de 80% dos produtores brasileiros vêm da agricultura familiar, o que dificulta a padronização das atividades”, enfatiza.

Nos Estados do Norte e Nordeste, onde a produção é menor, os produtores têm um ano a mais para adaptação, até 2017. A regra veio para substituir a Instrução Normativa nº 51, cujo prazo para adaptação venceu neste ano, e muda os parâmetros para a contagem bacteriana total (CBT) e a contagem de células somáticas (CCS). “O alvo principal agora é o consumidor. As mudanças estão em todos os itens que se referem a qualidade, regras para ordenha, higienização e armazenamento. Até o pequeno produtor, que faz a ordenha manual, pode se enquadrar”, revela Rubez. Alvim afirma que a ideia é chegar ao patamar dos produtos nativos da União Europeia. “A diferença é que eles estão com programas de qualidade há 50 anos e a Instrução Normativa nº 51 é de 2002. Além disso, cerca de 80% dos produtores brasileiros vêm da agricultura familiar, o que dificulta a padronização das atividades”, enfatiza.