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Milho

Sob pressão

Muitos dos indicadores são desfavoráveis ao milho na esfera econômica – leia-se preço. A safra e a safrinha no Brasil vêm sendo volumosas, o estoque cresceu, a produção americana promete ser recorde e não dá para ficar muito otimista quanto às exportações

Arno Baasch arno@safras.com.br

 

Omercado brasileiro de milho prepara-se para o plantio da safra verão 2014/15 com um cenário pouco promissor nos preços. O quadro poderia ser bem diferente se o produtor tivesse aproveitado as oportunidades de venda no primeiro semestre, quando os valores mostravam-se bem mais atrativos se comparados à realidade atual. O analista de Safras & Mercado Paulo Molinari ressalta que inúmeros fatores contribuíram para que os produtores deixassem de vender o cereal no momento certo, apostando em patamares de preços melhores a partir da segunda metade do ano. “O cenário indicava um quadro de suporte nos preços do milho, diante do recuo na área plantada de verão e da quebra na produção pela estiagem. Havia uma previsão de bom corte na produção da safrinha e o câmbio mostrava-se especulativo no início de ano, o que gerava um ambiente de atenção e de sustentação aos preços de exportação. Além disso, existia uma forte expectativa no mercado internacional apontando para um corte na área plantada de milho nos Estados Unidos e uma sazonal atenção ao clima”, destaca.

Molinari lembra que o melhor cenário para os preços na primeira metade do ano ocorreu pela retração Case 2014/2015 23 de 6,8% na área plantada no Centro- Sul e pelos problemas climáticos registrados em diversos Estados produtores. “Devido aos preços mais atrativos da soja, muitos Estados reduziram a área cultivada de verão, caso do Mato Grosso (-51,2%), Mato Grosso do Sul (-36,5%), Rio Grande do Sul (-22,3%), Goiás e Distrito Federal (-12,5%), Paraná (- 7,6%), Santa Catarina (-6,1%) e São Paulo (-4,1%)”, comenta.

Logo a seguir, a seca verificada em muitos Estados, como São Paulo, Minas Gerais, Norte do Paraná e parte de Goiás, acabou comprometendo a produtividade média final das lavouras, que ficaram bem aquém das obtidas na temporada anterior. “Os maiores impactos da estiagem foram sentidos no Estado de São Paulo, que colheu somente 4.050 quilos por hectare de milho, volume inferior aos 6.370 quilos da safra anterior, e em Minas Gerais, que apresentou rendimento médio de 3.450 quilos, abaixo dos 4.750 quilos na safra verão passada”, destaca. Em consequência de menores área e produtividade obtidas, a colheita de milho verão 2013/14 atingiu 26,744 milhões de toneladas, abaixo das 33,046 milhões de toneladas registradas na primeira safra do ano passado.

Pico de preços - O analista ressalta que toda essa conjuntura teve reflexo nos preços internos do milho até a primeira metade do ano. “Após iniciar janeiro com uma média de R$ 24,13 no Centro-Sul, o mercado seguiu com valorização e atingiu o pico em março, cotado a R$ 28,34. Nos meses seguintes, o preço foi recuando gradativamente, a partir do desenvolvimento da safrinha, chegando a uma média de R$ 23,20 em junho. Esse valor, entretanto, com exceção de dezembro do ano passado, ainda se mostrou superior ao preço médio apresentado pelo cereal em quase todo o segundo semestre do ano passado”, afirma.

Os preços internos do milho no primeiro semestre foram inclusive melhores que os da exportação, em decorrência do câmbio, oferecendo uma excelente oportunidade para os produtores negociarem. Contudo, as informações distorcidas presentes no mercado fizeram com que as vendas deixassem de ocorrer no momento mais oportuno. “Algumas fontes de informação trouxeram expectativas eternamente positivas para os preços. Essa condição acabou provocando um atraso na comercialização de milho e até de soja por parte do produtor, o que levou a um baixo comprometimento dos volumes de exportação”, explica.

O analista recorda que, no primeiro trimestre, os preços de exportação nos portos giraram entre R$ 30 e R$ 32 para embarques em agosto e setembro. No entanto, até o final de maio, apenas 2,313 milhões de toneladas haviam sido embarcadas, volume bem distante da meta prevista para este ano, acima de 20 milhões de toneladas. Mesmo com um preço bom tanto no disponível quanto para a safrinha, poucos produtores negociaram o milho verão e anteciparam a venda da safrinha. A Região Sul, por ainda dispõe de boa parcela da safra de verão em poder do produtor e a safrinha vem sendo negociada de uma forma muito discreta na exportação.

Com o avanço da colheita da segunda safra e a forte queda de preços no mercado internacional, diante da expectativa de um novo recorde de produção de milho nos Estados Unidos, o mercado interno passou a enfrentar uma forte pressão de venda, o que trouxe reflexos nos preços do porto. “Como os preços do milho atingiram os menores patamares em quatro anos na Bolsa de Mercadorias de Chicago, os preços para exportação no Brasil acabaram recuando muito também, oscilando, no final de julho, entre R$ 23 e R$ 24, o que afeta diretamente as cotações do cereal no mercado doméstico”, comenta.

Molinari ressalta que o Brasil ainda dispõe de todo o segundo semestre para avançar nos negócios externos, mas precisará embarcar volumes significativos de milho para evitar um estoque exagerado em 2015. “Até o momento, Safras & Mercado estima a produção brasileira de milho em 75,953 milhões de toneladas, com um estoque inicial de 6,391 milhões e uma importação de 600 mil, atingindo uma oferta total de 83 milhões. Considerando uma previsão de consumo de 73,813 milhões de toneladas e uma exportação de 18,78 milhões de toneladas, ainda restaria um elevado estoque no mercado interno, de 9,19 milhões de toneladas”, alerta.

Safrinha surpreende - Molinari sinaliza que a safrinha brasileira surpreendeu as expectativas iniciais, seja pelo plantio acima do esperado, contrariando o indicativo de uma possível queda na área cultivada, seja pelas produtividades acima da média em boa parte das regiões produtoras. “Tivemos gratas surpresas com a área cultivada, que acabou sendo recorde, e, especialmente, com o clima. O bom perfil deste ano possibilitou bons resultados mesmo em áreas onde a estiagem persiste, caso de São Paulo. Até mesmo em regiões mais suscetíveis a riscos com o frio, como no Paraná, a safrinha até agora não chegou a ser ameaçada por geadas”, disse.

Segundo estimativas de Safras & Mercado, a área da segunda safra cresceu 0,5% frente ao ano passado e atingiu 8,033 milhões de hectares, com destaque para o grande avanço registrado em Goiás, de 26,8%, e em Mato Grosso, de 15,3%, que cultivaram 1,260 milhão e 1,421 milhão de hectares, respectivamente. A produção deve ficar em 43,976 milhões de toneladas, volume menor que o colhido na safrinha 2013, de 45,204 milhões. A maior produção será registrada no Mato Grosso, com 16,448 milhões de toneladas, seguida pelo Paraná, com 10,406 milhões, e por Mato Grosso do Sul, com 7,649 milhões. A produtividade média deve alcançar 5.014 quilos por hectare, abaixo dos 5.427 quilos por hectare obtidos na segunda safra do ano passado. “A queda ocorreu devido aos menores investimentos tecnológicos adotados pelos produtores nesta safra, além do menor volume de chuvas em alguns Estados produtores em relação ao ano passado”, pontua.

Clima favorável nos EUA - Se o clima no Brasil foi atípico durante a primeira metade do ano, apresentando uma seca anormal na safra verão e um quadro favorável ao desenvolvimento da safrinha, este período de transição para a ocorrência do fenômeno El Niño, previsto para esta segunda metade do ano, vem ocorrendo dentro de uma neutralidade, o que pode ser verificado também na safra norteamericana. De acordo com Molinari, a expectativa inicial de recuo na área plantada norteamericana, que atuava como um elemento altista para os preços do mercado brasileiro nos primeiros meses do ano, realmente se confirmou, sendo estimada em 91,6 milhões de acres.

Entretanto, o clima no cinturão produtor vem surpreendendo positivamente neste ano. “Após quatro safras com problemas continuados, as condições de desenvolvimento parecem perfeitas na maioria das regiões produtoras dos Estados Unidos, o que deve favorecer um período de polinização sem maiores dificuldades para as lavouras de milho, sugerindo uma perspectiva de elevada produtividade”, descreve. Em muitas localidades as produtividades estão potencialmente acima da média normal prevista ou já alcançada, o que deve contribuir para uma elevação da média de rendimento da safra norte-americana para patamares acima dos 165,3 bushels por acre previstos pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (Usda) no relatório de oferta e demanda de julho.

Em busca de alternativas — Com um cenário favorável à safra norte-americana pela frente e preços baixos no mercado internacional, além de um câmbio valorizado, apesar dos graves problemas nas contas externas brasileiras, as oportunidades de exportação mostram-se cada vez menores. Mais uma vez a situação tornou-se complicada pela falta de percepção do mercado interno em relação ao perfil de excedentes do Brasil e a necessidade de uma comercialização antecipada, diferente do que se fez no passado, quando os negócios dependiam de vendas somente no pós-colheita. “Avançar na comercialização antecipada de boa parte da safrinha para não depender da liquidez e das intervenções do Governo é algo que ainda precisa ser incutido no produtor brasileiro”, avalia.

Como alternativas aos baixos preços na exportação, os produtores, comerciantes e cooperativas estão à procura dos grandes consumidores para tentar uma melhor liquidação para o cereal. Esse movimento vai lotando os grandes consumidores internos, à medida que a colheita da safrinha avança. Molinari explica que diante das dificuldades tradicionais na logística, que desgastam a comercialização na tentativa de adequar os preços de compra e venda, muitos produtores têm investido em silos-bolsa, assumindo, em alguns casos, áreas nas propriedades que seriam destinadas ao plantio. “Alguns produtores mantêm o milho depositado nas cooperativas e outros começam a buscar Empréstimos do Governo Federal (EGF), no sentido de prolongar a comercialização no semestre e quitar dívidas de curto prazo”, informa.

O analista sinaliza ainda que, no Centro-Oeste, alguns produtores começam a comprar os insumos destinados ao cultivo da soja utilizando o milho recém colhido como pagamento. “De forma geral, com as baixas cotações do milho, é natural que os produtores decidam pela retenção de parte da produção. Porém, isto deve ser observado dentro de um horizonte de curto prazo, tendo em vista a logística da soja já em janeiro próximo e o prazo de armazenagem em silo-bolsa”, analisa. Devido à resistência do produtor em negociar com o mercado externo, os prêmios nos portos estão muito altos, mantendo o milho nacional acima dos preços norte-americanos. “Hoje temos prêmios acima de US$ 0,80 nos embarques de agosto, enquanto no Golfo do México os prêmios estão a US$ 0,60/bushel. Isto significa que, além de perder a janela de exportação, o Brasil apresenta uma competitividade externa muito baixa”, acrescenta.

A área da safra verão de milho deverá cair 6,1% em relação à anterior, ocupando 5,143 milhões de hectares; e Minas Gerais tende a liderar o cultivo, com 1,358 milhão

Queda de área em 2014/15 — A grande disponibilidade de oferta de milho existente no mercado interno, que tende a encerrar o ano com elevados estoques de passagem, o atual cenário de baixos preços e a expectativa de continuidade desse quadro nos próximos meses, os elevados custos de produção e o interesse na soja como uma commodity mais atrativa, devem contribuir para um recuo na área cultivada de milho na safra 2014/15, pela terceira temporada consecutiva, segundo a mais recente estimativa divulgada por Safras & Mercado.

Molinari indica que a área da safra verão deve cair 6,1% em relação à deste ano, ocupando 5,143 milhões de hectares. “Tende a ocorrer um recuo nos principais Estados produtores, especialmente no Rio Grande do Sul, com 9,85%, e no Distrito Federal e em Goiás, com 8,7%. Apesar da expectativa de recuo de 5,6%, Minas Gerais tende a liderar o cultivo de milho na safra de verão, com 1,358 milhão de hectares, seguido pelo Rio Grande do Sul, com 1,135 milhão de hectares”, afirma. Molinari entende que, apesar da expectativa de menor área plantada e de uma possível queda nos investimentos em tecnologia, os indicativos de clima mostram-se muito favoráveis para o desenvolvimento da safra de verão com a ocorrência do fenômeno El Niño na América do Sul. “A previsão de um maior regime de chuvas pode favorecer um incremento na produtividade média frente à obtida neste ano, que foi estimada em 5.605 quilos por hectare”, acrescenta.

O analista ressalta que, a partir do ganho de produtividade, é possível estimar uma colheita de verão 8% maior que a obtida neste ano, alcançando 28,827 milhões de toneladas. “O cenário atual aponta para uma produção de verão dentro da normalidade, que deve ser liderada por Minas Gerais, com 6,451 milhões de toneladas (bem acima das 4,961 milhões deste ano), seguido do Rio Grande do Sul, com 5,902 milhões, e do Paraná, com 5,667 milhões de toneladas. Outro Estado que tende a recuperar a produção é São Paulo, com safra prevista de 3,379 milhões de toneladas, acima da comprometida safra deste ano, afetada pela seca, que ficou em 2,155 milhões”, projeta.

Como existe uma necessidade de rotacionar culturas para preservação da qualidade do solo, muitos produtores que deixarão de cultivar milho no verão, optando pela soja, voltarão a investir no cereal na segunda safra. Apesar disso, o indicativo neste momento é de que a safrinha não repetirá a área recorde cultivada neste ano, de 8,033 milhões de hectares, ficando 1% abaixo, com 7,949 milhões de hectares. “As maiores quedas seriam verificadas em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, de 3,3% e 3% respectivamente, Estados que atualmente estão enfrentando grandes dificuldades com os baixos preços”, afirma.

Estados Unidos: após quatro safras com problemas climáticos, as condições de desenvolvimento mostram-se perfeitas na maioria das regiões e a produtividade deverá ser alta

Mesmo com o recuo estimado na área, a produção prevista para a segunda safra ficaria em 43,519 milhões de toneladas, não muito distante das 43,976 milhões de toneladas de 2013/14. A produtividade esperada para a segunda safra, por enquanto, é similar à de 2014, de 5.474 quilos/ hectare. O levantamento de Safras & Mercado estima que haverá uma queda de 2,6% na área cultivada de milho em 2014/15, que poderia alcançar 14,753 milhões de toneladas. “A produção e a produtividade média inicialmente previstas, por outro lado, devem chegar a 77,992 milhões de toneladas e 5.286 quilos por hectare, respectivamente, superando os resultados obtidos neste ano”, revela Molinari.