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Radiografia das principais atividades agrícolas, relação de instituições e empresas do agronegócio brasileiro.

Tabaco

Perigo africano

Há 20 anos, o Brasil é o principal exportador de tabaco, com vendas hoje para 102 países. Mas a concorrência está cada vez mais acirrada. Já aqui, o preço ao agricultor diminuiu

Thais D’Avila

O Brasil foi o maior exportador de tabaco do mundo pelo 21º ano consecutivo em 2013. Mesmo assim, produtores brasileiros estão de olho na conjuntura internacional. O ano de 2013 marcou um incremento na oferta dos países africanos, maiores concorrentes da produção nacional. Os números têm apresentado certa estabilidade. Foram 706 mil toneladas comercializadas em 2013, “dentro do que indústrias e produtores previam”, afirma Iro Schünke, presidente do Sindicato Interestadual da Indústria do Tabaco (SindiTabaco), o que gerou receita de R$ 5,3 bilhões.

Porém, para 2014 pode haver uma pequena alteração. Os números do primeiro semestre foram tímidos, mas há a expectativa de recuperação na segunda metade do ano. Conforme dados do sindicato, no semestre houve 36% de redução nas vendas externas em relação ao mesmo período do ano anterior. “Este ano, existe uma tranquilidade relativa. Estamos exportando menos por alguns fatores. Há uma demanda menor este ano por parte dos importadores e isso nos preocupa”, esclarece Schünke.

Por isso mesmo, o presidente do SindiTabaco afirma que não há acomodação. “Nós exportamos para 102 países, nas mais diferentes regiões. Não há uma zona de conforto. Se um dia cair o consumo, isso vai afetar. De qualquer forma, como nós somos produtores de boa qualidade, junto com Zimbábue e Estados Unidos, já conquistamos um mercado. Varia um pouco de um ano para outro, mais pela necessidade de os clientes importarem do que exatamente por correr o risco de o produto em si ser entregue por outro produtor”, avalia.

No continente africano estão as principais ameaças à supremacia brasileira. É o que aponta o presidente da Associação dos Fumicultores do Brasil (Afubra), Benício Albano Werner, entidade que reúne os milhares de pequenos produtores de tabaco da Região Sul. “Nós temos que olhar os concorrentes. Nós sempre consideramos os africanos os principais concorrentes dos brasileiros”, ilustra. O dirigente explica que, além do aumento excessivo na produção, os africanos vendem no mesmo período da comercialização brasileira.

É preciso olhar para fora, mas também ficar atento à realidade econômica interna, especialmente relativa ao câmbio. “Se a relação cambial fica ruim, o nosso tabaco fica caro. O câmbio tem sido um dificultador”, lamenta Schünke. “Se o real fica muito valorizado, nós perdemos em competitividade de custo, principalmente em relação aos países africanos, que têm um custo de produção muito menor – especialmente na mão de obra”, compara.

Enquanto isso, a área plantada no Brasil reduziu na safra 2013/2014 em relação à anterior. Foram plantados 309,3 mil hectares, contra 313,6 mil na anterior. Mesmo assim, a receita será um pouco maior, de R$ 5,38 bilhões – em função do reajuste da tabela em 6%. Mas a lucratividade do produtor, conforme Werner, deverá ser menor. A diferença nos números impressiona: em 2013, na variedade Virgínia, o lucro foi de 22%, e na Burley, de quase 40%; nesta safra, a perspectiva é de que o Virgínia fique com 8% a 10%, e o Burley, em 12%. “É uma incógnita. Nunca antes uma variedade como o Burley teve lucratividade tão alta como no ano passado. Houve muita demanda. O que ficou bem na contramão este ano”. Ele acredita que um dos motivos seja o aumento da produção da variedade por países africanos como Malawi e Moçambique, que haviam reduzido a área em 2012/2013 e retomaram nesta safra.

Em 2013, na variedade Virgínia, o lucro ao agricultor foi de 22%, e na Burley, de quase 40%; nesta safra, a perspectiva é de que o Virgínia fique com 8% a 10%, e o Burley, em 12%

Um novo concorrente: cigarro eletrônico -— O presidente da Afubra, que é vice-presidente da Associação Internacional dos Produtores de Tabaco (ITGA), recebeu este ano o resultado de uma pesquisa que aponta uma queda inédita na venda de cigarros: de 6,4 trilhões de unidades em 2012 para 6,2 trilhões em 2013. “Essa queda de consumo trouxe uma surpresa muito grande para nós”, afirma Werner. E, segundo ele, essa queda é uma das causas da redução das exportações no primeiro semestre. Já para o representante das indústrias, Schünke não acredita que isso possa representar um grande problema. “Temos a redução em alguns mercados e ampliação em outros. Países asiáticos ainda estão ampliando. Na União Europeia, nos Estados Unidos e no Brasil, está havendo redução. Esse percentual ainda não é tão significativo”, afirma Schünke.

Um produto que vem sendo observado com atenção pelo setor do tabaco é o cigarro eletrônico. O aumento no consumo deste item vem sendo considerável. “No Brasil, ainda não existem fábricas, mas a importação vem crescendo”, diz Werner. Conforme o dirigente, só no ano de 2013 o produto movimentou, no mundo, US$ 3 bilhões. O cigarro eletrônico é um equipamento com três compartimentos que contém uma bateria, uma resistência e nicotina. Com o aquecimento da substância, dá a sensação de consumo ao usuário, sem gerar fumaça ou odor. “Estão usando até em voos”, revela Werner. O presidente do SindiTabaco também está acompanhando este movimento. “Para termos uma ideia mais clara sobre isso, teremos que esperar mais um pouco. Pois ele não é regulado e, em alguns países, existe discussão na área médica. No mundo, se observarmos, há uma grande discussão”.

Pontos fortes -— O comprador internacional de tabaco cada vez mais observa – tanto quando importador de alimentos ou de outros produtos – a preocupação do Brasil com questões ambientais e sociais. Ou seja, a produção social e ambientalmente correta. “Cada vez mais, os grandes clientes e também algumas regiões mais do que outras, estão olhando para isso. E nesses aspectos o Brasil realmente está à frente de outros países”, comemora Schünke.

A iniciativa mais evidente, do ponto de vista ambiental, é o uso do plantio direto na cultura do tabaco, que vem crescendo a cada ano e já alcança 60% da área plantada. Conforme Schünke, o reflorestamento também é importante, já que a cura do tabaco é feita com estufas aquecidas à lenha. “Só usamos lenha de mata reflorestada. Não usamos mata nativa. Até temos um acordo assinado com o Ibama em 2011 para a proteção da Mata Atlântica. Também ajudamos o Ibama a monitorar algumas áreas para ver como está a reposição florestal”. Outra iniciativa é o recolhimento de embalagens vazias de defensivos. O programa que prevê esse trabalho existe desde 2000 e faz com que os produtores possam devolver os frascos na própria comunidade onde moram.

Na área de responsabilidade social, o compromisso das entidades é não utilizar mão de obra infantil ou juvenil. O SindiTabaco tem um programa reconhecido pela Organização Internacional do Trabalho como um exemplo a ser seguido. O Crescer Legal foi criado para conscientizar os produtores a não utilizarem o trabalho dos filhos na atividade. “Como existe um contrato entre o produtor e a empresa, e para que esse contrato seja realizado, as indústrias exigem que o produtor apresente a matrícula dos filhos que ainda estão em idade escolar. Até os primeiros nove anos de estudo e no final do ano, precisa apresentar os atestados de frequência escolar. Caso não apresente, o contrato não é renovado”, descreve Schünke.