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Uva/Vinho

O mundo na mira

As exportações de vinhos e espumantes deram um salto de quase 400% no início do ano. Segmento trabalha forte para se modernizar e ainda chamar a atenção no exterior

Luís Henrique Vieira

A produção brasileira de uvas processadas caiu de 611,3 mil toneladas em 2013 para 602,5 mil em 2014, segundo dados do Ministério da Agricultura. A queda deve-se ao excesso de chuvas na Serra Gaúcha na segunda metade da safra deste ano. No entanto, o setor vitivinícola é otimista com relação ao futuro devido à crescente popularidade do consumo de vinhos, embora reconheça os problemas de competitividade. “No mercado interno, precisamos fortalecer a cultura do vinho e incentivar o consumo moderado do vinho atrelado a hábitos saudáveis. Temos muito a crescer no mercado interno, com regiões com potencial para serem grandes mercados”, afirma Carlos Paviani, diretor executivo do Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin).

Mas foi no mercado externo o destaque de 2014. As exportações de vinhos e espumantes, segundo o Ibravin, cresceram 375,5% nos quatro primeiros meses do ano em comparação com o mesmo período de 2013, para um montante de US$ 5,75 milhões. "Nossas exportações quadruplicaram motivadas pelo interesse pelo Brasil e a Copa. Fizemos diversas ações para promover o vinho", justifica Paviani. O resultado seria consequência de Fotos: Divulgação uma estratégia de divulgação dos vinhos brasileiros em parceria com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex- Brasil). O projeto chamado Wines of Brasil faz contato com redes varejista dos Estados Unidos, da China e da Europa, além de divulgar os produtos para jornalistas estrangeiros e promover participações em feiras.

Quanto aos problemas de competitividade com os vinhos importados, especialmente do Chile e da Argentina, a principal reclamação do setor é em relação à alta carga de impostos e o sistema de substituição tributária, que faz com que o produto tenha preços diferentes em cada Estado por conta da política fiscal. Segundo Paviani, o Ibravin tenta enquadrar as vinícolas no Simples Nacional, um regime tributário mais simples. “Isso pode facilitar na desburocratização e aumentar a competitividade das micro e pequenas empresas do segmento”, justifica. Em 2013, as importações brasileiras de vinho totalizaram 72,2 milhões de litros, sendo 57,9% provenientes do Chile e da Argentina (28,4 milhões e 13,4 milhões).

Para Luciano Vian, presidente da Associação Brasileira de Enologia, um agravante para a falta de competitividade é a questão logística. “Boa parte do nosso custo está na logística. A região produtora é muito distante dos grandes consumidores como Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte”, descreve. Por outro lado, Vian acredita que a solução para os problemas do setor estaria no ganho de escala de produção. “Esse marketing de reconhecimento a longo prazo vai dar resultado. O consumidor precisa saber qual vinho atende suas necessidades. Se o consumo aumentar muito, o Governo pode reduzir o imposto e mesmo assim aumentar a arrecadação. O varejo e os restaurantes podem diminuir o lucro por unidade e diminuir o preço final. Uma coisa leva a outra”, argumenta. Ele ainda exemplifica um dos problemas decorrentes da falta de escala de produção de vinhos e espumantes. “Há uma falta de fornecedores de garrafas de espumantes porque a demanda do setor de cerveja é muito maior. Todos os anos enfrentamos isso”, conta.

Programa de modernização —- Como resposta às demandas do setor, o Governo Federal criou o Programa de Modernização da Vitivinicultura (Modervitis) em 2010, que busca orientar a produção da agricultura familiar de forma que aumente a qualidade das uvas. O programa tem três eixos principais, segundo José Fernando da Silva Protas, pesquisador da Embrapa Uva e Vinho. “Há uma estruturação a partir da adesão de vinícolas. Cada vinícola terá que ter uma rede de vinicultores tradicionais vinculados a elas com adesão espontânea. Uma assistência técnica gratuita é disponibilizada pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário”, elenca Protas.

Segundo o pesquisador, a produção da agricultura na Serra gaúcha é caracterizada por defasagem tecnológica e uma “manutenção de princípios e saberes” da tradição italiana, geralmente com matéria-prima de baixa qualidade. “Temos que orientar melhor o produtor quanto ao uso de açúcar. Vamos oferecer linhas de crédito para acesso à tecnologia e melhorar a relação entre agricultores e vinícola, que é um entrave. É preciso um contrato que defina a obrigação de ambas as partes”, esclarece.

O Governo Federal criou o Programa de Modernização da Vitivinicultura (Modervitis), que busca orientar a produção da agricultura familiar de forma que aumente a qualidade das uvas

Entre as linhas de crédito disponíveis está o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) para os pequenos produtores, e as linhas do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para cooperativas e vinícolas de pequeno e médio porte. Frequentemente, produtores se queixam por sobras de produção. Para Vian, é vital que os agricultores se associem a alguma vinícola. “Há um distanciamento que precisa ser melhor trabalhado. No Paraná, chega a ter produtores despejando uvas nas rodovias. Eles devem se associar a alguma vinícola e produzir somente o necessário”, afirma.