Leite

 

Ordenhando o COMPUTADOR

Leonardo Dantas da Silva*

A pecuária leiteira moderna caminha a passos largos através da evolução tecnológica, no caminho da automação. É um caminho sem volta que visa diminuir as variações do processo produtivo, além de propiciar uma avaliação imediata de indicadores de desempenho. Porém, no caminho da automação existem etapas que devem ser cumpridas para garantir confiança e qualidade dos processos.

Sabemos que os cuidados com a alimentação, manejo e conforto das vacas em lactação são importantíssimos para promover a produção de altos volumes de leite de qualidade. Da mesma maneira, devemos cuidar para que as anotações geradas no dia a dia das fazendas tenham qualidade, de forma a assegurar análises confiáveis.

Todos sabem que existe variação na produção animal, poucos mensuram e pouquíssimos usam para a tomada de decisão. Em se tratando de saúde animal, a padronização dos processos, etapa necessária para se conseguir a implantação da automação, não é tão simples. Cada propriedade costuma ter uma maneira própria de identificar, qualificar e anotar as ocorrências sanitárias.

A utilização dos conceitos de Boas Práticas de Documentação na coleta e no armazenamento de dados visa garantir que as análises geradas por sistemas informatizados sejam as mais reais possíveis, dessa forma, também as mais confiáveis possíveis. Além de ser necessária a rotina de anotações, é necessário frequência e padrão na coleta de dados, que serão então digitalizados em softwares de gerenciamento zootécnico.

Isso mesmo: em se tratando de análise de dados de saúde animal, será sempre necessário que uma pessoa digitalize dados, portanto, estamos sujeitos à variação causada por diferentes digitadores, com diversos graus de instrução. Podemos ter os equipamentos mais modernos e os melhores softwares, mas se a coleta de dados não for adequada, teremos análises que não representarão a realidade.

Critérios gerais

1. Permanentes: use apenas caneta esferográfica, de preferência preta. Não use lápis.

2. Atribuíveis: devemos ser capazes de identificar a pessoa que fez o registro.

3. Legíveis: deve ser fácil de se ler.

4. Precisos: devem possuir a informação correta.

5. Oportunos: registrados tão logo quanto possível ao término da ação.

6. Claros: compreendidos por qualquer pessoa.

7. Completos: todos os campos devem ser preenchidos.

8. Verdadeiros: devem conter o registro dos fatos que realmente ocorreram.

9. Original: o local de anotação deve ser o primeiro a ser preenchido com os dados, não se deve utilizar rascunhos ou post-its.

Quando as anotações contêm erros, é necessário corrigir adequadamente, sem o uso de corretivos, rasuras ou sobrescritos. A maneira correta de se corrigir é:

1. trace uma linha horizontal sobre o trecho que contém erro;

2. faça a correção o mais próximo possível do dado que precisa ser corrigido;

3. identifique o motivo da correção;

4. rubrique, identificando quem fez a correção.

Acima vemos a maneira incorreta de se corrigir os erros, com uso de corretivos, rasuras e sobescritos.

Algumas letras e números são confundidos mais facilmente. Cuidado adicional deve haver com elas, evitando-se erros.

0 e 6, 1 e 7, 2 e Z, 3 e 8, 4 e 9, 5 e S, C e G, U e V, X e Y, G e 6, L e 1, B e 8, H e 4.

Com o intuito de organizar os dados de forma confiável e precisa, iniciamos em abril de 2014 os trabalhos de acompanhamento dos 90 Dias Vitais em fazendas visitadas. Durante esse tempo, diversas oportunidades ligadas à análise de dados foram identificadas. Porém, análises em fazendas leiteiras são repletas de distorções relativas às doenças, devido às inconsistências que vão além do anteriormente discutido sobre a qualidade e o registro dos dados: enfrentamos também problemas relacionados à definição e à detecção das doenças.

No quadro abaixo temos as doenças mais importantes do período de 90 Dias Vitais. Para cada uma é necessário padronização quanto a sua definição. A seguir temos um exemplo de definição (no caso, a mastite clínica):

Qual o treinamento realizado para a correta detecção das doenças?

Há um folguista treinado para manter o padrão da detecção das doenças?

Passadas as etapas citadas, teremos então uma série de resultados, gráficos, tabelas, análises, gerados por softwares no mais variado grau de detalhamento. Decisões serão tomadas, investimentos serão feitos, descartes serão programados, novos medicamentos serão utilizados com base nessa sequência iniciada ao lado da vaca, local onde as coisas acontecem!

A qualidade das análises está melhorando como consequência de uma motivação criada junto à equipe das fazendas para uma coleta correta das informações necessárias e em função disso já é possível vislumbrar, em curto prazo, a criação de um grupo de fazendas para se fazer um benchmarking relacionado aos dados dos 90 Dias Vitais. Somente com dados precisos e confiáveis é que teremos a oportunidade de “ordenhar o computador”, caso contrário, estaremos mais uma vez dependendo de resultados de outros países e mercados, muitas vezes não comparáveis à realidade de nossas fazendas.

Os conceitos anteriormente apresentados fazem parte do Elanco Knowledge Solutions (EKS), formado por uma equipe de analistas, desenvolvedores e especialistas no assunto focado em serviços de dados, cujo principal objetivo é oferecer aos clientes serviços que vão além do portfólio de produtos e que incluem soluções inovadoras, podendo fazer a diferença nos negócios. O intuito é ajudar os produtores a transformar os dados coletados em informação e conhecimento para gerar tomadas de decisões assertivas, maior rentabilidade e antecipação a fatores que podem interferir na produção. É a prevenção a partir do conhecimento gerado em cada fazenda!

Uma das ferramentas do EKS, recém lançada no mercado, é o Dairy Analytics. Trata- -se de um software em que, através da migração de dados dos softwares de gerenciamento zootécnico de cada fazenda, podemos rodar análises padronizadas ou análises customizadas, focadas nas necessidades do cliente relacionadas principalmente aos 90 Dias Vitais. O conhecimento gerado através dessas análises vai direcionar as ações para que no futuro o resultado seja melhor que o atual.

Na página 69, é possível ver exemplos de uma análise customizada, na qual temos a produção das vacas entre 0 e 90 DEL (Dias em Lactação) saudáveis versus vacas que tiveram episódio de mastite clínica (Gráfico 1) e a incidência de doenças entre 0 e 60 DEL (Gráfico 4). São muitas as oportunidades relacionadas ao período de 90 Dias Vitais. Através desse conhecimento gerado pela análise de dados, podemos:

1.elaborar protocolos visando às terapias mais efetivas;

2.melhorar o gerenciamento do trabalho (focando no que realmente importa);

3.analisar o retorno sobre investimentos realizados;

4.ter um correto alinhamento de expectativas (com metas realistas);

5.realizar análises comparativas dentro do próprio rebanho;

6.realizar o benchmarking, isto é, posicionar a fazenda em relação às fazendas de condições semelhantes de modo a identificar oportunidades de melhoria.

No gráfico 2, um exemplo de avaliação geral das doenças por mês do ano.

Incidência de principais doenças de 0 a 30 DEL

Mesmo rebanho, agora com a média de ocorrência das doenças entre 0 e 30 DEL, no mesmo período.

Acima, dados médios do período avaliado, com coluna de benchmarking.

Para cada fazenda, uma avaliação customizada. Para um grupo de fazendas, o benchmarking posicionando cada cliente em relação ao grupo. Assim, através de coleta seguindo as boas práticas teremos dados confiáveis digitalizados no computador. Por meio dele, o cliente terá análises confiáveis, capazes de impactar o negócio. O objetivo é ajudar os produtores a moldar o futuro pela realização de ações baseadas nesse conhecimento.

*Leonardo Dantas é senior technical consultant da Elanco