Caindo na Branquiária

 

Cruzamento através de monta natural no Brasil tropical

Alexandre Zadra

Sabemos que a inseminação artificial nem sempre é possível nos rincões mais longínquos de nosso País, seja por falta de mão de obra de qualidade, seja por motivos de ordem estrutural das fazendas. Assim, a monta natural se faz presente nessas propriedades.

Cabe destacar que 90% do rebanho brasileiro de matrizes é servido por touros. No Sul do Brasil, os reprodutores que servem a campo são de origem europeia ou bimestiços como Braford e Brangus; já quando dirigimos nossa atenção ao Centro Norte, encontramos 95% dos touros com sangue de origem zebuína, grupamento genético que suporta as altas temperaturas do verão úmido dessa região.

É por esse motivo que o zebu é presença constante nos leilões e nos currais dos frigoríficos, formando a base de matrizes e a forma da produção de carne.

No entanto, é comum me questionarem sobre a possibilidade ou não de fazermos cruzamento usando touro na monta. Antes de tudo, devemos deixar claro para os leitores que o conforto térmico dos animais é preponderante e essencial para que esses tenham apetite e consigam ingerir a quantidade de forragem necessária para sua manutenção. Devendo essa máxima ser estendida aos touros, que durante a estação de monta têm uma exigência maior pelo desgaste com as coberturas.

Quando pensamos em conforto térmico, sabemos que tal conceito passa pelo conhecimento do nível de metabolismo ou produção de calor endógeno dos animais. No caso da região tropical, todo e qualquer animal que tenha em seu DNA mais de 50% de sangue de raças de clima temperado, conhecidos como europeus, deverá sofrer as consequências de um metabolismo mais alto, ingerindo menos calorias diárias quando a temperatura estiver acima de 22 graus.

O cruzamento entre raças torna-se mais efetivo quando geramos 100% de heterose entre elas, ou seja, se nossa matriz no Brasil Centro Norte é zebuína, devemos pensar em utilizar um reprodutor taurino adaptado aos trópicos para atingir esse intento.

Sabemos que cada grei defende sua raça perante seus associados e clientes, como ocorre por vezes com criadores de raças europeias puras que vendem seus touros para cobertura a campo no Centro Norte do País, ocasionando, quase na maioria das vezes, frustração aos criadores que os adquiriram e não tiveram os cuidados nutricionais, fornecendo ração balanceada, bem como provendo conforto térmico aos mesmos.

Como taurinos adaptados temos as raças Bonsmara, Caracu e Senepol, dos quais podemos destacar algumas características intrínsecas. O Bonsmara foi criado na África do Sul, oriundo do cruzamento de duas raças britânicas (Hereford e Shorthorn) e o Africaner (Taurino Sanga), sendo selecionado para produzir animais adaptados ao clima subtropical com excelente eficiência alimentar, além de carne macia e fêmeas férteis e com habilidade materna. No entanto, são animais com um metabolismo mediano nos moldes dos bimestiços Brangus e Braford.

O Caracu é um taurino adaptado aos trópicos com biótipo continental, sendo selecionado no passado para boi de carro, desenvolvendo sua musculatura no dianteiro e gerando fêmeas que por vezes eram servidas para produzir o leite do Brasil colônia. Nas ultimas três décadas, a raça tem sofrido mudanças importantes com a seleção voltada para melhor musculosidade no posterior, mas sem deixar de ser uma raça de grande porte.

Já o Senepol é formado na Ilha de St. Croix (Caribe), através de duas raças taurinas: o N’Dama, um taurino de pequeno porte adaptado e criado no Senegal, cruzado com a raça Red Poll (Europeu Britânico). O Senepol possui um biótipo britânico, sendo selecionado para produzir a carne e o leite nas Ilhas Virgens, sendo de pequeno porte, com fêmeas precoces e com ótima habilidade materna e machos com ótimo ganho em peso no calor extremo.

Conhecidas as aptidões de cada raça taurina adaptada, podemos recomendar os seguintes cruzamentos a campo sobre suas matrizes zebuínas na busca da maior eficiência.

Podemos utilizar touros Senepol na vacada zebu, produzindo fêmeas meio-sangue Senepol de porte médio, com habilidade materna e eficientes em produção. Sobre essas fêmeas meio-sangue Senepol retidas para reprodução, utilize touros Caracu para se fazer animais de grande porte ou touros Bonsmara a fim de se gerar produtos de médio porte, com melhor acabamento de carcaça.

Quero deixar claro que a utilização de touros bimestiços como Brangus, Braford e Canchim no Centro Norte do País é mais eficiente e torna-se viável quando temos lotes pequenos de vacas com cada touro, entrando com suplementação sempre que possível aos mesmos. Assim, eu os utilizaria sobre os cruzados das raças adaptadas, gerando heterose e adaptabilidade compatível ao clima tropical.

Sei que estamos longe de produzir a quantidade de touros adaptados que atenda a demanda do mercado, em que minha preocupação, agora, é estarmos disseminando genética de qualidade duvidosa dessas raças, já que todo macho nascido dessas raças vira touro. Vamos com calma e critério.

Alexandre Zadra - Zootecnista zadra@crigenetica.com.br