Do Pasto ao Prato

 

PRODUÇÃO DE GENÉTICA: MENOS PIROTECNIA, MAIS DISCIPLINA

Fernando Velloso é médico-veterinário e sócio-proprietário da Assessoria Agropecuária FF Velloso & Dimas Rocha – www.assessoriaagropecuaria.com.br –

E seguimos na estrada dos que buscam melhores reprodutores. Por estarmos no Sul, a vivência que tentamos compartilhar quase sempre traz exemplos na produção de taurinos. Em junho, a Select Sires do Brasil promoveu a 1ª Gira Integração Corte SC/RS, com produtores de Santa Catarina interessados em conhecer a pecuária do RS e a produção de genética.

Neste texto, tentarei trazer alguns dos aprendizados específicos de uma visita, na Cabanha Seival del Toro (Cachoeira do Sul), selecionador de Angus (PC) nos últimos 15 anos. Foi apresentado como se formou um muito bom plantel sem muita pirotecnia, mas com clareza de objetivos, processo seletivo bem definido, incorporação gradual e contínua de tecnologia e, principalmente, muita continuidade e disciplina.

Somos bastante requeridos para um trabalho que chamamos de “Projeto de Plantel”, ou seja, para dar suporte a criadores que pretendem ingressar no mercado de reprodutores. A descrição do histórico recente de um rebanho de seleção é um bom conteúdo para quem pretende ingressar nesse segmento. Aos que não pretendem dedicar-se a produção de touros, servirá como um bom alerta : touro registrado não quer dizer sempre touro selecionado.

Estudo de caso – “Cabanha Seival del Toro”

Esse projeto de genética pode ser considerado “jovem”, pois tem aproximadamente 15 anos. Tempo que, em bovinos de corte, é considerado “pouco” em função do longo intervalo entre gerações. Vamos então revisar como foi formado esse plantel desde o início dos anos 2000.

Apresentação dos dados (DEP´s) da Geração 2014.

A) Base do plantel

O plantel foi formado com aquisição de algumas fêmeas puro controladas (PC) e também com a incorporação de fêmeas base “Angus definido” do próprio gado do criador. Nesse núcleo inicial do rebanho, foram usados touros considerados “fundadores” para trazer consistência genética e caracterização racial aos animais. Foram usados principalmente o touro preto Líder (OCC Headliner 661H) e o vermelho Oriental (Doble Hache 33 Oriental), respectivamente um touro de genética americana e outro canadense, mas ambos com “biótipo” argentino (pureza racial, profundidade corporal e precocidade) e positivos na avaliação genética da Argentina e do Brasil. Buscou-se com essa decisão um tipo animal adaptado e produtivo a condições pastoris e matrizes que pudessem ser acasaladas com touros de mais performance, ou seja, touros “modernos”. Por alguns anos, esses touros foram usados massivamente para que a sua genética fosse bem influente na composição genética das matrizes de diferentes gerações.

B) Processo de seleção

O processo de seleção é bastante simples, sendo retidas no rebanho as matrizes prenhes e identificados através da avaliação genética os melhores machos para serem ofertados no mercado. Cada geração é avaliada ao DESMAME e posteriormente ao ANO/SOBREANO. Em cada fase, são descartados aproximadamente 50% dos machos (animais negativos na avaliação genética, correspondentes aos DECAS 6 a 10). Com essa pressão de seleção, restam aproximadamente 25% dos machos nascidos. Atualmente, essa rotina de seleção deixa como touros somente 20 animais, de um rodeio de 150 matrizes. Como o critério para seleção de touros é muito objetivo, o grupo final de machos é muito bom e composto por touros DECA 1 e 2. Complementarmente às DEPs para crescimento deu-se grande atenção ao bom desenvolvimento testicular, firmando-se a seleção de touros com muito bom perímetro escrotal.

Matrizes Red Angus

C) Utilização de touros modernos ou “de performance”

Com o rebanho passando por sucessivos descartes e seleções, as características buscadas foram sendo fixadas (porte, conformação, caracterização racial, precocidade sexual, “aptidão pastoril”, facilidade de parto, etc.) e tornou-se viável o uso de touros mais “extremos” (crescimento, musculosidade, porte, etc.). Para exemplificar essa situação, foram usados nessas matrizes base Líder/ Oriental os americanos GAR GRID MAKER em fêmeas pretas e LCC FIELD DAY, em vermelhas. Ambos são líderes de Sumários e estiveram ranqueados como #1 para Índice Desmame ou Índice Final. Esse “perfil” de reprodutores, se usados em rebanhos despadronizados ou com pouca consistência genética, podem trazer animais extremos (tardios), heterogêneos e normalmente com pouca adaptação a sistemas pastoris.

Se aplicados critérios de seleção vinculados à eficiência reprodutiva, logo esses animais são excluídos ou permanecem com pequena participação na genética do plantel, pois são representados por poucos exemplares. No caso da Seival del Toro, esses touros “modernos” trouxeram grande contribuição, pois agregaram muito desempenho aos animais (comprovados pelas DEPs), porém, sem uma mudança total no biótipo buscado. Aqui fica uma reflexão sobre o encanto dos famosos touros TOP 1%, 0,1%, etc., pois são ferramentas genéticas disponíveis, mas para aplicação bem pensada.

D) Incorporação de tecnologias

Os novos selecionadores normalmente são muito receptivos em adotar novas tecnologias, pois estão entusiasmados, por buscarem formas de diferenciação de seu produto e também por um pouco de confusão ou falta de foco.

Recentemente o rebanho do estudo de caso incorporou a avaliação de carcaças (ultrassonografia) em sua rotina de seleção. A safra que será comercializada em 2016 já contará com DEPs para características de carcaças e foi com satisfação que constatou-se que as decisões de seleção estavam acertadas, pois os dados de carcaça dos touros são bastante positivos e os melhores animais para crescimento (DEP Desmame e DEP Final) também são animais DECAs 1, 2 ou 3 para as características medidas na ultrassonografia.

A transferência de embriões (TE) tem sido usada para ampliar a genética de matrizes superiores ou de fêmeas superiores adquiridas de outros rebanhos. Porém, a TE não afetou (ou não “esculhambou”) os pilares do programa de seleção (estação de monta, critérios de seleção, etc.), pois é usada para um número pequeno de animais, sem provocar maiores alterações no manejo do rebanho e no sistema de produção e seleção da propriedade.

Como o título adiantou, o caso apresentado aqui não traz muita pirotecnia, técnicas revolucionárias ou critérios de seleção pouco usuais. Sequer falamos de um “guru importado”. Na verdade, o case não traz muita ou nenhuma novidade. O que o plantel Seival del Toro fez nos últimos anos foi aplicar o “beabá” da zootecnia com disciplina e continuidade: fixação das características buscadas nas matrizes, uso de poucos pais provados, avaliação do desempenho dos animais, comparação do desempenho entre eles e dentro da raça (avaliação genética), descarte dos negativo e venda dos positivos. O processo é simples, mas feito por poucos. Disciplina e continuidade não é para todo mundo. Só para os bons produtores de touros!!!