O Confinador

 

INSERÇÃO DO CONFINAMENTO NO SISTEMA LAVOURA-PECUÁRIA

Daniel Rodrigues*

A integração lavoura-pecuária (ILP) ganhou espaço considerável nas fazendas do Brasil nos últimos 10 anos. Neste período, muitos avanços e tecnologias foram disponibilizados aos produtores visando atender as necessidades para integrar os sistemas de produção buscando não só economia no uso de recursos, mas também o aumento de faturamento das atividades com ganhos em escala e produtividade.

Em 2015/2016, vimos a elevação nos preços dos grãos como soja e milho, este último chegando a mais 55% de aumento, o que onera bastante o custo da engorda intensiva no Brasil, principalmente quando objetivamos o maior tempo de permanência dos animais dentro do confinamento, visando ganhos de carcaça e maiores rendimentos de abate. Essa maior permanência está ligada a dietas mais adensadas no terço final da engorda, o que aumenta a demanda de alimentos energéticos como o milho, o sorgo e a casca de soja. Nos preços atuais dos grãos, é possível estimar que o custo nutricional diário médio dos animais em confinamento deve ficar em valores superiores a R$ 8,00 por bovino confinado por dia, trazendo novamente margens muitos modestas ou até mesmo inviabilizando alguns projetos.

Do lado da agricultura, a safra 2014/2015 foi marcada por elevação no preço dos insumos e grandes incertezas climáticas. Diversas áreas tiveram que ser replantadas devido à falta de chuvas, outras tiveram perdas de colheita devido ao excesso de precipitação, sem falar da safrinha, que sofreu com o déficit hídrico principalmente nas Regiões Centro-Oeste e Nordeste do Brasil. Estimamos que perdas superiores a 60% já estejam instaladas em muitas lavouras, que até a primeira quinzena de abril estavam a mais de 20 dias sem chuva.

As incertezas climáticas, o aumento dos custos de produção e a variabilidade de preço das commodities agrícolas têm marcado o agronegócio brasileiro. Diante desse cenário, devemos adotar medidas que reduzam o risco biológico de produção e permitam maximizar o uso de insumos e recursos produtivos. Nesse sentido, a ILP, aliada ao confinamento de bovinos, vem ao encontro das necessidades do produtor com a maximização do uso da terra, insumos e recursos.

Hoje, o que buscamos é a chamada integração completa, na qual a inserção das pastagens em áreas de lavoura não é destinada apenas a formação de palha que, em muitos casos, dá- -se com baixo acúmulo de biomassa, e sim o estabelecimento de pastagens altamente produtivas, com elevada capacidade de suporte e que ainda permitam, com o manejo correto, a cobertura do solo e a melhoria de suas condições físicas e biológicas, além da ciclagem de nutrientes no sistema solo-planta-animal.

Gramínea ideal

Os melhores resultados em campo estão sendo alcançados com plantas forrageiras do gênero Urochloa (Brachiarias), destacando-se a Brachiaria brizantha e seus cultivares como Marandu (Braquiarão), Xaraés e Piatã, a Brachiaria ruziziensis, as gramíneas do gênero Panicum como os capins Mombaça, Tanzânia e Massai, além de alguns projetos com plantas do gênero Cynodon como Tifton 85.

É importante ressaltar que, de acordo com a espécie de planta forrageira utilizada, uma série de ações e planejamentos deve ser realizada. Deve- -se analisar a forma de introdução da pastagem nas áreas de lavoura, o manejo do pastejo, a suplementação animal e a taxa de lotação, a preservação da cobertura vegetal (palhada) para a próxima safra e a sequência de dessecação das áreas para o plantio da nova safra, se for o caso.

A escolha das sementes da pastagem deve ser feita buscando alto vigor e o máximo de pureza possível, pois não queremos a introdução de plantas invasoras nas áreas de cultivo. Deve-se avaliar também a relação custo/benefício da introdução da pastagem e de sua dessecação para o plantio da próxima safra. Somente com produção animal eficiente na área e a formação de palhada de qualidade essa relação torna-se favorável.

Para gramíneas que exigem maiores investimentos no plantio, como é o caso das plantas do gênero Cynodon (Tifton, Coastcross, etc.), recomendamos o sistema de rotação com a preservação da pastagem na área por período superior a 2 ou 3 anos, investindo nesse caso em fertilidade do solo e aumento das taxas de lotação, objetivando retornos competitivos com as áreas de lavoura.

Figura 1. Pastagem de B. ruziziensis pós soja em 15/05/2015.

O maquinário disponível para dessecação e o plantio da próxima safra também influenciam na escolha da pastagem para integração. Gramíneas do gênero Panicum e as Brachiarias brizanthas demoram mais a morrer e podem prejudicar o cronograma de plantio, no entanto, têm como ponto positivo a maior produção de massa seca por hectare aliado a um sistema radicular mais abundante. Outro ponto a considerar é a maior suscetibilidade a pragas e doenças de algumas espécies. Em algumas regiões do Brasil, a cigarrinha-das-pastagens, o percevejo-castanho e o ataque de lagartas podem comprometer o planejamento forrageiro da fazenda.

Integração Lavoura-Pastagem

A pesquisa e os trabalhos de campo têm apresentado diversas alternativas para a implantação dos sistemas integrados. Plantios simultâneos, sobressemeio, semeio após colheita e rotação são alternativas ao produtor, que deve levar em consideração todos os aspectos relacionados à interação entre plantas, solo, clima e o componente animal.

Figura 2. Recria em pastagem pós soja em 17/07/2015

Para a cultura da soja, a técnica de sobressemeadura da gramínea a partir do início do estádio reprodutivo da soja (após R1) tem apresentado resultados satisfatórios, sendo a recomendação técnica mais usual o sobressemeio realizado nos estádios R5 a R7 (amarelecimento das folhas). No entanto, em regiões com períodos de chuva mais concentrados, atrasos de plantio ou cultivares mais tardias, o sobressemeio em R7 pode acarretar queda acentuada na produtividade da gramínea, principalmente devido à reduzida precipitação.

Desse modo, o objetivo de formação de palha para a cobertura do solo e pasto para o gado não é alcançado. Em situações específicas, o sobressemeio no início da formação das vagens até o seu completo desenvolvimento (R3 a R4) é alternativa visando ao aproveitamento das chuvas e ao bom estabelecimento da pastagem na área. Isso foi comprovado em muitas áreas de produção na safra 2014/2015.

Devido ao atraso de plantio e à reduzida precipitação nos meses de março e abril, aqueles produtores que optaram por sobressemear tardiamente suas pastagens não encontraram condições favoráveis para o desenvolvimento da gramínea, comprometendo a produção de massa seca para pastejo e formação de palhada.

Já aqueles que sobressemearam antecipadamente encontraram condições favoráveis para o crescimento e maior produção de massa seca das pastagens nas áreas integradas (figura 1).

A grande variação de clima, solo e época de maturação dos cultivares de soja nos mostra que avaliações em campo devem ser conduzidas visando identificar o momento mais propício para o sobressemeio, que associe de forma positiva a produtividade da soja, a formação de palhada e a produção animal.

Outra alternativa interessante é o plantio de soja precoce seguida de milho safrinha consorciado com pastagem. Para o plantio consorciado (milho + pastagem), alguns ajustes técnicos devem ser observados:

- dar preferência a híbridos de milho com inserção de espiga mais alta;

- semear o capim com profundidade máxima de 5 cm (ideal estar entre 3 e 5 cm);

- acompanhar o desenvolvimento do pasto para calcular a necessidade e a dosagem dos herbicidas visando à redução do crescimento da pastagem sem causar morte da forrageira;

- atentar para a densidade de semeadura da pastagem. Muitos produtores reduzem a quantidade recomendada de sementes na tentativa de minimizar os efeitos competitivos da pastagem com a cultura anual. Não recomendamos esse procedimento. Como já citado no item anterior, deve-se buscar a redução do vigor de crescimento da pastagem com o uso de herbicidas específicos e não com menor densidade de semeadura, o que prejudicará o stand final e a formação de pastagens altamente produtivas.

Atendendo essas recomendações, é possível realizar a colheita dos grãos sem problemas e ter disponível pastagem de qualidade para o período seco que se segue. Esse sistema traz a possibilidade de maior produção de volumoso na fazenda (uso da lavoura de milho para silagem) ou a produção de grãos para o confinamento, o que aumenta a sinergia entre os processos de lavoura e pecuária.

TABELA 1 - ESQUEMA OPERACIONAL PARA SISTEMAS INTEGRADOS (RECEITA BRUTA COM BASE DE PRODUÇÃO)

Manejo do pastejo e preparo de animais para recria/engorda.

É importante nunca deixar o pasto “rapado”. Assim, é possível, através do manejo do pastejo, manter a cobertura vegetal do solo e consequentemente proteger-se contra processos erosivos de solo (figura 2). Benefícios como o aumento de matéria orgânica, maior ciclagem de nutrientes e redução de pragas e doenças para a próxima safra também devem ser considerados como vantagem nos sistemas integrados.

Nesse sentido, a manutenção da palhada residual é fundamental para se alcançar os resultados e os benefícios da integração. A estimativa da massa de forragem disponível para pastejo, as perdas no campo e a palhada residual para cobertura de solo são importantes para a determinação do número de animais alocados na área e o período de pastejo. Nesse momento, deve-se planejar qual o nível de suplementação alimentar do rebanho, visando ao preparo dos animais para confinamento ou recria e engorda a pasto.

Perspectivas de faturamento

Os resultados alcançados no Centro- Oeste, com o sobressemeio de Brachiaria ruziziensis entre os estágios R3 (início de formação de vagens) e R4 (vagens completamente desenvolvidas) proporcionou excelentes resultados quanto à produtividade da soja e à produção de forragem.

A maior oferta de chuvas, no momento da sobressemeadura (final de fevereiro, início de março), propiciou melhor desenvolvimento radicular da gramínea, sem interferir na produtividade da soja. Assim, após a colheita, a pastagem teve vigorosa rebrota e foi possível antecipar o pastejo. A área foi pastejada por 90 dias com taxa de lotação de 4 U.A/ ha. O ganho de peso médio diário foi de 650 g/cab/dia, o que permitiu, no final do período de pastejo, a produção de aproximadamente 7,8 @/ha, que nos valores atuais da arroba (algo entre R$ 145,00 e R$ 150,00/@) proporcionaria uma receita extra superior a R$ 1.170,00/ha.

O esquema a seguir ilustra as etapas das operações, bem como a estimativa de receita bruta das atividades envolvidas. Com relação aos custos de produção, sabemos que são muito variáveis dentro de cada propriedade, pois muitas já estão preparadas para os sistemas integrados (possuem maquinário, bovinos em sistemas de cria ou recria, estrutura própria para engorda, etc.) além de entendermos que o sistema tem benefícios de economia de escopo, resultando em menor custo para uma dada produtividade ou no aumento de produtividade sem incremento proporcional nos custos. Portanto, ocorre redução no risco do negócio, pela diversificação das atividades agrícolas na propriedade rural (Martha Jr. et al. 2011).

Pela Tabela 1, podemos notar que é possível alcançar faturamento bruto superior a R$ 9.000,00/ha devido à integração dos processos e à economia de escopo. Os grãos oriundos da produção de soja e milho podem ser reservados, em parte, para suplementação animal a pasto e em confinamento. O estabelecimento de pastagem em áreas de lavoura aumenta os teores de matéria orgânica no solo, reduzem a incidência de pragas e doenças e contribuem para a descompactação do solo e fixação de carbono. Ao confinarmos os bovinos, aumentamos a taxa de desfrute na propriedade, permitindo o melhor controle do pastejo, visando preservar a palhada residual para o plantio direto, produz-se esterco para distribuição nas lavouras e possibilita maior controle ao produtor para que utilize ferramentas de proteção de preços como hegde e opções.

*Daniel Rodrigues é consultor da Coan Consultoria - daniel@coanconsultoria.com.br


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