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MITIGAÇÃO

Abmael da Silva Cardoso*

Impacto da intensificação da produção de bovinos de corte sobre o aquecimento global e uso da terra

A agropecuária é uma importante fonte de gases de efeito estufa (GEE), originários das práticas agrícolas e fermentação entérica pelos ruminantes. O manejo das culturas emite dióxido de carbono (CO2), através da utilização de calcário, ureia e uso de combustíveis fósseis em equipamentos e maquinários, e óxido nitroso (N2O) da aplicação de fertilizantes.

O metano (CH4) é emitido principalmente através da fermentação entérica dos ruminantes e é resultado de uma complexa fermentação promovida pelos micro-organismos dentro do rúmen, onde os carboidratos são quebrados em pequenas moléculas para facilitar a absorção pelos animais, parte dos íons H+ são utilizados pelas bactérias metanogênicas gerando CH4 que é expelido pelo animal via eructação. De acordo com o painel intergovernamental para mudanças climáticas (IPCC), em 2007 a pecuária contribuiu com 5%, 44% e 53% das emissões antropogênicas do CO2, CH4 e N2O.

Em termos de Brasil, segundo o observatório do clima, o País é o segundo maior emissor de GEE pela produção agropecuária do mundo, emitindo 418 Gt de equivalentes de CO2 em 2013, o que representou aproximadamente um terço das emissões nacionais. Ao se dividirem as emissões por subsetores da agricultura e pecuária, contabiliza- se que 84% das emissões do setor são provenientes da produção animal, sendo 76% oriundos da bovinocultura de corte e leite. O setor de bovinocultura apresenta um grande potencial para baixar as emissões de carbono e aumentar a eficiência produtiva.

Recentemente publicamos um artigo na revista científica Agricultural Systems em parceria com pesquisadores da Embrapa Agrobiologia, Embrapa Pecuária Sudeste e do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (Usda) intitulado “Impact of the intensification of beef production in Brazil on greenhouse gas emissions and land use”, no qual se estudou o impacto da intensificação da produção de bovinos de corte no Brasil sobre a emissão de gases de efeito estufa e uso da terra.

Nós avaliamos diferentes sistemas de produção de bovinos de corte no Brasil central considerando o ciclo completo de produção. Características da dieta, taxas de lactação e índices zootécnicos característicos de cada sistema foram compilados da literatura nacional. Na Tabela 1, são apresentados os índices zootécnicos para cada sistema avaliado.

Os sistemas de produção avaliados foram:

Extensivo – sistema caracterizado por pouco manejo das pastagens que não recebem adubação ou calagem. Em geral, estão degradadas. A taxa de lotação média de referência foi 0,5 UA/ha. Os animais não possuem raça definida. O primeiro parto ocorre próximo aos 3 anos de idade. Os animais são abatidos entre 3 e 4 anos de idade. A dieta dos animais é proveniente do pasto.

Os animais sofrem com o efeito sanfona e não se tem documentação dos animais.

Semi-intensivo – é o sistema próximo a uma fazenda de corte com os índices médios do Brasil. A pastagem utilizada é de Brachiaria brizantha (cv. Marandu). A taxa de lotação média utilizada foi 1 UA/ha. As pastagens são renovadas ou recuperadas em função do preço da carne. Há o predomínio de nelore e cruzas com nelore. A dieta dos animais é proveniente do pasto com oferta de sal dependendo do preço da carne.

Intensivo com uso de leguminosas - sistema no qual o criador tem controle de nascimentos, mortes, ganhos de peso dos animais e cruzamentos com estação de monta. Também tem controle sobre os custos de produção. Realiza calagens e adubação da pastagem. A taxa de lotação média foi 1,7 UA/ha. Utiliza-se genética superior. Oferece suplementação mineral e suplementação na fase de terminação. Nesse sistema foi incluído o uso de leguminosas como estilosantes e amendoim forrageiro para substituir a adubação nitrogenada. Caracteriza-se por baixas taxas de mortalidade. Altas taxas de natalidade e melhor rendimento de carcaça.

Abmael Cardoso sugere que também pode se reduzir as emissões de gases de efeito estufa através de ganhos em produtividade da pecuária

Intensivo com adubação nitrogenada – mesmas características de manejo do sistema anterior, porém, utilizando-se adubação nitrogenada (150 kg N por ano) para manter a produtividade do pasto. A taxa de lotação média utilizada foi 2,5 UA/ha.

Intensivo com terminação em confinamento – mesmas características dos demais sistemas intensivos, porém, com terminação em confinamento. A taxa de lotação média utilizada foi 2,75 UA/ha. De acordo com as mais recentes estatísticas, aproximadamente 11% dos bovinos de corte são terminados em confinamento.

Foi computada a emissões dos três principais GEE, considerando o sistema completo de produção do nascimento ao abate e os gases produzidos pelas matrizes e touros. A emissão foi expressa em intensidade de emissão (kg CO2 por kg carne) somando-se a emissão de CO2 originário da utilização de calcário e ureia, além do uso de combustíveis fósseis em equipamentos e maquinários e energia elétrica, produção de N2O pelos fertilizantes nitrogenados e excretas dos animais e o CH4 emitido pela fermentação entérica e fezes dos animais que foi dividido pela produção de carne.

No sistema extensivo de produção, um animal emite em média 19.19 toneladas CO2 do nascimento até o abate. A maior emissão entre os sistemas de produção. A pegada de carbono foi de 58,3 kg CO2/kg carcaça. Os altos valores refletem a baixa qualidade da dieta, os baixos índices zootécnicos e o abate dos animais em média aos 42 meses.

Já no sistema semi-intensivo que se aproxima de um sistema médio típico do Brasil central, a emissão do nascimento ao abate foi 25% menor, sendo 14,49 toneladas de CO2 por animal. E a pegada de carbono reduziu em 30%, sendo 40,9 kg CO2/kg carcaça. Essa redução é possível devido a melhorias no pasto com adoção de Brachiaria brizantha, por exemplo, e uma redução na idade ao abate para 35 meses.

Ao se avaliarem as emissões no sistema de produção intensivo com uso de leguminosas leguminosas, observou-se uma queda de 42% nas emissões do nascimento ao abate, sendo 11,11 toneladas de CO2 por animal. A redução da pegada de carbono foi de aproximadamente 50%, sendo 29.6 kg CO2/kg carcaça. O resultado expressa as melhorias no manejo sanitário e reprodutivo, adoção de genética superior, manejo dos pastos e uso de suplementação mineral.

No sistema intensivo clássico em que as pastagens recebem aplicações regulares de adubo nitrogenado, a redução na pegada de carbono foi de 45%, sendo 32,4 kg CO2/kg carcaça. A emissão de gases nocivos é 10% maior do que nos sistemas com leguminosa. Os sistemas com introdução de leguminosas, tais como estilosantes e amendoim- -forrageiro, contribuem para uma menor emissão de GEE. Já a emissão do nascimento ao abate foi 49% menor comparado ao sistema extensivo, sendo 9,73 toneladas de CO2 por animal, e uma redução na idade ao abate para 27 meses.

Quando os animais são terminados em confinamento, a intensidade de emissão de CO2 por kg de produto foi de aproximadamente 50% menor, sendo 29.4 kg CO2/ kg carcaça. A redução na emissão do nascimento ao abate foi de 53%, totalizando 9.18 toneladas por animal. A emissão de gases nocivos é de aproximadamente 10% menor do que em um sistema intensivo com ciclo completo a pasto.

Os ganhos originários das melhorias do manejo do pasto e do rebanho implicaram em uma redução entre 5 e 7 vezes na área necessária para se produzir a mesma quantidade de carne do sistema extensivo (tabela 2). A produção de carne em arrobas por hectare foi de 2,1, 5,0, 9,3, 13,5 e 14,7 nos sistemas extensivo, semi-intensivo, intensivo com leguminosas, intensivo clássico e intensivo com terminação em confinamento, respectivamente. Produzindo-se mais carne por área, o criador pode ampliar a produção de carne aumentando sua competitividade, ou utilizar essa área para outras atividades como agricultura ou silvicultura e reduz ou cessa a pressão sobre o desmatamento.

A profissionalização da pecuária de corte pode resultar em uma grande redução nas emissões de gases de efeito estufa. Para que se atinjam os níveis de intensificação analisados no estudo, demanda-se assistência técnica e aumento da demanda por produtos da indústria animal, tais como alimentos, medicamentos veterinários e na área de genética. Além da demanda por sementes, fertilizante e outros insumos para manejo das pastagens. Portanto, é possível associar crescimento econômico com redução do impacto da pecuária de corte sobre o meio ambiente.

Leguminosas como o amendoim forrageiro ajudam na fixação de nitrogênio nas propriedades

Manejar os pastos visando manter a produtividade e evitar a degradação dos solos tem um papel fundamental no aumento da sustentabilidade da pecuária. Pastagens produtivas, além de possibilitarem uma maior produtividade do rebanho, podem sequestrar carbono no solo reduzindo ainda mais o impacto da produção de carne bovina sobre o meio ambiente. Neste trabalho, foram avaliados sistemas intensivos de produção plausíveis de adoção com as técnicas e tecnologias disponíveis atualmente. É provável que um aumento na intensificação com elevado uso de fertilizantes nitrogenados e insumos implique em crescimento das emissões.

Na última conferência do clima (COP 21), que ocorreu em Paris, em dezembro de 2015, o Brasil assumiu o compromisso de reduzir ainda mais as suas emissões de gases nocivos. Para atingir tal objetivo, pretende- se recuperar mais 5 milhões de hectares de pastagens degradadas e incentivar a adoção de sistemas de integração lavoura- -pecuária-floresta. A redução das emissões dá-se principalmente através do sequestro de carbono no solo e na madeira.

Nosso estudo sugere que também pode se reduzir as emissões de gases de efeito estufa através de ganhos em produtividade da pecuária de corte. Estratégias focadas no componente animal do sistema deveriam ser incluídas nas politicas públicas visando intensificar a produção de bovinos de corte. Especialmente através de mais assistência zootécnica, objetivando melhorar a genética, o manejo do rebanho e a nutrição animal.

*Abmael Cardoso é engenheiroagrônomo e doutor em Zootecnia - Departamento de Zootecnia da Unesp Jaboticabal

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