Nutrição

 

Saúde ruminal

Dez dicas para melhorar a saúde do rúmen por meio da suplementação nutricional adequada

Eduardo de Ávila Madruga*

Para falarmos da saúde do rúmen e dos benefícios de uma correta suplementação nutricional para ruminantes, devemos inicialmente abordar a anatomia fisiológica e as particularidades do estômago desses animais. Dentre as espécies de ruminantes de importância econômica no Brasil, destacam-se os bovinos, ovinos e caprinos, os primeiros, por sua vez, apresentam o estômago dividido em quatro compartimentos: retículo, rúmen, omaso e abomaso.

A dieta adequada para ruminantes deve preconizar uma correta nutrição dos micro-organismos presentes no rúmen desses animais. Quando se fala em suplementos nutricionais, estamos alimentando, antes de tudo, as bactérias, protozoários e fungos ruminais, que, por sua vez, são responsáveis por nutrir o animal.

Uma dieta equilibrada deve conter níveis adequados de proteína, energia e fibra de boa digestibilidade, de forma balanceada, além de minerais e vitaminas que também são fundamentais para manter a saúde e o funcionamento ruminal.

Os ruminantes possuem a capacidade de fermentar alimentos fibrosos, essa fermentação é realizada por micro-organismos que vivem simbioticamente no trato digestivo do animal, os quais sintetizam nutrientes como proteínas, ácidos graxos voláteis (AGVs) e vitaminas. O rúmen- -retículo e o intestino grosso são câmaras de fermentação e a digestão ácida e enzimática dos alimentos ocorre no abomaso e intestino delgado. Esses micro-organismos ruminais necessitam de condições ideais de temperatura, pH, anaerobiose, proteína e energia para se desenvolverem e atuarem adequadamente.

A temperatura ideal para o rúmen está em torno de 38 a 39 graus, podendo variar até 42 graus de acordo com o tipo de alimentação e condição climática. O pH fisiológico do rúmen está entre 6,0 e 7,0, podendo haver variações de acordo com a alimentação. A condição anaeróbica, ausência de ar, é fundamental para bactérias e protozoários que compõem a flora ruminal. O nível mínimo de proteína bruta (PB) na dieta é de 7% e de energia (NDT) é de 45% para ter atividade ruminal.

O pH fisiológico do rúmen apresenta- -se levemente ácido a neutro, entre 6,0 e 7,0, o qual é influenciado diretamente pela proporção concentrado/volumoso que o animal recebe diariamente. A sua flora é composta por bactérias e protozoários ruminais, com forte destaque para as bactérias fibrolíticas (digerem fibra) e amilolíticas (digerem amido). Animais em sistemas de pastejo, consumindo forragem (volumosos), tendem a ter seu pH de rúmen ao redor de 7,0 e animais submetidos a dietas ricas em grãos tendem a ter seu pH ao redor de 6,0, podendo ser ainda menor em situações de alta participação de grãos na dieta.

Por que o pH do rúmen cai em algumas situações? Existe queda no pH ruminal devido ao acúmulo de ácidos no rúmen, principalmente o ácido propiônico, que deriva da fermentação de carboidratos não fibrosos, especialmente do amido, principal constituinte dos grãos de cereais. À medida que o pH cai, as condições tornam-se propícias para o crescimento de micro-organismos que produzem ácido lático, que é cerca de 10 vezes mais forte do que a maioria dos AGVs produzidos no rúmen, o que contribui ainda mais para a redução no pH do meio.

Devemos ressaltar que as concentrações de ácido lático são bem menores que as de ácido acético e propiônico, os principais AGVs produzidos pela fermentação ruminal. E também, à medida que aumentamos os ingredientes que fermentam com intensidade, como o milho, que é rico em amido, há maior produção dos AGVs, e o pH ruminal torna-se mais ácido (pH < 7,0).

Vale a pena ressaltar que as alterações no pH ruminal têm grande influência no aproveitamento dos alimentos, especialmente da porção fibrosa e, portanto, o animal tem mecanismos para mantê-lo o mais estável possível. O mecanismo mais importante é a produção abundante de saliva, rica em substâncias tamponantes, isto é, que criam resistência para a alteração do pH.

Ainda sobre os AGVs, atualmente, são utilizados os moduladores de fermentação ruminal, por exemplo, a monensina, Crina (aditivo composto por óleos essências) e antibióticos, têm sido utilizados para uma modulação da flora do rúmen, beneficiando bactérias ruminais benéficas (gram -) para a maior produção de AGVs desejáveis, por exemplo, o ácido propiônico, que melhora sensivelmente níveis produtivos para os ruminantes, como maior produção de leite e de carne. Os AGVs predominantes no fluído ruminal são os ácidos acético, propiônico e butírico.

Outro fator importantíssimo para a produção de ruminantes é o nível de proteína bruta (PB) na dieta e a exigência dos micro-organismos do rúmen. Quando o nível de PB da dieta fica abaixo de 7%, ou seja, 70 g/kg de matéria seca (MS), há uma redução na velocidade com que as partículas dos alimentos são degradadas, pois os micro-organismos não apresentam crescimento suficiente para uma boa degradação do alimento. Com isso, as partículas alimentares são degradadas mais lentamente e, consequentemente, aumenta-se o tempo que essas permanecem no rúmen, o que resulta em redução de consumo.

As situações mais frequentes em que a proteína da dieta encontra-se abaixo de 7% de proteína dão-se em presença de pastos secos e/ou fibrosos, situação muito comum no período de seca na Região Central e Norte do Brasil, e, no período de inverno no Sul do País na situação de pastoreio de pastagens nativas.

Outro fator limitante para a produção de ruminantes seria o baixo aporte energético para os micro-organismos do rúmen, limitando desempenho animal. Quando o percentual de energia da dieta se apresentar abaixo de 45% NDT, observa-se uma redução no desempenho, situação que pode ocorrer durante os períodos de seca ou devido ao fornecimento de volumosos conservados que apresentam baixo valor nutritivo.

As exigências nutricionais dos micro- -organismos do rúmen também englobam as necessidades de macro e micro minerais, além das vitaminas, que variam devido aos tipos de forragens utilizados na dieta, composição de dieta - relação volumoso:concentrado, sistemas de criação e objetivos de desempenhos zootécnicos. Portanto, atender essa demanda mineral, seja de macro ou micro mineral, é fundamental para a saúde do rúmen e garantia de máximo desempenho, tanto para o gado de leite quanto para o gado de corte.

O desequilíbrio do ambiente ruminal leva à morte dos micro-organismos, diminuindo a eficiência da fermentação ruminal, levando a um menor aproveitamento dos alimentos fibrosos e, consequentemente, a uma perda produtiva.

Dicas para melhor saúde do rúmen e seus benefícios:

1) O fornecimento constante da dieta é a primeira e mais importante dica sobre o manejo alimentar para ruminantes. Mantendo o rúmen adaptado à dieta e aos seus níveis de proteína, energia, fibra, minerais, vitaminas e aditivos.

2) Manter o crescimento dos micro- organismos ruminais, produzindo assim proteína microbiana, que apresenta a melhor composição em aminoácidos para o ruminante.

3) Atender os requerimentos necessários em quantidade de alimentos é fundamental. Para cálculo de dietas leva-se em conta o consumo de MS, portanto, é importante conhecer o potencial diário de ingestão dos animais. Bovinos de corte apresentam, em média, potencial de consumo de 2,5% de MS em relação ao seu peso corporal (PC). Já os bovinos leiteiros de alta produção podem consumir até 3,5% do seu PC em MS por dia. Cada alimento possui seu percentual de MS, e atender esse percentual nas dietas é essencial para extrair o máximo de produção da atividade, seja no leite ou no corte.

4) Manter o nível de proteína adequado na dieta, com no mínimo 7% de PB no rúmen. Como alternativa mais comum para suprir essa deficiência está o fornecimento de fontes de proteína verdadeira e de nitrogênio não proteico (NNP, como a ureia). Uma forma segura atualmente dá-se por meio do uso de suplementos proteicos (proteinados) em pastos secos e fibrosos. Essa ação permitirá ganhos importantes frente a situações nas quais haveria perdas ou mantença de escore corporal apenas.

5) Atender a exigência de energia para a flora do rúmen, no mínimo 45% de NDT na dieta. Normalmente pastos e volumosos disponíveis no Brasil atendem essa exigência para animais em baixos níveis de produção. Como opção de suprir essa deficiência caso ocorra, encontramos os alimentos energéticos, como milho e sorgo, ou suplementos prontos para uso como os suplementos proteico- -energéticos. Em situações de baixa qualidade de pastos ou volumosos, quanto maior o aporte energético na dieta, consequentemente, melhores serão os ganhos.

6) A proporção de volumoso e de concentrado em dietas com presença de pastagem, silagem, feno e grãos deve ser respeitada e mantida de forma a não alterar bruscamente o pH e a flora do rúmen, responsável pelo aproveitamento e digestão desses alimentos. Havendo necessidade de alteração dessa proporção, que deve ser feita de forma lenta, adaptando os micro-organismos do rúmen à nova dieta. Essa ação trará maior incremento nos ganhos produtivos e maior segurança alimentar.

7) Garantir salivação para tamponamento da dieta é fundamental para a saúde do rúmen, esse fato está assegurado com a correta ruminação, para isto, é de suma importância à presença constante de fibra longa nas dietas, com a ruminação correta, temos produção suficiente de tamponante por meio da saliva. Em dietas ricas em grãos com baixa presença de fibra, podemos adicionar tamponantes com o objetivo de corrigir essa baixa produção fisiológica. Como opção mais comum aparece o bicarbonato de sódio. A presença de tamponantes na dieta regula o pH ruminal, evitando transtornos metabólicos.

8) Atender requerimentos de minerais é fundamental para o ruminante, seja na atividade de corte ou de leite, sendo assim, muitos dos alimentos disponíveis e principalmente os pastos no Brasil não atendem essa demanda além dos macrominerais (ex. cálcio e fósforo), os microminerais (ex. zinco, cobre, selênio), são fundamentais para uma eficiente dieta e o atingimento dos níveis zootécnicos esperados, como alto ganho de peso, alta proprodução de leite e processos reprodutivos satisfatórios. Como opção de suprir essa demanda mineral, encontram-se os suplementos minerais prontos para uso de fácil utilização e comprovado benefício nas dietas a pasto ou no confinamento.

Segundo Eduardo Madruga, vale a pena ressaltar que as alterações no pH ruminal têm grande influência no aproveitamento dos alimentos

9) A utilização de moduladores de fermentação ruminal nas dietas trazem o benefício de potencializar o crescimento das bactérias desejáveis no rúmen (bactérias gram negativas) e reduzir o crescimento das bactérias não desejáveis (bactérias gram positivas), causando uma maior produção de AGVs benéficos ao rúmen, por exemplo, ácido propiônico, importante no incremento da produção e qualidade de leite ou de carne.

10) A forma correta e segura de fornecimento diário de concentrados. Em dietas de confinamentos ou semiconfinamentos, em que o fornecimento de concentrados (rações) for superior a 0,8% do PC, o ideal seria o fornecimento fracionado, em 2 ou 3 tratos diários. Esse manejo impactará em um maior ganho de peso ou produção de leite e em uma maior segurança alimentar para o ruminante submetido a essa dieta.

Para obter êxito em atender a demanda do rúmen, é necessário conhecer suas exigências nutricionais e respeitar seus processos fisiológicos para obtenção de resultados satisfatórios com a devida segurança alimentar, sem causar danos à saúde do rúmen.

*Eduardo de Ávila é médico-veterinário e assistente técnico-comercial da DSM Tortuga


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