Raça do Mês

BRANGUS

A raça sintética sem fronteiras vem com tudo para mostrar seu potencial genético aos criadores e capacidade de atender as demandas de carne bovina de qualidade

Erick Henrique
erick@revistaag.com.br

A pecuária de corte está cada dia mais sintonizada com as novas tecnologias de manejo do rebanho, para o controle pleno de sua gestão. Afinal, não é nenhum exagero dizer que a fazenda é uma empresa. E como tal, precisa incessantemente buscar mecanismos que viabilizem o desenvolvimento econômico. Foi através dessa ambição que técnicos norte-americanos realizaram, por volta de 1912, no estado de Louisiana, as primeiras experiências que resultaram no Brangus, raça oriunda do cruzamento entre o Angus e o Zebu.

O objetivo era a criação de um animal que apresentasse altos índices de produtividade, mesmo criado sob condições de clima e meio-ambiente adversos, típicos das regiões tropicais e subtropicais, como é o caso do Brasil, onde os cruzamentos começaram a ser realizados por técnicos do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), em Bagé/RS, na década de 1940.

A experiência deu certo, acarretando ótimos resultados para pecuária moderna, porque o gado Brangus aliou a rusticidade das raças zebuínas (resistência a parasitas, tolerância ao calor, habilidade materna) com as vantagens do Angus (qualidade da carne, precocidade sexual, habilidade materna). O Brangus apresenta uma proposta de raça completa.

Entre as vantagens estão a facilidade de parto, a desmama pesada, o ganho de peso tanto em pasto como em confinamento, as fêmeas de reposição com puberdade precoce, além de a carne mostrar-se suculenta e macia, o que atende os mais exigentes consumidores, que, consequentemente, remuneram bem o criador.

O projeto desenvolvido pela Associação Brasileira de Brangus (ABB) teve início, em 2012, no Rio Grande do Sul, com os trabalhos de certificação da carne Brangus para atender as demandas de proteína bovina de qualidade. Segundo o presidente da ABB, Raul Vitor Torrent, o selo “Carne de Qualidade” começou a ser trabalhado em um frigorífico do RS com o abate de aproximadamente 1.500 cabeças Brangus por mês. Depois dessa etapa, a associação avançou pelo País, abrindo filiais em Santa Catarina, Paraná, São Paulo e Mato Grosso do Sul. Nesse último estado citado, o projeto consiste em abater novilhas da raça para abastecer restaurantes de Campo Grande e sua própria boutique de carnes.

“Nós abrimos recentemente um mercado que acredito ser muito importante que é Belém do Pará'', avalia o presidente da ABB, Raul Vitor Torrent

Para os branguistas que estiverem interessados em agregar valor sobre a comercialização do produto, seguem algumas informações pertinentes a respeito do processo de certificação de carnes da raça:

CARNE DE QUALIDADE BRANGUS

Os técnicos da ABB fiscalizam os lotes de animais dentro do frigorífico e certificam se o gado é Brangus ou não.

Depois de confirmada a raça e aprovada a condição do acabamento de carcaça, o bovino entra na linha de abate.

No processo seguinte, outro funcionário da associação carimba a carcaça para diferenciá-las das demais.

Na desossa, outro colaborador da entidade participa da linha de produção para separar as carnes especiais.

AMPLIANDO O PROJETO

A Região Norte do Brasil não tem mais do que reclamar sobre a qualidade da carne bovina, porque depois de diversas reuniões entre a ABB, a Secretaria de Desenvolvimento da Agricultura do Pará (Adepará) e demais instituições do estado paraense para produção da carne Certificada Brangus, o programa teve início no mês de junho. De acordo com dirigente da ABB, a região tem amplo potencial de expansão para a pecuária, principalmente levando em conta a disponibilidade dos criadores em assimilar novas tecnologias.

“Nós abrimos recentemente um mercado que acredito ser muito importante que é Belém/PA. Não somente pela possibilidade de oferecer um produto de qualidade aos consumidores do Estado, mas também por causa da proximidade para atingir o mercado caribenho e América do Norte. Faz um mês que fechamos essa parceria com o Governo do Pará e projetamos um volume de abate de 500 cabeças/mês”, diz Torrent.

Durante duas semanas de conferência, nós visitamos os principais criatórios da raça na África do Sul, percorrendo 2.500 km, informa Fernando Waihrich

Ele informa que as bonificações variam de acordo com as características que o animal apresenta quando chega ao frigorífico. “O animal precisa ter padrão Brangus, sendo terminado conforme a dentição, grau de gordura, entre outros detalhes que serão avaliados pelos técnicos da entidade. E a bonificação desse produto varia de 3 a 10% acima do valor de mercado. Certamente, são vistas também as questões próprias da indústria, por exemplo, se a vacinação foi inserida no local adequado e ausência de hematomas na carcaça, para ficar dentro dos padrões exigidos pelos frigoríficos participantes”.

Conforme o presidente da associação, o programa de certificação engloba o rebanho registrado e animais avaliados por fenótipo. Já no Pará, Torrent afirma que está buscando exigir que todos os produtores registrem seus animais Brangus.

“É importante ressaltar que a demanda não supere a oferta. Então, o projeto de carne que temos no Norte do País é de acordo com consumo atual. A associação e os criadores podem proporcionar ‘x mil’ toneladas de carne por mês, entretanto, não devemos assumir compromissos desmedidos. Só para ilustrar, no dia que foi assinado o acordo com o governo paraense, compareceram dois criatórios muito importantes no Estado que compraram doses de sêmen Brangus para ingressar no projeto”, comemora o líder da ABB.

GENÉTICA DIFERENCIADA

Falar de carne de qualidade superior e deixar de mencionar a outra ponta da cadeia que viabiliza esses programas de cruzamento industrial, através da comercialização de sêmen, reprodutores e matrizes é um pecado. Quem tem um trabalho diferenciado, considerada uma das referências do Brangus brasileiro, é a Estância Santa Regina, de Rosário do Sul/RS. A Fazenda mantém um plantel de 750 ventres Brangus 3/8, produzindo anualmente 50 touros registrados pela ABB e avaliados pelo Promebo (Programa de Melhoramento de Bovinos de Corte) para uso próprio e comercialização.

A propriedade do pecuarista Vasco Antônio da Costa Gama Filho comercializa também outra raça sintética que vem ganhando espaço no Centro -Oeste do País, o Braford. Além disso, a estância trabalha com o sistema de integração Lavoura-Pecuária, produzindo arroz e soja e animais para cria, recria e engorda.

“Trabalhamos a inseminação artificial em todos os plantéis, buscando também sempre utilizar touros melhoradores comprovados. Somos perseverantes na busca permanente de animais adaptados e produtivos em regime a pasto. Sendo assim, hoje, produzimos touros e vacas de porte médio, pelo curto, com muita estrutura óssea, boa cobertura muscular e facilidade de engorda”, diz o pecuarista.

O produtor de Rosário do Sul tem satisfação de proporcionar através de seus reprodutores e matrizes um incremento real na produtividade de seus clientes, tanto pelo abate de novilhos jovens e pesados quanto pelo acasalamento de fêmeas já dos 18 a 24 meses. “Esse animal adapta-se com primazia a qualquer clima, pastagem e região do território brasileiro. Tanto é que nossa genética pode ser encontrada em todos os estados produtivos do Brasil”, lembra Gama Filho.

Com a mesma pegada de difundir genética de qualidade aos criadores brasileiros, a fazenda Carlos Amorim Pecuária e Agricultura trabalha, desde 1982, selecionando animais Brangus adequados aos padrões da raça com a preocupação de gerar linhagens adaptadas ao clima tropical. A propriedade está localizada no município de Caconde/ SP e, atualmente, quem gerencia o projeto é Ricardo Amorim, filho do produtor Carlos Amorim.

“Na fazenda, nós produzimos café nas áreas de menor declividade e nas áreas de maior declividade temos 500 hectares de pastagens, onde criamos um rebanho de 580 matrizes, produzindo aproximadamente 80 touros Brangus/ano ao mercado. Nossos animais são criados basicamente a pasto, com alguma suplementação nos meses de seca e na fase de crescimento, apenas no caso dos tourinhos”, explica Amorim.

Carne Certificada Brangus nas gôndolas de norte a sul do Brasil

Segundo o sucessor, antes de iniciar os trabalhos com a raça, seu pai, que trabalhava com produção de leite, utilizava o gado Pardo Suíço. Porém, em função das dificuldades econômicas da bovinocultura leiteira na década de 1980, resolveu mudar os rumos da fazenda para criar animais Brangus. “Iniciamos do zero com a raça, fazendo cruzamentos de Angus x Nelore, conforme determinado pela ABB para obter os primeiros registros de animais Brangus 3/8. Nós acreditamos na evolução da raça, sendo a melhor opção para o cruzamento industrial da pecuária brasileira”.

De acordo com Amorim, a propriedade conta com apoio técnico de especialistas como o argentino Fernando Lamarca, que presta consultoria a diversos criatórios de Brangus da Argentina e do Brasil. Anualmente, o consultor avalia o gado da fazenda, auxiliando também na questão dos acasalamentos e favorecendo o melhoramento genético.

PANORAMA BRANGUS

A associação já registrou 406 mil animais. O crescimento de novos criadores foi de 38%, em 2015. No último ano, houve um acréscimo na comercialização e na produção de sêmen de 35%, gerando 250 mil doses. O presidente da ABB informa que 90% dos animais registrados são Brangus 3/8, algo que atesta a consolidação da raça no País.

A instituição participou do VIII Congresso Mundial da Raça Brangus, na África do Sul, em maio, representada pelo diretor de relações internacionais da ABB, Fernando Barros Waihrich. O dirigente apresentou no congresso os números da pecuária de corte brasileira, como o rebanho total por raça e o mercado de sêmen para atualizar as delegações de diversos países produtores de Brangus.

“Durante duas semanas de conferência, nós visitamos os principais criatórios da raça na África do Sul, percorrendo 2.500 quilômetros. Verificamos a forma de manejo dos branguistas sul-africanos e, para mim, a grata surpresa foi observar que a produção é muito parecida com a nossa. Eles criam animais praticamente a pasto, com pouco suplemento. Salvo algumas diferenças climáticas, que torna o país deles bem mais seco que o nosso, fazendo com que a produtividade por hectare, talvez, seja um pouco inferior à brasileira. No geral, o sistema de produção e as características dos animais são similares ao que buscamos aqui no Brasil”, diz Waihrich.

Para o diretor, esses fatores contribuem para uma possibilidade futura de intercâmbio de genética entre o Brasil e a África do Sul. Estiveram com Waihrich compartilhando informações sobre o Brangus comitivas de Argentina, Uruguai, Paraguai, Costa Rica, México, Estados Unidos, Austrália, Botsuana, Zimbábue e a anfitriã, África do Sul.