Entrevista

 

Liderança com preservação

Com 62% de seu território conservado, Mato Grosso mantém o maior rebanho do País com mais de 29 milhões de cabeças. Os produtores mostram maior consciência sobre a necessidade da intensificação e a cadeia produtiva planeja um grande salto de qualidade. Quem fala mais sobre o estado é José João Bernardes, presidente da Associação dos Criadores do Mato Grosso (Acrimat).

Luiz H. Pitombo

Revista AG - O Mato Grosso se destaca, dentre outros, por ter o maior contingente bovino do País. Atualmente, como se encontra a atividade pecuária no estado e quais seus desafios?

José Bernardes - Registramos, no ano passado, uma evolução significativa do nosso rebanho que chegou a 29,26 milhões de cabeças, com crescimento de 2,7% sobre 2014. Esse comportamento sinaliza que houve um processo de retenção de matrizes, reflexo de uma maior valorização dos bezerros.

A pecuária, de um modo geral, segue relativamente firme com os preços se mantendo, mas sem apresentar melhorias. O que nos trás um pouco de preocupação são aqueles produtores que fazem terminação em confinamento pela alta do valor do milho, também influenciada por fatores climáticos em certas regiões do estado, afetando a segunda safra e a soja.

Isso significa que os preços não devem recuar muito e a ração deverá ficar bem mais cara que a do ano passado. Por outro lado, não existe a perspectiva de um aumento significativo no preço da carne. Assim, no levantamento das intenções de confinamento que fazemos anualmente, a expectativa inicial era de um total entre 700 a 800 mil cabeças confinadas, quantidade estável sobre o ano passado, e assim deverá se manter sem crescimento.

Revista AG – Como tem ficado a cotação dos animais?

José Bernardes – Os valores da arroba do boi gordo à vista, a depender do tipo do animal, variam entre R$ 134,00 e R$ 138,00 e para os de confinamento, normalmente mais caros, estavam a R$ 150,00/arroba. Mas pela menor procura, essa diferença está se reduzindo.

Revista AG – Os preços pagos pelos frigoríficos têm sido alvo de críticas, alegando-se que o fechamento de plantas estaria resultando em uma concentração do setor com interferência no mercado. Uma Comissão Parlamentar de Inquérito para verificar o problema foi criada na Assembleia Legislativa do estado. Como se encontra toda esta situação?

José Bernardes - É uma CPI abrangente sobre toda a atividade pecuária no estado e que logicamente irá tratar desta chamada “concentração” da indústria, que na verdade não é bem isso. A questão dos preços começou no ano passado, e ainda continua, e apresenta dois aspectos interligados: a ociosidade de plantas frigoríficas e a redução das oportunidades de negociação do produtor. Existe no Mato Grosso uma capacidade instalada de abate ociosa e grandes empresas começaram a fechar plantas fazendo com que em certas regiões diminuísse a concorrência.

O pecuarista ficou sem opção de venda e busca de preços melhores, que começaram a ficar abaixo das referências habituais. Isso tem sido observado de maneira mais nítida, por exemplo, ao Noroeste do estado nas regiões de Xavantina e Barra do Garças. Mas esperamos também que outras questões sejam abordadas na CPI como a tributária, a sanitária e a de habilitação de plantas, seja com inspeção Federal, Estadual ou Municipal.

Revista AG – No início do ano foi criado o Instituto Mato-Grossense da Carne, o Imac, único do gênero no País, reunindo o governo, frigoríficos e pecuaristas para cuidar da qualidade e da promoção do produto obtido no estado. Como estão os trabalhos neste momento?

José Bernardes – O Instituto está progredindo e nossa expectativa é de que ele traga grandes benefícios para a pecuária do estado. Formamos um Conselho e foram realizadas algumas reuniões em que já definimos o padrão da carne que receberá o selo de qualidade do Imac, que basicamente irá considerar o sexo do animal, a idade, o peso e a cobertura de gordura, independentemente da raça, que não será considerada. Também está definido que os frigoríficos integrantes deverão instalar quatro balanças para a pesagem das carcaças ao longo da linha de abate que serão administradas, controladas e aferidas pelo Imac, que se encarregará de entregar o romaneio tanto para a indústria como para o produtor, acabando com possíveis divergências nesse aspecto. Uma primeira planta em que as balanças serão testadas é a do Marfrig e se discute, agora, quais os pontos exatos onde elas deverão ficar.

Revista AG – Como será a adesão e está previsto o pagamento de valores diferenciados aos produtores?

José Bernardes – O Imac não está tratando da questão de preços. O Instituto é do estado e isso é uma questão comercial que achamos que ele não deva entrar. Será fornecido o selo e o pecuarista e o frigorífico é que irão negociar os valores. Em relação à adesão, tanto para os frigoríficos como aos pecuaristas, ela é voluntária. Porém, somente poderão participar do processo abatedouros que se prontifiquem a pesar todos os animais pela balança do projeto e aquelas propriedades que estejam no Car (Cadastro Ambiental Rural), significando que estão ambientalmente regularizadas. Diga-se de passagem, o estado está bem avançado nesses registros.

Revista AG – O setor, incluindo supermercados e frigoríficos, tem algum tipo de atuação no tocante a animais oriundos de propriedades irregulares? Como está hoje a questão ambiental no estado?

José Bernardes – Todos os frigoríficos de maior porte possuem um acordo com o Ministério Público para que exijam dos pecuaristas o registro no Car e que não adotem práticas classificadas como de trabalho escravo. Quanto à questão ambiental, Mato Grosso detém mais de 60% de sua área preservada e podem existir alguns problemas dentro das propriedades, mas como elas estão bem avançadas no Car, isso significa que se irão equacionar, inevitavelmente, os problemas que por ventura existam.

Revista AG – A Acrimat possui atualmente quantos sócios e como tem sido a participação dos produtores?

José Bernardes - Contamos com mais de três mil sócios e somos uma entidade relativamente nova. Sua origem mais antiga é uma entidade regional, mas que há oito anos se tornou estadual. Temos avançado bastante, mas para um estado onde o agronegócio é atividade preponderante, acredito que ela poderia crescer bem mais. Um exemplo que mostra sua evolução é o projeto Acrimat em Ação, em que anualmente percorremos diferentes regiões do estado promovendo encontros, visitas técnicas e uma maior integração entre os pecuaristas.

Quando ele começou, há seis anos, compareceu nas várias etapas um público de 900 pessoas e neste ano passaram de cinco mil participantes. Nas reuniões, temos constatado um maior interesse pelas causas do setor, mesmo porque temos uma crise econômica e o atual governo fala em cortar despesas, mas também em aumentar a arrecadação, e isso significa maior tributação, o que nos preocupa e tem causado certa inquietação. Somos sensíveis aqui no estado, pois na produção não se consegue fixar preços e a tributação inevitavelmente reduz a lucratividade do setor.

Revista AG – Então, o momento atual desperta para o associativismo...

José Bernardes – As pessoas estão mais atentas aos problemas da atividade e, ao se envolverem mais, tomam conhecimento da nossa entidade, e de outras também, que efetivamente precisam da participação do produtor, dando opiniões e se interessando de um modo ou de outro em assuntos de interesse comum.

Revista AG – Como foi o Acrimat em Ação deste ano e qual o tema principal escolhido?

José Bernardes – Foram estabelecidas quatro rotas diferentes percorrendo boa parte do estado, sendo que a última terminou no fim de maio, e o assunto principal foi o da intensificação da produção. O Acrimat em Ação foi muito bem aceito em todas as reuniões que fizemos, e nas visitas técnicas às fazendas, um fato positivo que constatamos é que aumenta significativamente a receptividade e o interesse a essa necessidade. E isso independe da maneira como é realizada a intensificação: manejo de pastagens; suplementação em todas as suas variáveis; integração lavoura/pecuária; semiconfinamento, confinamento e outras possibilidades.

Revista AG – Nesse aspecto da intensificação, como se encontram os aspectos de logística envolvendo insumos como calcário, adubo e outros? Existem linhas de crédito aos produtores para isso?

José Bernardes – A pecuária tem demandado recursos do Fundo Constitucional de Financiamento do Centro-Oeste/FCO, que possibilita o produtor acessar recursos em condições mais compatíveis com a atividade. Os juros ficam na faixa de 8% a 10%, com prazos um pouco maiores para pagamento pois a pecuária requer isso.

Esses recursos são utilizados para tudo e não só para a aquisição de insumos, mas também para a compra de matrizes, reprodutores, infraestrutura e outras necessidades. O FCO está disponível, mas não na quantidade e com as facilidades que gostaríamos. O grande operador é o Banco do Brasil, que requer a apresentação de um projeto que será analisado e não se tem aquilo de que se precisa no momento necessário.

Revista AG – E quanto às questões de logística de insumos ?

José Bernardes – O estado sempre enfrenta algum problema de logística. Com o calcário, temos disponibilidade e aí a logística é um pouco melhor. Já quanto ao potássio e ao fósforo, não temos, e isso custa um pouco mais para o produtor do estado de uma maneira geral. Para o pecuarista em particular, a intensificação não se resume simplesmente aderir à adubação, mas é importante que realize outras práticas e que ao final culmine com a adubação. É preciso antes melhorar o manejo dos pastos, aprimorar a genética e a “cereja do bolo”, vamos chamar assim, seria a adubação.

Revista AG – Para finalizar, gostaria de comentar algo mais ou deixar uma mensagem aos pecuaristas?

José Bernardes – O setor está bastante consciente e tem sido muito sensível e receptivo a inovações. A atividade pecuária no Mato Grosso, por ser mais empresarial do que em outras regiões, mostra maior susceptibilidade à crise e vivemos um momento muito peculiar na política do País. Temos a expectativa de uma solução rápida para que a economia volte a crescer, repercutindo em maior renda, maior consumo e melhores oportunidades para quem produz. Ao produtor de carne, é fundamental que ele receba informações e as transforme em conhecimento, passando a se organizar para que tome as decisões corretas que irão melhorar seu negócio.