Na Varanda

 

O boi na passarela paulistana

Francisco Vila
é economista, consultor internacional e diretor da Sociedade Rural Brasileira vila@srb.org.br

Naturalmente, podemos nos perguntar: será que, como no futebol, o Brasil será , no futuro, o grande exportador de modelos para o mundo da moda? Conforme as estatísticas, o mesmo aconteceu em um curto espaço de tempo de duas décadas com outro produto nobre, a carne bovina. No entanto, a população, majoritariamente urbana, ainda não seu deu conta desse gol de placa que o setor marcou no competitivo mercado mundial dos alimentos.

Seguindo os exemplos bem-sucedidos de mostrar as novidades ao grande público nas famosas feiras Fashion- Week e TravelWeek, a carne bovina entrou em cena no lugar ultrachique da capital paulista. Ampliando a tradição dos tapetes vermelhos da Feicorte, a BeefWeek, organizada pelos responsáveis das antigas feiras do Centro Imigrantes, conquistou um novo espaço no Parque Ibirapuera, considerado o coração de São Paulo. Nos dias 16 e 17 de junho a exposição reúne tudo o que tem a ver com carne vermelha para informar e impressionar os habitantes da maior praça brasileira de consumo.

No Pavilhão da Bienal, o visitante encontra todos os aspectos do assunto carne. Indústrias, entidades que focam na produção sustentável, restaurantes de vanguarda que preparam pratos novos para revelar os segredos de uma boa carne, livros sobre produção e consumo e, também, uma seção de arte retratam, em conjunto, a bovinocultura que representa o significado da vida de milhões de produtores que trabalham no campo. Painéis de debates com representantes das principais regiões e com formadores de opinião e lideranças institucionais do setor complementam as informações técnicas e do mercado.

O que isso significa na prática para o nosso negócio? Já que ninguém cria, engorda ou termina boi para consumo próprio, temos que entender melhor aquilo que o comprador do produto final pensa, certo ou errado, sobre essa mercadoria nobre. A final, é do bolso do consumidor que sai o dinheiro para investir em genética, melhorar o pasto e pagar os salários das milhões de pessoas que trabalham na cadeia da carne.

Comunicação e marketing de relacionamento se tornaram tão importantes quanto o bom manejo do rebanho ou a gestão inteligente de processos, pessoas e fluxos financeiros do cada vez mais complexo negócio bovino. Nessa trajetória, estamos no meio do caminho da ascensão de um alimento básico em direção de um produto diferenciado com selo e marca. Como consequência, o maior valor agregado aumenta a responsabilidade das dezenas de atores que formam a longa cadeia da carne.

Em comparação com os tradicionais eventos da pecuária do passado, amplia-se o foco na fazenda para uma visão mais ampla e integrada do negócio da carne. Por isso, foi criado o lema “Integrar para Crescer” que, inclusive, já ganhou um programa próprio na tevê Terraviva. Mudou-se também a direção do pensamento “Do pasto para o prato” para o oposto: “Do prato para o pasto”. Isso se tornou necessário porque o consumidor, devido ao preço elevado, passa a enxergar a carne bovina como produto de luxo. Como consequência, espera uma maior padronização da mercadoria.

A fazenda sozinha não consegue atender essa nova exigência. São múltiplas tecnologias que devem ser alinhadas, desde a combinação de insumos a novos relacionamentos entre produtores e os frigoríficos que, integrados por sofisticados sistemas de informação, monitorizarão e controle, acompanham todos os passos, incluindo produção, transporte, transformação e estocagem, até a apresentação na gôndola. O que pode parecer um desafio adicional para a já complicada realidade da criação e engorda do boi será também uma oportunidade de fidelizar o consumidor.