Raça do Mês

 

CHAROLÊS

Do pasto até o prato, essa genética tem contribuído muito para impulsionar a bovinocultura moderna

Erick Henrique - erick@revistaag.com.br

Escrever sobre animais é sempre um prazer, ainda mais se eles fazem parte do nosso dia a dia, como no caso dos bovinos. E falar sobre o taurino branco de origem francesa é, sem sombra de dúvida, um grato estudo sobre o vasto universo por onde a raça circula, não somente no Brasil, como também no mundo.

Criadores estão cada vez mais buscando conhecimento científico sobre o Charolês para extrair ao máximo seu potencial genético. Pesquisas científicas apontam a superioridade de animais cruzados com ele em relação a animais de raças puras. “Um trabalho clássico conduzido por pesquisadores, utilizando animais das raças Angus, Charolês, Hereford e Brahman, demonstrou que animais puros pertencentes a essas raças obtiveram taxas de prenhez, desmame e sobrevivência de bezerros inferiores às obtidas por animais do cruzamento rotativo entre duas, três ou quatro raças”, diz o presidente da Associação de Criadores Charolês (ABCC), Wilson Borges.

Segundo o líder da entidade, a máxima heterose ocorre quando uma fêmea F1 é cruzada com um reprodutor de uma terceira raça. Dessa forma, é possível explorar as características maternas superiores apresentadas. “Outro ponto importante a ser ressaltado é que a heterose se manifesta de forma mais acentuada quanto mais distante for o parentesco entre as raças. Ou seja, existe maior ganho produtivo quando o cruzamento for entre uma raça zebuína, uma continental e uma britânica do que entre raças diferentes da mesma origem. Em matrizes F1 Nelore/Angus, a heterose máxima é atingida através de cruzamentos com raças continentais, como o Charolês, obtendo o tricross”, explica Borges.

“É por isso que eu sempre digo, enquanto houver balança neste mundo, o Charolês tem seu lugar garantido”, comenta o presidente da ABCC, Wilson Borges

Ele informa que esse sistema de produção já vem sendo utilizado por grandes produtores no Brasil-Central, que retêm parte das fêmeas F1 para matrizes. “Existem dados estatísticos que apontam para uma maior eficiência e, consequentemente, um maior retorno financeiro do produto proveniente do tricross utilizando uma raça continental em cima da fêmea meio-sangue zebuína/britânica, em relação ao novilho meio-sangue e mais ainda em comparação ao Nelore puro. Neste trabalho, os dados foram obtidos com a utilização de outras raças continentais. Neste ano, foi utilizado o Charolês, e os terneiros desmamados estão apresentando um desempenho ainda superior ao obtido anteriormente”, avalia o dirigente.

Borges recomenda cautela aos criadores antes de realizar esse tipo de cruzamento. “Em qualquer acasalamento devemos ter cuidado. Atualmente, existem no Charolês muitas opções de reprodutores com facilidade de parto e desempenho de ganho de peso e rendimento de carcaça superior. Basta ter sabedoria na hora de escolher a alternativa adequada para cada situação”, conclui.

De uma forma geral, podemos considerar que, para os sistemas de produção atuais, os cruzamentos devem ser direcionados para a obtenção de animais adaptados aos seguintes desafios:
– pelame curto, promovendo maior resistência a altas temperaturas (lembrando que mais de 80% do território brasileiro é tropical);
– perdas embrionárias e fertilidade dos reprodutores;
– resistência a ectoparasitas (carrapatos e mosca-do-chifre);
– fertilidade e precocidade sexual;
– vacas de tamanho moderado, capazes de adaptar-se à sazonalidade da oferta de forragem, mantendo a condição corporal e repetindo a prenhez;
– novilhas precoces, atingindo a puberdade antes dos dois anos de idade, sem necessidade de altos custos com a recria; e
– novilhos capazes de produzir carcaças pesadas até os 30 meses de idade, com acabamento de gordura adequado.

“Temos notado um aumento significativo da simpatia pela raça charolesa em todo Brasil. Em todos os contatos com profissionais da área, fornecedores de insumos, terminadores e frigoríficos, constatamos uma quase unanimidade com relação à qualidade dos animais cruzados e ao potencial do Charolês como instrumento de aumento de produtividade, rentabilidade e eficiência através do seu ganho de peso, rendimento de carcaça e conversão alimentar. É por isso que eu sempre digo: enquanto houver balança neste mundo, o Charolês tem seu lugar garantido”.

Carne Charolês Cerficada nas gôndolas do Brasil

Habilidade materna
O animal atrai olhares de quem está investindo no sistema de produção tricross muito em conta pela qualidade na reprodução das fêmeas. Vacas primíparas da raça charolesa produzem bastante leite e, sequentemente, bezerros mais pesados ao desmame, ou seja, quanto maior for o peso, mais o bolso do criador agradece. Obviamente que, para registrar uma boa produtividade, a fêmea deve ter uma boa oferta de pastagem e suplementação, principalmente, no período seco do ano.

O avanço zootécnico é tão essencial para a pecuária de maneira geral que todos os animais de propriedades tecnificadas estão parindo mais cedo. No passado, a novilha charolesa tinha sua cria a partir dos três anos. Algo inviável dentro da bovinocultura moderna. Para mostrar que o caminho é outro, a ABCC teve a iniciativa de premiar os criadores que estão reduzindo o ciclo através do Prêmio Precocidade Reprodutiva, instituído em 2007.

Recebe o troféu a fêmea Charolês que estiver participando da Expointer, em Esteio, Rio Grande do Sul, com sua primeira cria ao pé e que tenha parido com a menor idade. “Este prêmio foi idealizado por mim, em 2006, quando participava da diretoria como diretor de divulgação. Como a Cabanha Labor (fazenda do presidente da ABCC), de Soledade/RS, foi laureada quatro vezes nas primeiras cinco edições, alguns colegas pecuaristas diziam que eu tinha criado o prêmio para causa própria. Felizmente, com o passar do tempo, a premiação ‘pegou gosto’”, lembra o entusiasmado dirigente.

Segundo ele, os criadores foram aos poucos se interessando cada vez mais pela premiação e atualmente esse troféu é muito valorizado, apresentando disputas acirradas a cada ano. Na última edição realizada, em setembro de 2015, a vencedora foi Namuncurá 349 Índia, da Estância Namuncurá, de Itacurubi/RS, dos pecuaristas Rosalina Ribas Gonzales e Joaquin Villegas, que teve a sua primeira cria com 1 ano 5 meses e 21 dias de idade.

Com essa habilidade materna, o animal se tornou a nova recordista do prêmio, superando a detentora da marca anterior que era Santa Tecla 2105 Querena B, da Cabanha Santa Tecla, de Abelardo Luz/SC, de Jamil Deud Júnior, que teve seu primeiro parto com 1 ano, 7 meses e 14 dias. “O que mais me impressiona é que na penúltima edição esse animal veio ao pé da vaca e agora é ela que está com cria no pé”, comemora Villegas.

Borges ressalta que o prêmio é baseado exclusivamente em critérios totalmente objetivos dentro das raças de corte, para dar visibilidade aos avanços do Charolês nos quesitos precocidade e facilidade de parto. “Na década passada, a raça ainda sentia o preconceito de alguns produtores que achavam que a novilha charolesa era mais tardia e que os reprodutores causavam partos distócicos. Precisávamos, então, de uma maneira de mostrar de forma concreta e palpável que a seleção genética tinha conseguido uma imensurável evolução nesses fatores”, afirma.

No geral, a habilidade materna da raça é bastante positiva. A vacada cria seus bezerros a campo e desmama-os com peso médio de 200 kg, aos 6-8 meses, assim como o crescimento: o bezerro desenvolve- -se muito rápido, em especial, nos animais cruzados.

Produto charolês

Iniciativas como o programa de carnes que certificam a qualidade e a origem do produto demonstram que a demanda pelas raças taurinas está em ascensão e isso não é diferente com o Charolês. “O Programa Carne Charolês Certificada está consolidado e em franca expansão. A receptividade do mercado tem sido muito boa, e quem compra normalmente volta a adquirir o produto. Já existem alguns restaurantes que incluem a carne de Charolês no seu cardápio e com ótima aceitação.

Dados da ABCC indicam que o volume de abates vem crescendo a cada mês, apesar de algumas oscilações normais, durante o ano passado, houve um acréscimo de oferta de animais e classificação de carcaças. Desde o início do programa, até dezembro de 2015, ocorreu um incremento de mais de 150%. No balanço, o mês de janeiro de 2016 registrou aumento no número de carcaças selecionadas de mais de 200% em relação ao mesmo período de 2015.

“Cabe destacar o feedback dos consumidores: recebo constantemente comentários positivos, ressaltando a maciez e o sabor da carne, o que prova a sistemática de classificação utilizada pelos técnicos da associação. Sabemos que há um longo caminho e que ajustes e aperfeiçoamentos são necessários, mas essa fase inicial é promissora e positiva”, pontua Borges.

Para ir longe com o projeto, a entidade passou a contar com apoio técnico da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária (CNA), através do médico-veterinário, Juliano Hoffman, Coordernador dos Protocolos de Rastreabilidade, e o assessor técnico Rafael Linhares. O Programa Carne Charolês Certificada foi protocolado no segundo semestre do ano passado junto ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), sendo a CNA a gestora do programa.

A carne certificada da raça é encontrada na rede de distribuição do Frigorífico Verdi, em cidades do Sul do Brasil como, por exemplo, Curitiba/PR, Florianópolis/SC, Chapecó/SC, Campos Novos/SC e no belíssimo litoral catarinense. A projeção para incrementar a produção através de contratos com novas plantas frigoríficas, além de aperfeiçoar e tecnificar a produção.

Rebanho meio-sangue Charolês é uma eficiente via de lucratividade

Charola marcando território

O rebanho carcaçudo está representando com primor a pecuária argentina, uruguaia e norte-americana. Na meca do tango, o Charolês desempenha um papel determinante na retomada do segmento que estava perdendo espaço para agricultura. A economia frágil e instável dos nossos vizinhos fez com que muitos pecuaristas abandonassem a atividade para não perder praticamente o sustento da família.

Contudo, quem está mostrando que existe um caminho promissor para bovinocultura de corte daquele país é a família Volpi, de Urdampilleta, província de Buenos Aires, que trabalha há meio século com a raça, com êxito, e conquistando notáveis premiações nos concursos de carcaça.

A fazenda Omar Volpi e Hijos S.H, do criador Omar Volpi, possui 800 hectares, trabalha com o sistema de Integração Lavoura- Pecuária (ILP), disponibilizando 350 ha para as culturas de milho, soja e trigo. Seu rebanho total é de 1.000 cabeças, trabalhando com ciclo completo: cria, recria e engorda.

No sistema de produção da propriedade, os terneiros são desmamados com 4 a 5 meses, sendo suplementados daí em diante com silagem de cevada, ração de milho e concentrado proteico na proporção de 1,5% do peso vivo. Atualmente, a taxa de prenhez da fazenda chega a 97%, enquanto a taxa de desmame atinge os 95%. As novilhas são inseminadas aos 15 meses com touros Angus e Shorthorn, enquanto as vacas recebem doses de reprodutores Charolês PO de frame reduzido.

O produtor argentino distribuiu os esforços da fazenda com seus filhos, Pablo Omar, dedicado exclusivamente à pecuária, e Alejandro Omar, à parte agrícola. De acordo com o jovem criador, dados computados do rebanho apontam ganho de peso diário 1.100 kg/dia do Angus e 1.500 kg/dia do novilho Charolês ingerindo exatamente a mesma dieta no curral.

Ele calcula que a recria no pasto e no curral, fechados em confinamento por 90 dias, terminados com 480 a 500 quilos e idade de 16/17 meses, obtém um rendimento no gancho excepcional, registrando média de 60% de carcaça. Em um dos concursos em que a propriedade participa, um novilho chegou à impressionante marca de 66% de rendimento de carcaça. A família Volpi já levou para casa importantes títulos em concursos de carcaça como o prêmio “Melhor Olho de Bife”, “Melhor Rendimento de Carcaça” e “Melhor Rês Cota Hilton”.