Mercado

Novo rumo no curto prazo

As exportações de carne bovina brasileira continuam em alta em 2016, favorecidas pelo bom desempenho do mês de março, que registrou os maiores números do ano. Segundo levantamento da Abiec (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne), o mês de março registrou um faturamento de US$ 518 milhões, resultantes do embarque de 140 mil toneladas de carne. Isso representa um aumento de 5,5% no faturamento e 10,3% no embarque em relação ao mês de fevereiro deste ano e um aumento de 7,8% e 21,4%, respectivamente, em relação a março de 2015. O primeiro trimestre de 2016 fechou com 367 mil toneladas exportadas, resultando em um faturamento de US$ 1,384 bilhão, um aumento de 15,9% e 1,2%, respectivamente, em relação ao mesmo período do ano passado. A expectativa até o final do ano é que o faturamento total chegue a US$ 7,5 bilhões e que o volume embarcado fique próximo a 1,76 milhão de toneladas.

Entre os principais importadores de carne bovina brasileira destacam-se nas primeiras colocações Hong Kong, Egito, União Europeia e China. Vale ressaltar a Arábia Saudita, mercado recém-aberto, que no mês da retomada das importações atingiu a nona colocação nesse ranking, com 3 mil toneladas e faturamento de US$ 11 milhões.

A carne in natura segue na liderança isolada das categorias exportadas e fechou o mês de março com 78,9% do total do volume exportado e 79,5% do total faturado. Na segunda colocação, vem a carne industrializada, seguida dos miúdos, tripas e salgadas.

O atual preço do dólar no Brasil confere competitividade à carne brasileira no mercado global. Apesar do aumento de 8,85% no valor da arroba em dólares, em relação aos 30 dias corridos anteriores aos apresentados na tabela Boi Gordo no Mundo, o produto brasileiro ainda é mais vantajoso quando comparado a outras praças.

É importante frisar que as exportações têm ajudado no escoamento da produção no ano de 2016, que segue travada pelo consumo interno devido ao atual cenário econômico e político brasileiro que tem gerado incertezas, instabilidade e desemprego por todo o Brasil.

Média do preço da desmama de 16/03 a 15/04/2016

Fonte: Scot adaptado por Boviplan

O mercado de reposição segue estável, com pequenas variações registradas entre a segunda quinzena de março e a primeira quinzena de abril. Dentre os estados apresentados na tabela Média do preço da desmama, São Paulo, Minas Gerais e Pará apresentaram queda nominal de, respectivamente, 1,3%, 1,5% e 1%, enquanto que os estados de Goiás, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Paraná e Rio Grande do Sul apresentaram alta nominal de 3,0%, 0,7%, 0,6%, 1,3% e 1,9%, respectivamente, quando comparados à segunda quinzena de fevereiro e a primeira quinzena de março.

A tendência é que o mercado de boi magro aqueça conforme a época seca do ano se aproximar, decorrente do início dos confinamentos pelo Brasil. Portanto, a valorização dessa categoria animal não está fora de cogitação no curto prazo.

Relação de Troca média - 16/03 a 15/04/2016

Fonte: Scot adaptado por Boviplan (*RS em R$/kg PV.)

O gráfico sobre Relação de troca média da desmama e boi magro com o boi gordo evidencia a reduzida margem pela qual o invernista está transitando, não só no período aqui analisado (16/03 a 15/04), mas também ao longo dos últimos tempos. Há dez anos, em março de 2006, a relação da desmama com o boi gordo no estado do Mato Grosso do Sul estava em 2,29 bezerros para cada boi gordo de 16 arrobas vendido. Hoje, com o mesmo boi gordo, o pecuarista consegue comprar, em média, 1,67 bezerros. Isso representa uma redução no poder de compra do invernista da ordem de 27%.

Evolução do preço da arroba do boi gordo por UF - 16/03 a 15/04/2016

Fonte: Scot adaptado por Boviplan (*Relação de Troca refere-se ao cruzamento industrial)

Comparando o período apresentado pelo gráfico da relação de troca com os 30 dias imediatamente anteriores não foram observadas diferenças significativas nesse quesito nas praças analisadas.

Além do alto preço da reposição, outro fator que pode colaborar para a redução da margem de lucro dos invernistas é a alta do milho para aqueles que o adotam como tecnologia. No Rio Grande do Sul, em março do ano passado, era possível comprar com uma arroba de boi gordo, em média, 6,4 sacos de milho, enquanto que em março de 2016 foi possível comprar apenas 4,8 sacos, ou seja, uma redução no poder de compra de 25,4%. Já no Mato Grosso era possível comprar, com uma arroba, 7,7 sacos de milho em março de 2015 contra 4,6 sacos em março deste ano, o que acarretou uma redução brutal do poder de compra da ordem de 40,2%.

Esse fato tem feito os confinadores repensarem a atividade, pois a margem será muito pequena e qualquer erro pode culminar em grandes prejuízos. Portanto, diante desse cenário, a solução é estudar minuciosamente a viabilidade da utilização do milho nos suplementos e nas rações e também buscar utilizar outras fontes energéticas mais baratas, tais como casquinha de soja, polpa cítrica, sorgo ou milheto, entre outras. Assim, a saída é não ficar preso somente no milho.

A primeira quinzena de março, como relatado na coluna passada, registrou uma manobra dos frigoríficos na tentativa de retomar margem, que sofreu redução nos últimos meses através da derrubada dos preços pagos pela arroba. Segundo levantamento da Scot Consultoria, a margem dos frigoríficos na primeira quinzena de abril fechou em 10%, uma das menores taxas registradas nos últimos anos. Isso se deve à queda do preço no atacado e ao aumento do preço pago pela arroba ao pecuarista. Porém, essa estratégia não conseguiu reduzir de maneira significativa os preços, que se mantiveram praticamente nos mesmos patamares. A principal razão foi a falta de oferta de animais terminados, além da resistência do pecuarista em entregar produto a preços abaixo do previsto, favorecidos pelas pastagens que ainda estavam em boas condições.

Analisando o gráfico da Evolução do preço da arroba do boi gordo de 16/03 a 15/04, de maneira geral, os preços não sofreram variações significativas até a primeira semana de abril. Já na segunda semana houve queda dos preços na maioria das praças, o que pode ser resultante da chegada da seca e a consequente redução da oferta de forragem aos animais. Logo, o pecuarista que possui bois terminados não conseguirá segurá-los à espera de melhores preços, desovando a produção. Dessa forma, a tendência é que os preços possam cair em curto prazo no começo da época seca.

Diante desse cenário, os preços da arroba no começo do segundo semestre podem vir a subir novamente, caso essa previsão se concretize, pois não haverá oferta de animais para os frigoríficos nos meses subsequentes.

De modo geral, é preciso ter cautela para as tomadas de decisão de compra e venda até o fechamento deste primeiro semestre. A situação econômica e política, além dos fatores climáticos, está ditando os rumos do mercado e qualquer deslize nos fechamentos de negócios pode afetar a rentabilidade do pecuarista no longo prazo.

Antony Sewell e Arthur G. S. Cezar
Boviplan Consultoria