Caindo na Braquiária

 

Matriz ideal

Alexandre Zadra

Eram mais de 1.300 bezerras e novilhas que abarrotavam os currais daquela bem afamada leiloeira do triângulo mineiro, onde em instantes se iniciaria o pregão que, se somando os machos, chegaria a 3.000 animais ofertados.

Zé Humberto, invernista da região, caminhava com seu Prada na cabeça, avaliando cada lote de bezerras de corte que, conforme afirmara, teriam duplo papel no criatório: serviriam para cria e seriam engordadas para abate.

Como assim? Inquiri o experiente pecuarista.

Foi com caneta na mão, anotando os lotes de interesse, que Zé Humberto esclareceu as razões da mudança de objetivos da fazenda onde sempre engordou machos e que agora comprava apenas fêmeas jovens para reposição do rebanho.

“Olhe, Zadra, desde que me entendo como invernista, para ganhar dinheiro, sempre tinha de vender um boi gordo para comprar 2,5 bezerros, o que não tenho conseguido já há um bocado de tempo. Parei e fiz tudo que é conta, de trás para frente, de frente para trás, chegando à conclusão que o melhor, nesse momento, é voltar a criar, mas sendo, ao mesmo tempo, invernista, quando todo ano compro bezerras de 12 a 14 meses pesando acima de 7@”, e seguiu a prosa com persuasão: “Essas novilhas chegam à fazenda em novembro-dezembro e são recriadas até atingirem 320 kg em outubro-novembro do outro ano. Elas têm de ser boas para chegar a esse peso, disso não abro mão. Se têm genética, atingirão esse peso, pois você sabe bem, Zadra, que sou criterioso, e meu gado o tempo todo recebe pasto bom e um suplemento proteico na seca, onde mesmo no inverno meu gado tem ‘faixo’ para comer”.

“Aí chamo um veterinário que mora perto para fazer a inseminação delas, repetindo mais 2 vezes a inseminação naquelas vazias. Depois da 1ª cria dessa novilha, mato a mãe na desmama pesando entre 14 e 16@, dependendo da raça, e ainda fico com o bezerro para engordar nos arrendamentos, onde não preciso mais comprar essa categoria para repor meus bois. Aí sim voltei a ter lucro, pois ganhei as arrobas da bezerra que comprei, matando-a pesada, e ainda as arrobas do bezerro que ela me deixou”.

Nesse momento, Zé Humberto levanta o braço discretamente para lançar em um lote de novilhas aneloradas coloridas, dando quatro dicas simples, mas preciosas, que devem ser levadas em conta quando se procura uma futura matriz de qualidade.

Dica 1 – Raça Nelore – Toda matriz no Brasil que faz calor precisa ter sangue de Nelore, pois a raça é inigualável no cuidado com a cria, protegendo-a e não a desamparando em momento algum desde o nascimento. Nunca perde teto e desmama bons bezerros, aguentando a seca como poucas raças.

Dica 2 – Outra raça na formação – Quando procuro fêmeas para serem futuras matrizes, dou preferência para que não seja Nelore apurada, pois quando essa novilha tem uma certa porção de raças europeias em até 50% do sangue (a famosa meio-sangue), sua chance de emprenhar cedo é maior, contando ainda com um pouco mais de leite para criar bem o bezerro.

Dica 3 – Matriz eficiente - Caso a novilha parida venha a permanecer no rebanho, segure somente as mais leves (entre 13 e 14@), essas comem menos, sendo menos exigentes no campo. Dessa forma, produzem mais kg de bezerros na mesma área.

Dica 4 – Reconcepção – Para os criadores que precisam ficar com as novilhas paridas, recomendo que segure somente as matrizes que emprenharem no máximo com 60 dias depois do parto, pois essas são as boas que devem permanecer no rebanho matrizeiro.

E ao final do leilão, Zé Humberto havia comprado 230 novilhas de ano, sendo 60% delas aneloradas coloridas, com peso médio de 7@, 20% eram meio-sangue Angus pesando acima de 8@ e pagando um pouco mais caro que as demais. Os 20% das novilhas restantes eram Nelore bem apuradas. Zé já pretende registrá-las em livro aberto para inseminá-las com Nelore de primeira qualidade, a fim de fazer alguns touros, aproveitando a procura que tem sido muita na região.

Ensinamentos de um mineiro tradicional, mas que sabe fazer conta como poucos.

Alexandre Zadra - Zootecnista zadra@crigenetica.com.br