Confinador

 

CRIA

Como ela poderá influenciar os sistemas de recria e engorda nos próximos anos?

Edmundo Rocha Vilela*

Atualmente devem existir poucas tarefas tão difíceis como tentar acertar como será algum negócio no Brasil. No mercado pecuário, as variáveis são inúmeras e a chance de erro torna-se muito grande. Em 2016, algumas perguntas que fazíamos em 2014 continuam atuais e as expectativas também são parecidas. Entender como a cria poderá influenciar ou irá se relacionar com a recria e a engorda no sistema de produção de carnes é um tema que vem ganhando importância.

Somos carentes de estatísticas confiáveis e algumas perguntas são pertinentes no entendimento da cadeia e suas “respostas” podem definir o mercado:

– A idade média do nosso rebanho continua diminuindo? Estamos abatendo os bois cada vez mais jovens?

– O nosso estoque de animais/ arrobas é menor? O boi que ficaria pronto para abate a pasto no primeiro semestre foi abatido seis meses antes em um confinamento?

– Ainda temos menos bois, pois os animais abatidos em 2015/2016 vêm de uma safra em que, dentro do ciclo pecuário, o abate de fêmeas ainda era muito alto?

Qual é a pecuária de cria que estamos discutindo? Há cria sem estação de monta? Os bezerros serão desmamados em abril /maio ou setembro/ outubro?

– Estamos discutindo o bezerro filho de touro Nelore sem melhoramento para produção/desempenho ou o filho de touro Nelore de alto desempenho ou ainda de um bezerro de IATF e/ou de cruzamento industrial?

– Vamos ter uma maior utilização das carcaças abatendo bois mais pesados? Isso diminui a demanda por cabeças para produzir a mesma quantidade de arrobas?

– O quanto o fechamento de mais de 50 indústrias em 2014/2015 irá impactar no menor abate, maior retenção de rebanho/fêmeas, aumento na produção de bezerros e aumento na oferta?

– Qual será o valor do dólar em 2016/2017 e o quanto isso impactará nas exportações? Os embarques aumentarão em quantidade? Estamos começando a exportar carne de mais qualidade e com maior valor em dólar?

– O quanto as crises econômica e política irão impactar no consumo interno?

A valorização do bezerro permitiu uma mudança de cultura muito forte na cria

De qualquer forma, acreditamos que ciclos pecuários existirão e serão os reguladores naturais do mercado. Cremos que teremos ciclos com amplitudes menores entre o teto e o piso do ágio do kg de bezerro/kg de boi gordo. Em 2007 ainda vimos no Cepea o valor do kg do bezerro muito próximo do kg do boi gordo; desde então, o valor do kg do bezerro assumiu uma crescente de distanciamento do valor do kg do boi. Lá se vão nove anos. Aparentemente, tempo suficiente para completar um ciclo.

Dessa forma não esperamos mais ver um bezerro com valor de kg no mesmo patamar do de boi gordo. Particularmente, não esperamos ver 1 kg de bezerro com ágio menor que 25/30% (piso) em relação ao kg do boi gordo. Isso quando falamos de um bezerro leve (até 185,00 kg). E o teto, de quanto será? Quanto é saudável para o recriador/terminador pagar de ágio? 30, 40 ou 50%? Em 2015 assistimos tetos de até 55% em GO. O terminador consegue ganhar dinheiro nessa situação? Qual percentual de ágio será pago e em qual época do ano esse diferencial foi pago? 30% de ágio é muito diferente para a @ barata de maio e para a @ cara de novembro. A qualidade do bezerro desmamado em abril, nascido em agosto/setembro é muito diferente do bezerro desmamado em setembro/ outubro.

Ainda falando de ciclo pecuário, a fase que estamos passando teve o começo da valorização da @ do boi gordo ainda em um momento em que a porcentagem de abate de fêmeas era alto e crescente. Isso pode indicar que a valorização do kg do bezerro vai acontecer por um período maior de tempo? Nas últimas semanas, o mercado de reposição vem passando novamente por forte valorização, acompanhando o valor da @ do boi gordo e a oferta de animais para reposição continua escassa. Alguns analistas discutiram uma queda no valor da reposição em 2016.

O ano está só no começo e a safra de bezerros desmamados só deve começar efetivamente em 30/60 dias em boa parte do Brasil. Em todo início de safra o mercado parece entrar em “teste”, quando os compradores testam preços menores em suas ofertas e os vendedores, valores maiores em seus produtos. Essa situação tende a encontrar estabilidade à medida que os negócios vão entendendo os valores da “safra”.

Toda a discussão até aqui está no valor da @ do boi gordo e “bezerro macho”. Como será o ágio do kg da “bezerra fêmea” em relação ao kg da vaca ou do boi gordo? Estamos observando ágios consideráveis também nas fêmeas e acreditamos vir basicamente de três situações:

1 – atualmente, existe abate de fêmeas com valores muito próximo do macho, dependendo de peso de carcaça, idade de abate, qualidade de acabamento e raça da fêmea;

2 – a reposição de fêmeas para reprodução está difícil e aquecida com a valorização do bezerro;

3 – como o valor do macho aumentou, acaba puxando o valor da fêmea.

O principal motivo de entrar nessa discussão é o fato de a reposição ser o item de maior custo e que mais impacta na produção para os recriadores/terminadores. Então, o bom entendimento de como funciona a reposição é determinante para que se consiga fazer o planejamento do negócio e obter ou não bom resultado financeiro.

Historicamente, a pecuária de cria sempre foi caracterizada por ser a “fase” da pecuária que menos remunera o pecuarista, além de ser a de manejo mais exigente. O manejo de pastagens para vacas, de maternidade, de saúde dos bezerros e a eficiência reprodutiva refletem a necessidade de uma equipe mais preparada e do trabalho mais intenso. Especialmente para grandes grupos, a combinação de menor rentabilidade e desafios trabalhistas torna a “cria” pouco atrativa. Porém, para se ter um boi gordo é preciso existir uma matriz para parir e que emprenhou em algum momento. Logo, alguém terá de enfrentar esse desafio e deverá ser remunerado o suficiente para evitar que a cadeia fique muito desequilibrada.

O desafio para o recriador/terminador passa a ser a forma de como adquirir os bezerros de maneira que não comprometa a rentabilidade e/ou a viabilidade do negócio de recria e/ou engorda. A dependência dos “gambireiros”, dos leilões, do pagamento “por fora” e até mesmo por valores diferentes dos apresentados na nota fiscal têm comprometido a atividade de recria/engorda de muitos grupos pecuários, levando alguns deles a abandonar a atividade. A amplitude na oscilação do ágio da @ do bezerro/@ do boi gordo também podem determinar a rentabilidade ou não da terminação.

Para os pecuaristas ainda sobra o desafio de como garantir bezerros de genética e desempenho superior ou que ofereça carne de melhor qualidade. A solução parece passar pela ação no ponto em que tudo se origina: nos criadores de vacas, o que nós chamamos de “originação”. É claro que a cada ano haverá crescente valorização desse segmento da pecuária de corte.

Ou seja, a especialização/ tecnificação dos sistemas de terminação vem fortalecendo e demonstrando o quanto a origem é determinante no sistema. Outra característica que vem alterando as relações de força na pecuária de corte é o surgimento de inúmeros programas de remuneração diferenciada para carnes especiais.

No passado recente, esses cortes eram primordialmente importados. A irresponsabilidade de políticas populistas no Brasil e em países vizinhos e a necessidade de garantir oscilações de câmbio fizeram da importação um risco e a produção dessas carnes no mercado interno, uma necessidade.

Quanto esse setor será afetado nos próximos anos se a renda da população brasileira continuar caindo? E se o valor do dólar se mantiver próximo de R$ 4,00? Comeremos asinha de frango como carne nobre?

Segundo Edmundo Rocha, este ano e o próximo serão importantes para o mercado de bezerros

Nos últimos anos, a combinação de todos esses fatores parece ter provocado o desenvolvimento de novos modelos de negociação e o surgimento de novas relações entre os diferentes segmentos da atividade de cria. Modelos pré-fixados de formação de preços, pagamento de ágios pré-fixados na arroba dos bezerros e do boi gordo, contratos de garantia de fornecimento ou de uso de genéticas específicas, valorização da arroba das fêmeas, fomentos para investimentos em melhoramento e inseminação artificial passaram a ser relativamente comuns em várias regiões do Brasil. Esses contratos estão sendo oferecidos por grandes empresas frigoríficas, grandes grupos pecuários e mesmo por recriadores/ terminadores regionais.

Esses últimos anos têm sido pouco atrativos para a nossa cultura, que é de ganhar mais sempre e sozinho. Apesar de começarmos a mudar o nosso antigo modelo de negociação e já conhecermos alguém em nossa região que participa de algum programa de garantia de fornecimento, ainda somos “desconfiados” (talvez com razão). O valor dos bezerros está supervalorizado e a demanda, aquecida; assim, pode-se leiloar os animais entre diversos candidatos a compradores. Porém os produtos da monta de 2015/2016 serão desmamados em 2017 e, na sua maioria, abatidos em 2018/2019.

Qual será o valor da arroba de bezerros e do boi gordo naqueles anos? Como estará a oferta? Em que momento estará o ciclo pecuário? Haverá demanda aquecida ou oferta abundante? Quem irá leiloar? O comprador ou o vendedor? Vivemos em 2008/2009 um cenário de valorização do bezerro, pouca “atratividade” de fechar negócios futuros e em 2010/2011/2012, quando os bezerros estavam sendo desmamados, assistimos muitos vendedores ofertando animais a valores inferiores aos que tiveram oportunidade de contratar quando estavam com as matrizes em monta.

Este ano e os próximos podem ser especialmente importantes para os produtores de bezerros avaliarem a possibilidade de contratos de fornecimento, nem que seja de parte da produção, e conseguir garantias para o futuro. Por mais que mude a duração ou a amplitude de sua variação, os ciclos pecuários devem continuar existindo.

A valorização do bezerro permitiu uma mudança de cultura muito forte na cria e novas tecnologias permitiram aumentar o nível de inclusão de tecnologias. Ganharam força neste ciclo de produção a discussão de aspectos técnicos como:

– Custo de prenhez de touro x prenhez de inseminação. A popularização, o domínio da técnica de IATF e a diminuição dos custos com os insumos permitiram a essa tecnologia apresentar custo de prenhez muito próximo e, na maioria dos casos, mais barato que a monta natural.

– Consolidação do cruzamento industrial, em especial com a raça Angus. Desde 2013, as raças Nelore e Nelore Mocho, pela primeira vez, venderam menos doses de sêmen do que a raça Angus (preto e vermelho). A IATF também permitiu a utilização de cruzamento com outras raças europeias, uma vez que não dependemos mais da utilização de touros.

– Indução de ciclicidade, que em vacas paridas pode diminuir o IEP (intervalo entre partos), e aumento na produção de bezerros; nas novilhas, chamamos essa indução de antecipação da puberdade. Um dos pontos que atualmente mais pode melhorar a viabilidade econômica da fase de cria é permitir que as matrizes comecem a produzir mais cedo e deem retorno mais rápido sobre o capital investido.

– Seleção de animais para características produtivas, especialmente na raça Nelore.

– Estação de monta mais definida, maior taxa de gestação final, maior peso à desmama – época de nascimento/desmama, maior produção de bezerros, maior lotação das fazendas por ter mais vacas parindo/utilizando as pastagens no verão e menor carga de UA utilizando as pastagens na seca.

Enfim, nos próximos anos precisamos estar preparados para vencer os novos desafios e aceitar e promover a inovação da pecuária ou os futuros pecuaristas não serão os nossos netos.

*Edmundo Rocha Vilela é agropecuarista, médicoveterinário, mestre pela FMVZ – UNESP – Botucatu e trabalha na Lageado Biotecnologia