Brasil de A a Z

 

Se o assunto é reposição de fêmeas... seja profissional!

William Koury Filho é zootecnista, mestre e doutor em Produção Animal, jurado de pista de Angus a Zebu e proprietário da Brasil com Z® – Zootecnia Tropical

Amigos da lida, entramos no outono, as chuvas vão minguando e o governo tem se complicado a cada novo fato revelado pelo judiciário.

E nós da roça? Continuemos mostrando indignação às coisas erradas, independentemente de partido, vamos para a rua quando necessário e, de cabeça erguida seguimos acordando cedo, arregaçando as mangas e produzindo. Nós que estamos envolvidos com o agronegócio representamos o Brasil que dá certo!

Na coluna do mês passado procuramos deixar claro que a característica mais importante a ser selecionada em bovinos de corte é a fertilidade. Ou seja: devem nascer bezerros(as)!

Vamos lembrar que existem somente dois momentos em que podemos mudar a constituição genética de um rebanho, são eles: acasalamento/ cruzamento e seleção.

O que tenho acompanhado ao longo dos anos de experiência de campo é que muitas consultorias em gestão de resultados têm apresentado soluções imediatistas a seus clientes, e não pensam a médio e longo prazos. Até dois anos atrás, a indicação era acabar com a vacada e mexer só com boi. Pois é, mas não previam que faltariam bezerros no mercado e a cria poderia ser valorizada. Caminho que segue a tendência de países com a atividade mais amadurecida, como os EUA. Outro ponto que era pouco abordado é a disponibilidade e a qualidade dos bezerros ou bois magros na região.

Hoje, com a valorização da cria, a indicação imediatista é partir 100% para o cruzamento, sem considerar o perfil da propriedade, nem a necessidade de se fazer uma boa reposição de fêmeas.

Cuidado com a estória de inseminar para cruzamento no início de estação e repassar com Nelore para reposição. Nesse caso, teremos disponíveis novilhas oriundas da vacada menos fértil e de qualidade inferior em virtude da época do ano no nascimento, e, consequentemente, irão emprenhar menos no primeiro desafio.

Outro importante ponto a ser abordado é que, quanto mais bezerras brancas nascidas, maior a pressão de seleção que se pode fazer para atender as necessidades de reposição e que não são todos os produtos cruzados que receberão a premiação da indústria.

Cuidado também com a bagunçada que se pode dar na fazenda utilizando as cruzadas para reposição. Primeiro, porque as F1 são mais exigentes em saúde e nutrição, principalmente em mantença, pois cabem menos vacas por hectare. Depois, porque o máximo de ganho em heterose se dá a partir do cruzamento entre grupos raciais mais distantes, além do dilema que diz respeito ao que deveria ser utilizado nas mestiças.

Mas dá para trabalhar com as F1? Sim, claro, elas podem ser muito eficientes. Como em Zootecnia não existe receita de bolo, vou dar um exemplo dentre as várias possibilidades. Nas cruzadas Angus x Nelore, recomendaria a utilização de Braford, atentando para a DEP de peso ao nascer do touro, e poderíamos conduzir mãe e cria para terminação em confinamento - após a desmama em idade precoce. Aproveitaria a precocidade sexual e a habilidade materna e manteria o percentual britânico para premiação em nichos de mercado.

O cruzamento é uma ferramenta forte para se aumentar produtividade em uma geração, mas não podemos esquecer que se praticarmos seleção dentro de raça, o ganho é cumulativo, geração após geração.

Pois é, temos de profissionalizar a atividade. Planejar!

Dentro de um conceito que chamo de gestão genética, devemos definir o perfil da propriedade, podemos segmentar o rebanho de matrizes trabalhando com núcleos de reposição e cruzamento, assim se pode inseminar de touros bons, para características maternais, a vacada mais apropriada para serem mães das novilhas de reposição no início de estação e depois repassá-las com os melhores touros com esse perfil.

Já a vacada destinada para cruzamento poderá ser inseminada e depois repassada com touros Nelore, sintéticos ou taurinos adaptados e que sejam fortes para características de ganho em peso e qualidade de carcaça, visando ao abate de todos os produtos.

A raça Nelore domina os números como base da pecuária nacional, isso porque apresenta qualidades como baixa necessidade de mantença, com adaptabilidade ao sistemas de produção praticados no País - o que reflete em fertilidade - e capacidade de desmamar um bezerro de bom peso.

Cuidado em generalizar o que chamamos de Nelore no Brasil, pois representando aproximadamente 80% da pecuária de corte no País, a raça apresenta muita variabilidade genética, ou seja, tem muita coisa boa, mas tem muito gado sem qualidade no mercado.

Lembrem-se: quanto mais forte a base, melhor será o produto, seja ele Nelore ou Cruzado.

É, amigos, não façam nada sem planejamento, porque, ao final, podem ter uma “mistureba” de raças na fazenda e um grande abacaxi para descascar. Perder trabalhos importantes de seleção de fêmeas para base e ter de começar tudo de novo poderá custar caro, pois creio que boas novilhas Nelore de reposição irão se valorizar bastante nos próximos anos. Valeu! Até mês que vem.