Entrevista do Mês

 

O desafio da gestão de pessoas

Se você é um pecuarista que investe pesado na estrutura da fazenda, mas não lembra da última vez em que se preocupou com o bem-estar dos colaboradores, saiba: esta entrevista é para você! A Gestão de Pessoas é uma ciência complexa e que exige mais do que a capacitação da mão de obra. Para ela impactar o seu negócio de forma positiva, não deixe de conferir as dicas do médico-veterinário Marcelo Cabral Souza e Silva, professor, consultor, especialista e estudioso do assunto.

Adilson Rodrigues
adilson@revistaag.com.br

Revista AG - Para começar a conversa, diria que hoje muito se fala em capacitação. Porém, há muito o que se corrigir antes dela. Não é verdade?

Marcelo Cabral - Por todos os lugares, já se sabe e se fala da necessidade de melhorar o nível de conhecimento e preparo dos funcionários nas empresas. A questão é que a grande maioria das pessoas não tem uma noção clara de como essa questão se dá na prática, dentro de um contexto, muito comumente, confuso, desorganizado e culturalmente repleto de aspectos contraditórios a essa linha de trabalho. Existem inúmeras questões que devem ser ajustadas e amadurecidas antes do início de um processo de capacitação das pessoas dentro de uma propriedade.

Revista AG - Creio que um exemplo prático seria quanto à organização da fazenda. Fica difícil ser cobrado pela sanidade do rebanho se não tem remédio na farmácia (ou nem farmácia se tem!).

Marcelo Cabral - As diversas questões organizáveis dentro de uma propriedade rural passam por ajustes na forma de condução das rotinas de trabalho, no modelo de Gestão do Negócio passa por parte dos proprietários e administradores, nos processos de recrutamento e seleção de pessoas para trabalharem nos setores, pela organização do ambiente de trabalho, sendo de fundamental importância a implantação do Programa “5S”, que trabalha a cultura da Qualidade do Ambiente de Trabalho (aqui na AG já publicamos todos os passos do 5S – acesse www.revistaag.com.br e faça uma busca).

Revista AG - Em relação ao bem-estar social dos funcionários, há muito a melhorar também?

Marcelo Cabral - Antigamente, as pessoas se limitavam a viver no seu universo local, com suas necessidades restritas ao próprio universo cultural de cada um, ou seja, aquilo que as pessoas não conheciam, elas não almejavam. Nos dias de hoje, com o volume quase ilimitado de acesso à informação, as pessoas passaram a saber que existe um mundo muito maior além da porteira, com direitos e obrigações muito mais evidentes. Isso torna muito maior o nosso desafio de atender as necessidades sociais de todos. É preciso criar alternativas que supram pelo menos em parte as necessidades afetivas e sociais dos colaboradores e de seus familiares. A criatividade será fundamental nessa hora: confraternizações, reuniões de famílias, missas e cultos religiosos, torneios de cartas, práticas esportivas, rodas de viola, etc.

Revista AG - Uma vez o pesquisador Marcos Chiquitelli, durante entrevista para uma matéria sobre manejo racional, disse que não adianta investir em baias fenomenais e esquecer do funcionário. Seria bem por aí?

Marcelo Cabral - Realmente. É impressionante, como temos coragem de gastar milhares e até milhões de reais em máquinas e instalações e hesitamos ao investir no recrutamento e na seleção de candidatos ou ainda na capacitação e estruturação dos trabalhos de quem vai operar na prática tais recursos.

Revista AG - Isso seria atribuído a um possível amadorismo que vivenciamos quanto à gestão de pessoas?

Marcelo Cabral - O assunto Gestão de Pessoas tem sido muito confundido com apenas uma capacidade de entender as pessoas em suas atitudes do dia a dia. Esse processo passa por aspectos diversos, como recrutamento e seleção, um bom procedimento de integração de novos funcionários, uma boa estruturação de cargos e salários, avaliações de desempenho periódicas, treinamento e desenvolvimento, até um bom trabalho de estruturação de demissões daqueles que não entregam aquilo que deveriam em suas funções.

Revista AG - Quanto custa o erro nesse quesito?

Marcelo Cabral - Recentemente, decidimos quantificar o prejuízo gerado dentro de uma propriedade em questão, decorrente de falhas de gestão e faltas da alta administração no intervalo de agosto de 2015 até janeiro de 2016. Foi assustador evidenciar que somando todos os efeitos diretos e alguns indiretos, na produção da propriedade, o valor acumulado do prejuízo foi de R$ 99.500,00. Isso apenas em relação a um aspecto técnico em questão. Estamos evoluindo na elaboração de uma metodologia de quantificação do custo anual dessa ineficiência, dentro de uma propriedade pecuária.

Revista AG - Quais seriam os principais fatores para ter uma equipe engajada no cumprimento dos objetivos da propriedade?

Marcelo Cabral - Os principais fatores relacionados à construção de uma equipe engajada passam por um bom trabalho de recrutamento e seleção de pessoas; um bom processo de integração dos novos funcionários na equipe; uma eficiente capacitação das pessoas existentes nos aspectos técnicos e comportamentais; um acompanhamento sistemático do desempenho das pessoas em suas funções; um amadurecimento das relações hierárquicas dentro do Organograma da propriedade e boas ações que visem ao bem-estar e às necessidades sociais das pessoas.

Revista AG - Como em qualquer outra área, o reconhecimento do funcionário mereceria um destaque especial?

Marcelo Cabral - O reconhecimento de um funcionário tem um peso diferenciado em um bom trabalho de Gestão de Pessoas. As formas de colocar em prática tal aspecto, é que, de fato, precisamos entender melhor, para podermos evoluir na construção de nossas equipes. Alguns caminhos podem ser citados: uma política de remuneração adequada, a escolha e delegação de responsabilidades, o investimento em capacitação, algumas demissões de outros colaboradores, alguns ajustes nas estruturas de moradias e condições de trabalho, etc.

Revista AG - Por que, no Brasil, existe tanta dificuldade, tanto no campo quanto na cidade, para reter bons talentos?

Marcelo Cabral - A condução dos negócios tem sido, em muitos casos, amadora e, para felicidade de tantos, ainda suficiente para conseguir viabilizar seus resultados. O fato é que, com o passar do tempo, o mercado exigente e competitivo aumenta suas demandas de detalhes e qualidade a um ponto que já não será possível atender, com os modelos que até hoje conseguiram subsistir. Por terem sido ainda suficientes para não “quebrar”, esse modelo insiste em sobreviver, além de termos regiões em que a cultura local e regional tolera tais modelos, por falta de opções no mercado. Dizem que aprendemos pela dor ou pelo amor. Talvez pela dor da ineficiência, o mercado urbano e rural se verão na necessidade de mudar suas ações de gestão, para não serem extintos. Isso é uma questão de tempo.

Revista AG - E a pena maior seria preparar um ótimo funcionário para a concorrência?

Marcelo Cabral - Essa discussão de preparar os funcionários e eles saírem para seus concorrentes e vizinhos tem um fundo de verdade. A questão é que a preparação das pessoas é apenas um dos aspectos a serem considerados em uma boa Gestão de Pessoas. Tantos outros aspectos devem, como citado anteriormente, ser considerados para minimizar tal risco. Dessa forma, é comum que os funcionários mais bem esclarecidos e capacitados consigam perceber melhor as falhas de gestão de um negócio e, frustrados em suas expectativas de melhorias, se cansem e optem por tentar em outro lugar.

Revista AG - E como acabar com esse ciclo vicioso?

Marcelo Cabral - Entendemos que as ações são muitas, não são fáceis, mas precisam ser iniciadas. Tenho investido minha vida no desenvolvimento de um modelo que possibilite tais conquistas. Dentro de pouco tempo, teremos notícias para apresentar ao mercado. Colocar em prática a organização das propriedades como empresa, mesmo que leve um certo tempo para alcançar a consistência nas melhorias, é o caminho certo para interromper esse ciclo vicioso.

Revista AG - Fazer o funcionário se sentir parte do negócio não é uma tarefa fácil. Quais seriam as dicas?

Marcelo Cabral - A maturidade dos membros de nossas equipes determina boa parte da forma como lidaremos com cada um nas questões do dia a dia. A intenção nobre de envolver todos nas decisões do negócio, nem sempre, será possível. Fazê-los se sentir parte do negócio terá de ser uma conquista proporcional aos níveis de maturidade, de condições culturais e às dimensões do projeto e à qualidade de assistência técnica presente, entre outros fatores.

Revista AG - Entretanto, existem também os casos nos quais os funcionários podem ser perdidos por terem atingido e superado um certo nível de complexidade das suas funções?

Marcelo Cabral - O ser humano é movido a necessidades. Quando pessoas atingem seu limite de possibilidades profissionais e as empresas já não sinalizam um futuro de crescimento dentro da equipe, é comum que os melhores busquem novas oportunidades para realizar seus sonhos profissionais.

Revista AG - Agora, acho que cabe perguntar: qual o momento correto para se investir na capacitação da equipe?

Marcelo Cabral - Quando alcançamos um mínimo de estabilidade na formação das equipes e a rotatividade já está sob controle, podemos estruturar os primeiros trabalhos de capacitação, concomitantemente, com os trabalhos de organização dos setores, das funções, das reuniões e do uso de indicadores de desempenho para todos os aspectos zootécnicos e agrícolas necessários.

Revista AG - Em resumo, qual seria seu recado aos pecuaristas de todo o Brasil que nos leem agora?

Marcelo Cabral - Nosso recado aos pecuaristas é que devem buscar informações sobre como lidar com Gestão de Pessoas de maneira profissional. Não devemos agir somente guiados pelo bom senso. O bom senso é condição fundamental para as melhorias necessárias, mas existe ciência por trás de muitos detalhes que nos permitirá ganhar desempenho, sem, com isso, aumentar nossos riscos. Muitas pessoas boas e desejáveis já estão distribuídas em nossas propriedades, todas vivendo a esperança de nosso amadurecimento como gestores e líderes.