Mercado

Preços firmes com a falta de chuva

As precipitações de chuva abaixo das expectativas em novembro, dezembro e janeiro, época de estação de monta nos principais polos pecuários brasileiros, pode acarretar em um problema no longo prazo no mercado de reposição. A baixa oferta de forragem das pastagens e o seu baixo valor nutricional oferecido às matrizes pode ter afetado a taxa de prenhez, o que consequentemente refletirá na taxa de natalidade da próxima safra de bezerros. Dessa forma, podemos esperar restrição na oferta de animais para reposição, e, portanto, sustentação dos preços no longo prazo.

Outro fator que pode colaborar para manter os preços da reposição nos patamares atuais é a possibilidade que os problemas climáticos enfrentados no final de 2015 e começo de 2016 possam vir a interferir na recuperação do número de matrizes do rebanho nacional. Nos últimos dois anos, conforme dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), houve queda no abate de fêmeas, o que evidenciou a retenção das mesmas por parte dos pecuaristas. Com a falta de machos terminados para venda, a fonte de receita de curto prazo das propriedades pode voltar a serem as fêmeas. Logo, esse é um indicativo de que também poderá ocorrer baixa oferta de bezerros na safra de 2017.

O gráfico da Média do preço da desmama mostra os valores realizados da metade de janeiro à metade de fevereiro de 2016. Não houve diferenças significativas nos preços das praças analisadas quando foram comparadas as médias da metade de dezembro de 2015 às da metade de janeiro de 2016. Isso evidencia que o mercado de reposição segue firme nos mesmos patamares do final de 2015.

A baixa oferta de animais terminados, também decorrentes da falta de chuva, manteve os preços da arroba firmes em fevereiro. Em algumas praças até houve aumento nos preços, conforme dados levantados pela Scot Consultoria. Outro fator que tem colaborado para a oferta restrita aos frigoríficos é a retenção dos animais por parte dos pecuaristas que possuem boas condições de pastagens na expectativa de conseguir preços mais interessantes. Além disso, o período de carnaval freou as negociações. O gráfico da Evolução do preço da arroba mostra que, de modo geral, os preços seguiram firmes e estáveis no período de 18/01 a 15/02/16, apesar de ter ocorrido um pequeno aumento em algumas praças apresentadas.

Diante desse cenário, os invernistas seguem sofrendo com a baixa relação de troca do boi gordo com o bezerro e também com o boi magro. O alto ágio pago pela arroba da reposição derruba essa relação. No Estado do Paraná, a arroba do bezerro foi cotada a R$ 240,00, ou seja, ágio de 57% em relação à arroba do boi gordo, resultando na menor relação de troca boi gordo/bezerro demostrada no mencionado gráfico dentre os estados analisados.

O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) informou que a China autorizou mais 17 frigoríficos a exportarem carne brasileira para seu território, dos quais cinco deles de bovinos. Foram três em São Paulo e dois em Minas Gerais. Agora, o Brasil conta com 16 plantas frigoríficas aptas a exportarem carne bovina para o país asiático, um aumento de 45,45% frente às 11 plantas anteriores. As relações comerciais de exportações de carne bovina entre Brasil e China foram retomadas em maio do ano passado, quando houve a queda do embargo Chinês que perdurava desde 2012 devido a um problema atípico de doença da vaca louca no Estado do Paraná.

O Brasil exportou em 2015 um total de U$$ 1,1 bilhão em carnes, sendo que a carne bovina colaborou com U$$ 477 milhões. A tendência é que esse valor aumente com a abertura dos novos frigoríficos aptos a exportarem puxados pelos novos nichos internacionais. Apesar de as exportações representarem algo em torno de 25% do valor total gerado, o seu aumento devido à abertura de novos mercados internacionais é de extrema importância na atual conjuntura do Brasil. A busca da população por fontes de proteína mais baratas, uma vez que houve perda de poder de compra, pode refletir na queda do consumo de carne bovina, dificultando o escoamento da produção e prejudicando o mercado interno.

A primeira semana de fevereiro foi marcada pelo acréscimo de 37,2% do volume de carne bovina exportada quando comparada ao mesmo período do ano passado, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior.

Analisando a tabela Boi Gordo no Mundo podemos observar que a arroba brasileira segue desvalorizada frente aos demais países analisados, devido, principalmente, ao alto valor em que se encontra o dólar no Brasil. Em contra- Boi Gordo no Mundo - 18/janeiro a 15/fevereiro de 2016* Brasil Argentina Austrália EUA US$/@ 37,82 57,29 63,94 79,17 * considerando-se 22 dias úteis. Fonte: Scot Consultoria, adaptado por Boviplan. partida, há o estímulo das exportações, já que a carne brasileira está sendo mais vantajosa economicamente perante o mercado internacional.

A alta do preço do grão de milho nesse começo de ano pode afetar diretamente o custo de produção da pecuária, principalmente naqueles sistemas que adotam a suplementação ou a utilização de ração, como é o caso dos confinamentos, pois a nutrição tem participação significativa no custeio da atividade. Em São Paulo, o preço do milho teve alta de 25% quando comparado a dezembro, enquanto que no Rio Grande do Sul a alta foi de 16,5%. Diante desse cenário, o pecuarista precisa, mais do que nunca, ter em mente que é preciso avaliar o custo-benefício dos insumos utilizados na alimentação do rebanho para saber se há viabilidade financeira para sua utilização conforme o desempenho esperado.

De modo geral, a crise política e a instabilidade econômica que afligem todo o território brasileiro estão gerando incertezas na população e em todos os setores da economia nacional.

O setor pecuário não está isento de ser atingido, porém, o que se observou até agora são os preços seguindo firmes e a atividade colaborando para sustentar o PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro. O mercado de fevereiro não diferiu significativamente do de janeiro e a tendência é que esse panorama se repita no próximo mês. Não existem fatos concretos que possibilitem a previsão de algo diferente daquilo que estamos vivenciando nos últimos meses.

Antony Sewell e Arthur G. S. Cezar Boviplan Consultoria

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