Escolha do Leitor

A melhor resposta para a F1

Escolha da terceira raça no tricruzamento depende de diversos fatores

Daniel Carvalho*

Que o cruzamento industrial da raça Angus com a imensa base Nelore nacional é um sucesso, assim como o advento do aproveitamento da precocidade e fertilidade da novilha e futura matriz F1 é um fato incontestável, ninguém pode negar. Contudo, o mesmo não pode ser dito sobre a escolha da raça a ser utilizada sobre essa F1, alvo de enorme interesse e dúvida na cabeça de muitos pecuaristas e técnicos.

Fatores que vão desde os aspectos genéticos, de manejo, clima e até comerciais são preponderantes nesse processo e o atual nível de competitividade do setor requer um mínimo de profissionalismo e conhecimento nas ações.

O primeiro ponto a ser levado em consideração diz respeito à precocidade de uma novilha meio-sangue Angus x Nelore.

Sem grandes esforços, é possível conseguir índices satisfatórios de concepção aos 14 ou 15 meses de idade e, em muitos casos, em um ambiente de produção forrageiro mais avantajado ou suplementado, conseguir o mesmo feito aos 12 ou 13 meses.

Tamanha precocidade, apesar de desejável, inspira cuidados especiais, principalmente no momento da parição, visto que, essa novilha, precoce, ainda está em pleno crescimento e desenvolvimento e, recebendo uma prenhez aos 12 ou 13 meses, certamente, estará mobilizando reservas energéticas que seriam para si ao feto, potencializando o aumento de tamanho do mesmo e, em contrapartida, suprimindo o desenvolvimento dela.

Quando existe suplementação, o problema ainda pode ser agravado, ou seja, maior seria esse aporte nutricional direcionado ao feto, o que causaria aumento significativo de tamanho e peso ao nascimento do bezerro, ocasionando problemas de parto em uma novilha que apresentará de 21 a 22 meses.

Nesse sentido, a primeira regra para uso da fêmea F1 Angus x Nelore, quando novilha, está na escolha de raças e/ou, principalmente, indivíduos, comprovadamente direcionados para facilidade de parto e baixo peso ao nascer.

E é exatamente aqui que começa o “problema”, pois a quantidade de programas de avaliação de raças devidamente acurados para essas características é limitada e a escolha de alguns indivíduos por esse critério pode vir a restringir outras características desejáveis.

Dizemos isso, pois o incremento de peso, ou ganho de peso, é um fenômeno fisiológico, assim animais que possuem aptidão para crescer o fazem desde o nascimento e, o contrário é verdadeiro na maioria dos casos, ou seja, quando selecionamos animais de baixo peso ao nascer, podemos selecionar animais de menor desempenho para crescimento ao longo das próximas fases.

A exceção está em programas de seleção massal, de raças com um grande número de animais avaliados e, muitas gerações de avaliações, como é o caso do Angus Americano, em que, não raramente, é possível escolher animais que apresentem DEPs de facilidade de parto e baixo peso ao nascer, mas que “dobram” a curva e “crescem” muito nas próximas fases, contrariando a fisiologia.

De uma maneira geral, não é indicado o uso de raças Taurinas Européias Continentais, exemplificando, o Charolês, o Limousin, o Simental, o Simental Preto, o Marchigiana, o Chianina, o Blonde D’aquitaine, o Piemontês, o Belgian Blue, entre outros, sobre Novilhas F1 Angus x Nelore precoces.

O ideal para se utilizar essas raças seria a partir da primeira cria, mas esse assunto será abordado mais adiante.

Também em uma visão generalista, o uso de raças zebuínas em novilhas F1 fica restrito a indivíduos da raça Nelore, Nelore Mocho, Tabapuã e Sindi direcionados ou avaliados para baixo peso ao nascer, preferencialmente menores do que as médias das raças, se avaliados.

O uso dos demais zebuínos, especificamente, o Brahman, o Gir e o Guzerá, são restritos a vacas.

Segundo Daniel Carvalho, para qualquer escolha, o mercado é soberano; a lucratividade, mandatária; e o prazer de se trabalhar, impagável

Já a utilização de outros grupos raciais como os adaptados, os bimestiços, os taurinos europeus britânicos e o Wagyu em Novilhas F1 recai na regra da facilidade de parto ou baixo peso ao nascer em suas DEPs. Todavia, o uso em vacas adultas é irrestrito.

Desmistificada a questão “parto”, a próxima etapa de análise para ajuste da escolha da terceira raça está na genética ou o melhor entendimento da forma como ela se comporta em condições diferentes para as quais foi programada, ou seja, o seu uso na mesma espécie e raça.

Não existe fórmula correta em cruzamento industrial, mas há um pouco de ciência e um mínimo de conhecimento dos possíveis fenômenos genéticos.

É assunto recorrente que um produto F1 possui maior grau de heterose quanto menor for o parentesco entre seus genitores (o touro e a matriz). O mesmo vale para a complementaridade, um fenômeno genético que, em poucas palavras, agrega características herdáveis de ambas as raças utilizadas em um mesmo indivíduo, nesse caso, heterozigoto.

Assim, o mesmo vale para o apuramento racial, ou seja, o fenômeno inverso, diminuindo a heterose e a complementaridade ao tornar maior a concentração de sangue para um determinado agrupamento racial.

Um assunto um tanto quanto denso para ser discorrido aqui em poucas palavras, mas importante para endossar o que está por vir.

A próxima etapa de análise está no ambiente, ou seja, diz respeito à quantidade e à qualidade do alimento que será disponibilizado ao produto three-cross.

Sabidamente, existe diferença de porte – tamanho entre as raças e, principalmente, entre os indivíduos. Questão também relacionada à fisiologia animal e que muito impacto gera quando se fala em nutrição animal, na qual indivíduos e raças grandes possuem requerimentos nutricionais mais exigentes e, na ordem de sucessão de desenvolvimento, estão primeiro ossos, depois músculos e, por último, gordura, e naturalmente evidenciam os animais tidos como tardios.

Na contramão, os indivíduos menores são menos exigentes e mais aptos à terminação em um mesmo ambiente. Assim, em um sistema de produção cujos produtos F2, ou three cross, serão submetidos, por exemplo, a um regime extensivo, de pastagens, com pouca ou nenhuma suplementação à cria, à recria e à engorda, não são desejáveis raças e/ou indivíduos extremos em tamanho, pois certamente teriam dificuldade para terminação e ainda apresentariam baixo rendimento de carcaça.

Nesse caso, respeitando-se a questão do parto, raças de calor como as adaptadas, caso do Caracu e do Senepol, certamente entregariam produtos extremamente rústicos, sem pelo, com boa tolerância ao calor, a endo e ectoparasitas e com um ótimo grau de heterose.

A perda fica por conta da carcaça menos desenvolvida, principalmente no caso do Senepol em relação a outras raças.

Outra opção é o retorno de uma raça Zebuína, logicamente respeitando-se a questão parto, confeccionando um produto F2 ¾ de sangue Zebu, igualmente rústico, termotolerante, inclusive a parasitas, mas com menor grau de heterose e melhor peso final de carcaça.

Porém, em ambos os casos, não seria possível almejar programas de carnes especiais, pois certamente não seria possível se obter marmoreio – a gordura entremeada na fibra muscular tão desejada pela alta gastronomia e que confere maciez, suculência e sabor à carne.

A modificação do sistema de produção descrito (a pasto) para um sistema um pouco mais refinado e intensivo, no qual se proporcione, por exemplo, suplementação na cria (o creep-feeding), suplementação proteico-energética na recria a pasto e semiconfinamento, ou confinamento a pasto, ou mesmo confinamento na engorda, certamente propicia a utilização de uma composição racial taurina acima de meio-sangue, possibilitando a utilização, por exemplo, das raças bimestiças.

São tidos como bimestiços, as raças sintetizadas a partir de duas subespécies, a Taurina e a Zebuína, apresentando graus fixados de sangue em 5/8 Boss taurus e 3/8 Boss indicus, como é o caso das raças Braford, Brangus e Canchim.

Cada uma apresenta um maior benefício relacionado às características inerentes, o Braford apresenta rusticidade e pelo curto em seu produto oriundo de tricruzamento, o Brangus padroniza a produção e permite a colheita de animais todos de uma só cor, o Canchim uniformiza a produção e confere maior tamanho e peso final de carcaça ao indivíduo F2.

Para o caso do uso do Braford e do Brangus, existe maior universo de escolha de indivíduos, permitindo-se um ajuste mais refinado quanto às características como peso ao nascer, desempenho de ganho, tolerância a carrapatos e qualidade de carne. Lembrando-se que, em ambas as raças, seus produtos estão aptos a serem credenciados em programas de qualidade de carne chancelados pelas respectivas associações.

Nesse mesmo sistema é recomendado o uso da raça Bonsmara, que não é um bimestiço, mas também é raça do calor seco, portanto, possui metabolismo similar.

O Bonsmara confere muita padronização à produção e também oferece oportunidades de agregação de valor na carne produzida sob a chancela da associação de raças e seu programa de carne de qualidade.

Fica agora a pergunta que possui resposta óbvia que é se é possível voltar raças taurinas em uma fêmea F1.

Do mesmo modo, respeitando-se o quesito parição, o ambiente será mandatório nessa escolha.

Raças tidas como do frio, os taurinos europeus continentais e britânicos exigem um sistema de produção de extremo capricho e ciclo curtíssimo, a fim de diminuir o período de exposição desse composto em condições majoritárias da pecuária nacional, ou em outras palavras, onde se encontra a maior parte do rebanho.

Salvo em operações no Sul do País, os produtos do tricruzamento de taurinos sobre a F1 não devem ser submetidos ao regime de pastagem, exigindo suplementação com altos níveis de grãos em todas as fases de produção e, se possível, eliminando a recria.

Tamanho, peso final e rendimento de carcaça, além da excelente resposta ao ótimo tratamento, certamente não serão problemas se essa regra for seguida, entretanto, características como maior comprimento de pelo, menor tolerância ao calor e aos endo e ectoparasitas serão potencializadas, exigindo o abate dos animais no menor período de tempo.

Por fim, a grande dúvida é de quantas crias devem ser aproveitadas...

Deve ser de conhecimento que as vacas F1, quando adultas, apresentam peso final alto e, no caso de se fazer retrocruzamentos absorventes, ela servirá de base. Caso contrário, até a segunda cria, a proporção de kg de bezerro desmamado por kg de vaca adulta ainda recorrerá a um expoente interessante e não mais além disso.

Para qualquer das escolhas descritas, o mercado é soberano; a lucratividade, mandatária; e o prazer de se trabalhar, impagável, assim, cabe a cada um escolher a melhor opção para o seu negócio, respeitando- se características fisiológicas, genéticas e de manejo, além, é claro, da sustentabilidade financeira de toda a operação.

*Daniel Carvalho é gerente de Produto Corte da CRI Genética – dcarvalho@crigenetica.com.br


Esta reportagem foi escolhida pelo leitor da Revista AG, que votou por meio da Newsletter Agronews. Aproveite agora e escolha entre as três reportagens que estão em votação a que você prefere ver estampada nas páginas de nossa revista. Caso ainda não receba a newsletter, cadastre-se no site www.revistaag.com.br