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Só ganha quem investe

O manejo racional da pastagem é um grande aliado para a melhoria da produtividade e da rentabilidade das fazendas. Para tanto, todas as etapas relacionadas ao ciclo produtivo das forrageiras devem contar com atenção especial

Roberto Nunes Filho

Há uma grande ciência por trás do manejo de um pasto e, graças aos esforços acadêmicos, de entidades setoriais e da iniciativa privada, é cada vez maior o conhecimento e profissionalismo em torno desse vital ecossistema para qualquer fazenda. Mais do que uma fonte de alimento para o rebanho, a pastagem também é uma fonte de receita para a propriedade. Por isso, é importante que o pecuarista aprimore, continuamente, não apenas o manejo, mas a gestão de todo o ciclo produtivo da pastagem, seja ela temperada ou tropical.

O fluxo do processo para a estruturação ou reforma de um pasto começa pela escolha da planta forrageira mais adequada às necessidades e aos objetivos do negócio. É nesse instante que o produtor deve pensar em todo o seu sistema de produção. “Inicialmente, é preciso verificar questões como o tipo e a fertilidade do solo, o nível de fertilizantes que será usado na área, se haverá irrigação e em qual estação do ano se concentrará a exploração da área”, orienta o supervisor de projetos agropecuários da Coan Consultoria, Daniel Castro Rodrigues.

Nessa fase, também se faz necessário analisar outros quesitos, tais como clima, relevo da propriedade, tipo do pastejo (lotação contínua ou intermitente, por exemplo), o histórico da região em relação a insetos e doenças do rebanho, se haverá integração lavoura- -pecuária, dentre outros pontos. “Para que todas essas análises sejam feitas a contento, é importante que o produtor tenha embasamento técnico e também se informe quanto às forrageiras utilizadas na região”, sugere a pesquisadora da Embrapa Pecuária Sul, Márcia Silveira.

De uma forma geral, algumas espécies de gramíneas tropicais são mais indicadas para a exploração intensiva no verão, como as do gênero Panicum. “Outras, no entanto, têm mais flexibilidade para uso no inverno, como é o caso das braquiárias”, observa Rodrigues. “Também é fato que certas gramíneas, como a aveia e o azevém, e as leguminosas do grupo dos trevos apresentam maior adaptação às condições climáticas características da Região Sul do que as forrageiras tropicais e subtropicais”, lembra o consultor da Consupec, Adilson Aguiar. “Na Região Sul, a base forrageira é o campo nativo, tendo também importância complementar as forrageiras cultivadas de verão e de inverno, tanto anuais como perenes, como o capim- -sudão, sorgo-forrageiro, milheto, aveia, azevém, trigo duplo propósito, centeio, triticale, trevo-branco, trevo- -vermelho, trevo-vesiculoso e cornichão”, complementa Márcia. Cuidados com o solo Não tem como se obter uma boa pastagem sem cuidar bem o solo. E um programa de correção e adubação depende da fertilidade do mesmo, determinada pelo resultado de análises feitas em laboratório. Via de regra, os solos brasileiros requerem adubação de base e corretivos para se tornarem produtivos. Além disso, os pastos de gramíneas necessitam de reposição frequente de adubação nitrogenada, a fim de manter taxas de crescimento adequadas e boa cobertura de solo. “Entretanto, somente a avaliação da fertilidade, da conservação do solo, do tipo de forrageira e do sistema de produção permitirá ao técnico recomendar corretamente o tipo, a quantidade e a frequência de adubação. Uma adubação adequada, somada ao bom manejo do pasto, minimiza efeitos negativos da atividade pecuária ao ambiente”, orienta Naylor Perez, que também atua como pesquisador da Embrapa Pecuária Sul. Segundo Aguiar, as principais práticas de adubação envolvem a aplicação de cálcio, magnésio, fósforo, potássio, enxofre, micronutrientes e nitrogênio. “Já as principais práticas corretivas são calagem, gessagem, fosfatagem, potassagem, correção de micronutrientes e de matéria orgânica.”

Adilson Aguiar atesta que piquetes cujo manejo é orientado pela altura das forrageiras produzem alimento de melhor qualidade

As gramíneas de clima temperado, como aveia e azevém, são mais exigentes em fertilidade, assim como a maioria das leguminosas forrageiras. Nesse sentido, a adubação de pastagem é determinada pelo nível de utilização do pasto. “Maiores taxas de lotação exigem maiores investimento em fertilizante”, conclui Rodrigues, da Coan. “Importante lembrar que investimentos em fertilização das pastagens promovem aumento de produção e a necessidade de se alocar mais animais por área para um consumo eficiente da forragem produzida.” Boa semente Quando o assunto é a qualidade e a procedência das sementes forrageiras, os especialistas consultados são unânimes: é preciso fugir das sementes piratas, vendidas por menor preço, mas sem qualquer garantia de qualidade (veja mais sobre pirataria a seguir). De acordo com Aguiar, um lote de sementes deve possuir bons atributos genéticos, que são garantidos pela idoneidade da empresa que produziu e comercializa as sementes, sob a fiscalização dos órgãos competentes.

“Essa garantia evita que, em um mesmo lote de sementes, venham misturas varietais de espécies forrageiras”, alerta o especialista. Outro atributo a ser levado em consideração pelo produtor é o físico, que no mercado é determinado pela porcentagem de pureza do lote. Isso significa um produto livre de resíduos diversos como terra, palha, pedras, ovos de insetos, pragas e, até mesmo, sementes de plantas invasoras.

“Há ainda o atributo fisiológico, determinado pela porcentagem de germinação do lote de sementes. As sementes de alta qualidade devem apresentar boa germinação e vigor, o que vai favorecer o estabelecimento da pastagem com um estande uniforme de plantas e, consequentemente, será possível entrar mais cedo com os animais”, avalia Gustavo Martins, pesquisador da Embrapa Pecuária Sul. Para Aguiar, da Consupec, o indicado é o produtor comprar sementes tratadas contra insetos, pragas e fungos. O especialista sugere ainda a busca por sementes com mais de 90% de pureza, tais como são as do tipo exportação. “É importante esclarecer que o preço das sementes representa apenas entre 5% e 15% do investimento total no plantio.

Vale apostar em um produto de qualidade”, defende. O consultor também explica que o mercado utiliza como parâmetro de qualidade o indicador conhecido como Valor Cultural (VC), obtido pela relação entre o atributo físico (porcentagem de pureza) e o atributo fisiológico (porcentagem de germinação). Combatendo inimigos Toda pastagem requer cuidados com invasoras e pragas. A começar pelo primeiro problema, as plantas indesejadas de pastagem variam muito dentro do território brasileiro.

Características como o tipo de solo, fertilidade, relevo, clima e qualidade das sementes é o que determina a maior ou menor presença de algum tipo de planta na área. Plantas de folhas largas, arbustivas, semilenhosas, com folhas grossas e muita cerosidade são de difícil controle. No sul do Brasil, especialmente na região do bioma Pampa, o capim-annoni (Eragrostis plana) é considerado uma das principais espécies indesejadas, pois compete com a pastagem, apresentando bom desenvolvimento radicular, o que pode proporcionar habilidade superior em absorver água, especialmente em condições de limitação hídrica. “É uma planta altamente prolífica com baixo teor proteico, portanto, com pouco aproveitamento forrageiro, além de ser rejeitada pelos animais, especialmente quando muito desenvolvido, dado o elevado teor de fibras nas folhas”, destaca a pesquisadora da Embrapa Pecuária Sul, Fabiane Lamego.

“Além disso, plantas como a Flor- -das-Almas (Senecio brasiliensis) e Mio-mio (Baccharis coridifolia) são tóxicas aos animais, podendo, inclusive, causar a morte dos mesmos de acordo com o peso animal e a quantidade pastejada. Essas espécies interferem no consumo da pastagem.” Segundo Aguiar, da Consupec, existe hoje uma grande quantidade de plantas invasoras e, muitas delas, aparecem em mais de um bioma. “Em um levantamento em pastagens cultivadas na Amazônia, por exemplo, foram catalogadas 266 espécies invasoras pertencentes a 54 famílias e 168 gêneros”, revela o especialista. “Estima-se que até 85% do potencial de produção de um pasto pode ser afetado pela presença de daninhas”, complementa Fabiane Lamego.

No Sul, cornichão entra com sucesso no cardápio dos bovinos

Dependendo do nível de infestação, plantas invasoras podem ser controladas pontualmente, por meio de capina, ou ainda através da aplicação de um herbicida registrado no Ministério da Agricultura. “Herbicidas são ferramentas de controle eficientes, mas devem ser utilizados dentro das doses recomendadas pelo fabricante”, defende Fabiane. “A calda deve ser preparada observando a qualidade da água em uso. Águas duras ou com argila podem comprometer drasticamente a qualidade da solução, especialmente quando se estiver usando um herbicida muito popular atualmente, o Glyphosate.”

Antes da escolha do capim, o pecuarista precisa pensar em todo o sistema de produção, sugere Daniel Rodrigues

Outro ponto destacado pela pesquisadora é a constante manutenção do equipamento que irá aspergir, seja ele costal ou tratorizado. O horário da aplicação do produto também é muito importante. Deve-se evitar os horários mais quentes, que favorecem a evaporação rápida das gotas aspergidas. Geralmente, aplicações no início da manhã ou final da tarde coincidem com temperaturas mais amenas e umidade relativa do ar maior. E sempre se deve utilizar equipamento de proteção individual (EPI). É importante que os animais não tenham acesso a essas plantas.

“É importante esclarecer que pastagens com muitas invasoras e cupins são sinais claros de degradação e perda de capacidade produtiva, sendo necessária a reforma ou recuperação do pasto com práticas de correção de solo, adubação e ajustes na taxa de lotação”, observa Rodrigues, da Coan.

“Devemos dar condições para que a pastagem possa competir e sobressair às plantas invasoras, sendo que um bom manejo do pasto e a aplicação de fertilizantes são as formas de controle.” Toda cultura cultivada pelo homem também é atacada por pragas e com a pastagem, seja ela tropical ou temperada, não é diferente. Nesse contexto, os insetos são classificados como “pragas gerais” e “pragas específicas”.

No caso das gerais, elas atacam tanto a pastagem como diversas outras culturas. “As pragas gerais que atacam pastagens são as formigas, as lagartas, os gafanhotos e os cupins subterrâneos, que são pragas cortadoras, enquanto os percevejo-castanho-da-raiz, as cigarrinhas- dos-canaviais e os nematoides são pragas sugadoras. No caso das forrageiras de inverno, tais como aveia e azevém, essas são atacadas pelos pulgões”, esclarece Aguiar. Para o controle desses insetos, o recomendado pelos especialistas é a realização do manejo integrado de pragas, composto por práticas preventivas e corretivas, por meio do uso de agentes biológicos, fisiológicos e químicos. No caso de cupinzeiros, se a eliminação for realmente necessária, é importante a orientação de profissional qualificado. “Em geral, utilizam-se inseticidas registrados para essa finalidade no Ministério da Agricultura. Porém, a tomada de decisão deve ser feita com auxílio técnico”, lembra Fabiane, da Embrapa.

Fabiane Lamego alerta para os riscos do capim-annoni na competição com pastagem

O poder da integração Os especialistas em pastagens também são uníssonos quanto à integração das forrageiras com outras espécies de leguminosas. As pastagens consorciadas aproveitam-se da fixação biológica do nitrogênio, gerada após a morte de raízes, queda de folhas ou restos culturais da leguminosa. Assim, por meio de um processo simbiótico, esse nutriente acaba por entrar em contato com as raízes das forrageiras e gramíneas. “Devido à menor produção de massa seca das gramíneas de inverno, como a aveia e o azevém, o manejo e consórcio dos pastos com leguminosas, como o trevo, tem apresentado resultados satisfatórios, como o fornecimento de quantidades superiores a 100 kg/ha de nitrogênio ao ano”, afirma o supervisor da Coan.

A fixação biológica do nitrogênio também minimiza a necessidade de se utilizar adubos nitrogenados de alto custo para o produtor. “Outro benefício é que as leguminosas apresentam raízes diferentes das gramíneas, sendo, em geral, mais profundas, o que favorece o aproveitamento dos recursos do solo, contribuindo para a ciclagem de nutrientes, fertilidade do solo e biodiversidade do sistema pastoril”, complementa Gustavo Martins, da Embrapa.

As leguminosas podem ser utilizadas tanto em consórcio, isto é, cultivadas juntamente com a gramínea forrageira, como em sucessão de culturas. No primeiro caso, a escolha das espécies forrageiras deve ser planejada de acordo com o tipo de solo e o nível de fertilidade.

“O manejo da pastagem consorciada deve ser mais cuidadoso, respeitando as características de ambas as espécies. No segundo caso (rotação de cultura), deve-se procurar alternar o cultivo com gramíneas e leguminosas, aproveitando o benefício que uma exerce sobre a outra”, orienta Perez. “No caso de integração lavoura-pecuária, vale a mesma regra. Se a cultura para a produção de grãos for leguminosa, a pastagem na sequência poderá ser uma gramínea e vice-versa.” Vale destacar também o maior ganho de peso dos animais que estão em pastejo nas áreas consorciadas, devido ao maior consumo de proteína oriunda das leguminosas presentes.

“Em resumo, existem vantagens produtivas, mas que exigem, em determinadas condições, uma atenção especial do produtor quanto ao manejo da área. Lembrando sempre que, de nada adianta uma grande diversificação dos sistemas produtivos se o produtor não entende bem de nenhum deles. É comum pecuaristas se dizerem frustrados com o resultado de suas lavouras, pois não possuem experiência nem maquinário adequado. A maioria das áreas de pastagem está em solos de baixa fertilidade e a implantação de lavouras nessas terras exige grandes investimentos”, defende Daniel Castro Rodrigues.

Pastejo racional

O tipo de forrageira foi escolhido, assim como foram tomadas todas as precauções para a compra de uma semente legalizada e de qualidade. Além disso, o produtor também buscou o respaldo para manejar o pasto e lidar com a presença de pragas e plantas indesejáveis que venham a aparecer. Chega, então, o momento de utilizar, da forma mais racional e estratégica possível, os recursos da pastagem.

As sementes de alta qualidade devem apresentar boa germinação e vigor, adverte Gustavo Martins

No pastejo, é muito comum o uso de dias fixos de ocupação e descanso dos piquetes. Esse modelo, no entanto, não considera a fisiologia da planta forrageira e as particularidades regionais. O mais recomendado, atualmente, é manejar o pasto com base na altura de entrada e saída dos animais. Nesse caso, cada espécie forrageira possui uma indicação do ponto ideal de desfolha.

Azevém é um dos grandes trunfos do pecuarista sulista para obter maiores taxas de ganho de peso dos animais

“A altura de pastejo é uma medida que relaciona a fisiologia da planta forrageira, sua produção de massa seca e sua capacidade de recuperação após a saída dos animais”, pontua Rodrigues. A determinação da altura ideal de entrada e saída nos piquetes é baseada em trabalhos de pesquisa, mostrando que quando o pasto chega ao ponto de interceptar 95% da luz incidente, ou seja, quando apenas 5% da radiação chega ao solo, isso significa que ele está apresentando a máxima taxa de acúmulo de forragem por dia e, portanto, exibindo ótima oferta de nutrientes. “A pesquisa em plantas forrageiras tem determinado alturas ideais de manejo”, lembra Naylor Perez.


Legislação

Ao longo do ano passado, a cadeia produtiva de sementes promoveu diversas atualizações na Instrução Normativa n° 30, documento que trata das normas e padrões de comercialização das espécies forrageiras. A expectativa do setor é que o texto seja submetido à consulta pública para que possa ser publicada em 2017.

Neste ano, também deve entrar em vigor a Lei de Proteção de Cultivares n° 827/2015, cujo objetivo é coibir a pirataria de sementes forrageiras. Com a aprovação dessa lei, tal prática passará a ser tratada de maneira criminal e não mais civil. Atualmente, estima-se que 30% das sementes comercializadas no Brasil sejam piratas.


Se, para colocar os animais nos piquetes, há uma altura certa para cada forrageira, a hora da retirada segue o mesmo princípio. Isso porque, quando o animal entra no pasto, ele come basicamente folha.

Em seguida, chega um determinado ponto em que resta apenas uma grande quantidade de caules, que possui menor valor nutricional. Se os animais ficam além do necessário em um pasto com o capim muito baixo, elas reduzem a velocidade de ingestão e, consequentemente, reduzem o ganho de peso.

O limite no consumo dos pastos também tem relação com a integridade da própria pastagem. Como a planta precisa de folhas para captar a luz, no momento da retirada dos animais do piquete é preciso que haja alguns resquícios de folhas verdes para a planta fazer a fotossíntese. Se o animal pastejar demais, ela vai demorar mais para crescer.


Novas cultivares

O mercado de forrageiras contou em 2015 com o reforço da BRS Tamani, uma forrageira híbrida de Panicum maximum, que oferece alta qualidade nutricional. Quanto ao futuro, mais novidades estão por vir. A pesquisadora da Embrapa Gado de Corte, Jaqueline Verzignassi, explica que um dos lançamentos que devem ser apresentados é a BRS Quênia. Trata-se de um novo material de Panicum maximum com alto valor nutritivo, indicado para solos de alta fertilidade e resistente às cigarrinhas das pastagens.

Outro lançamento que está sendo preparado é a BRS RB331 Ipyporã, um híbrido composto por Brachiaria ruziziensis e Brachiaria brizantha. Dentre as características desse novo material, destaque para o alto valor nutritivo, principalmente no período das águas, e a sua indicação para solos de média fertilidade. Essa cultivar também é resistente às cigarrinhas.


Adilson Aguiar destaca que animais, tanto de recria, de engorda ou vacas em lactação que pastejam piquetes em que o manejo é orientado pela altura das forrageiras, consomem forragem de melhor qualidade e, consequentemente, apresentam maior desempenho, tanto em ganho de peso (aumento entre 28% e 31%), como em produção de leite (aumentos entre 18% e 30%).

“A condução do pastejo com critério, observação e detalhamento, permite o entendimento dos processos e o equilíbrio na relação planta-solo- -animal-meio. Esse tipo de manejo é o dito racional”, conclui Márcia Silveira, da Embrapa. “A cada dia, fica mais evidente a preocupação com questões como degradação de pastagens, emissão de gases de efeito estufa, bem-estar animal e serviços ecossistêmicos. Logo, acredita-se que o manejo racional vem ao encontro dessas questões.”