Mercado

Arroba segue firme

O ano de 2015 foi marcado pela reabertura para exportação da carne brasileira de mercados que estavam embargados por alguns países, devido a problemas passados. O novo status sanitário do Brasil fez com que fossem reabertas portas antes fechadas. Países como Estados Unidos, China, Japão, Arábia Saudita, Iraque e África do Sul retomaram as importações, além da possibilidade de outras nações como Qatar, Bahrein e Kuwait também voltarem a importar.

O cenário é de otimismo, apesar da instabilidade econômica e política do País, pois os frutos das conquistas do ano passado serão colhidos agora. Segundo a Abiec (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes), é esperado um aumento nas exportações de 25% em 2016 e a expectativa é que o faturamento chegue a US$ 7,5 bilhões, valor recorde. Entretanto, vale ressaltar que o Brasil ainda é dependente do mercado doméstico interno, destino de 80% da produção da carne bovina brasileira.

A desvalorização do real frente ao dólar favorece a exportação de carne. O produto brasileiro sofreu queda de preço no mercado global e se tornou mais interessante para os países importadores. Da segunda quinzena de dezembro de 2014 até a primeira quinzena de janeiro de 2015, a arroba brasileira estava cotada, em média, a US$ 54,02. No mesmo período, após um ano, houve queda no valor da arroba de quase 31%, que fechou a US$ 37,28 conforme apresentado pelo gráfico Boi Gordo no Mundo.

Aplicada (Cepea) da Esalq/USP, a perspectiva é que o consumo doméstico nacional de carne bovina se mantenha em equilíbrio nos próximos meses. Apesar da busca por fontes de proteína animal mais baratas por causa da crise nacional, situações passadas e estudos econômicos mostram que a carne bovina possui flexibilidade para se manter no cotidiano do brasileiro em momentos difíceis. Todos esses indicativos sugerem que os preços atuais da arroba seguirão firmes ao longo deste primeiro semestre.

O mercado de reposição também se manterá em alta. Em SP, a cotação atingiu R$ 1.367,50; em MG, R$ 1.230,00; em GO, R$ 1.204,00; no MS, R$ 1.280,00; no MT, R$ 1.170,00; no PA, R$ 1.044,00; no PR, R$ 1.330,50; e no RS, R$ 1.060,00. A desmama deste ano é fruto das vacas e novilhas da estação de monta de 2014/15, sendo que, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), os anos de 2013 e 2014 apresentaram os maiores picos de abates de fêmeas em relação ao montante total abatido no Brasil naquele período. Dessa forma, a oferta será restrita por causa da diminuição do número de matrizes e a tendência é que os preços da desmama também se mantenham firmes.

Nas principais praças, com exceção do Rio Grande do Sul, há uma diferença média em torno de 50% no ágio mensal da arroba do bezerro sobre o boi gordo, ou seja, a arroba do bezerro segue valorizada frente à arroba do boi gordo.

Quem sai ileso dessa alta diferença é o pecuarista que exerce o ciclo completo, pois como produz a própria matéria- -prima ele não precisa sair ao mercado em busca de bezerro. Já o invernista está sofrendo o impacto diretamente. Ele está vendo a margem de lucro diminuir e enfrenta a dificuldade de diluir o preço pago na arroba do bezerro nas arrobas produzidas por ele. Portanto, uma das saídas é abater os animais mais pesados para que haja maior diluição e o preço do bezerro não afete tanto o resultado final.

Contudo, nem sempre é vantajoso do ponto de vista econômico levar o animal a pesos mais altos, pois isso implica em um aumento significativo dos custos de produção. Assim, o pecuarista deve sempre estar atento para evitar que um valor mais alto de comercialização do produto final signifique, na prática, uma redução na rentabilidade do negócio.

O gráfico sobre a relação de troca média, de 15 de dezembro/2015 a 15 de janeiro/2016, também evidencia a valorização da reposição quando comparado ao boi gordo. Em São Paulo, no mesmo período de um ano atrás, a relação de troca desmama/boi gordo estava em 2,01 e a relação boi magro/boi gordo estava em 1,33. Portanto, as reduções foram de 13,4% e 10,5%.

Outro assunto que está gerando polêmica neste começo de ano é a tentativa do Estado do Paraná, desde o ano passado, em conseguir o reconhecimento como área livre de febre aftosa sem vacinação. Ele seria o segundo estado brasileiro a conseguir tal feito, já que até hoje apenas Santa Catarina possui esse título. Segundo a Agência de Defesa Agropecuária do Paraná (Adapar), a vacinação do primeiro semestre deste ano contra a febre aftosa no Paraná está confirmada, porém, a do segundo semestre ainda é incerta.

A possibilidade de exportação da carne paranaense para novos nichos de mercado, caso consiga essa classificação, torna interessante para o estado a obtenção do título. Em contrapartida, há alguns entraves nesse processo e interesses contrastantes. O estado é dependente dos bezerros sul-mato-grossenses para abastecer o rebanho. O preço mais baixo do bezerro no Mato Grosso do Sul possibilita a recria e a engorda no Paraná a custos vantajosos em um estado essencialmente agrícola. Por esse motivo, a partir do momento em que o estado se tornar livre de febre aftosa sem vacinação, a entrada de animais de outros estados será interrompida para que se mantenha a sanidade do rebanho, com exceção de Santa Catarina.

A tendência, caso isso se concretize, é que aumente a procura por bezerros para compra dentro do Paraná, fazendo o preço subir.

Segundo o índice da Scot Consultoria, o custo de produção da pecuária de corte subiu 17,2% em 2015. O preço da arroba não acompanhou o aumento do custo e fechou com alta de apenas 3,3%, enquanto que o bezerro teve alta mais significativa e fechou com valorização de 16% em São Paulo no mesmo período. Isso evidencia que a margem de lucro do pecuarista diminuiu e a expectativa para 2016 é que o custo possa aumentar ainda mais.

A instabilidade econômica e a política nacional, que geraram uma inflação de 10,19% no ano passado segundo dados do Banco Central, a desvalorização do real frente ao dólar e o aumento do salário mínimo são razões para um possível aumento do custo real de produção nos próximos meses. Apesar disso, a atividade não será comprometida devido aos preços de comercialização da arroba, que se mantêm firmes. O que poderá ocorrer é a redução da margem, impactando a rentabilidade da atividade, mas não a comprometendo no geral.

É válido frisar que o pecuarista precisa ter consciência da importância do planejamento e da gestão do seu negócio. Somente assim será possível conhecer o custo de produção do seu produto final, seja ele arroba ou bezerro, para que se saiba a real margem de lucro que será obtida conforme o preço de venda.

Como observado no gráfico da Evolução do preço da arroba do boi gordo, os preços da arroba nas principais praças brasileiras se mantiveram constantes e sem alterações significativas durante a última quinzena de 2015 e a primeira quinzena de 2016. Em São Paulo, no mesmo período, a arroba a prazo fechou, em média, a R$ 148,78. No Mato Grosso do Sul, a arroba fechou a R$ 136,31, e no Rio Grande do Sul, a R$ 160,39.

Analisando o mercado como um todo, os próximos meses serão desafiadores. O encurtamento da margem do pecuarista, seja pela elevação dos custos de produção, inflação, instabilidade econômica e política, ou até mesmo pelo elevado preço da reposição, no caso do invernista, são pontos que preocupam. O alento se dá quando olhamos para os preços firmes da arroba indicando segurança, mas não garantia de sucesso. A pecuária precisa se profissionalizar. Cabe ao pecuarista se planejar, gerenciar e adotar novas tecnologias para não ser pego de surpresa pelo mercado. Quem for eficiente conseguirá manter ou até mesmo aumentar a margem de lucro em um futuro próximo.

Antony Sewell e Arthur G. S. Cezar Boviplan Consultoria