Caprinovinocultura

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Elos entre indústria, produtor e consumidor de carne de cordeiro precisam se estreitar

Valdomiro Poliselli Júnior*

Nunca antes a ovinocultura remunerou tão bem pela carne de cordeiro. Os produtores, enfim, começaram a interpretar as leituras do mercado doméstico, cada vez mais exigente quanto à procedência e à qualidade dos alimentos. Não quero dizer que a produção nacional chegou ao auge em excelência. Na verdade, é uma atividade que ainda engatinha, mas temos presenciado o fornecimento de ovinos mais jovens para o abate.

Em muitas regiões, a qualidade já é superior àquela carne vinda de fora. E essa, inclusive, é uma concorrência desleal. Cortes diferenciados têm seu público garantido, mas custa caro para fazer. Em contrapartida, os canais de distribuição conscientizaram- se de que não dá para tapar o sol com a peneira, tratando-se de cordeiro.

O cliente reconhece pelo cheiro a diferença entre cordeiro jovem e carneiro velho.

Há otimismo em relação ao desenvolvimento da ovinocultura de corte no Brasil. Temos inúmeras regiões ideais à criação. Nossa capacidade natural de produzir alimentos nos faz acreditar nisso. Vejam, por exemplo, a bovinocultura de corte. Os produtores atendem o consumo interno e mantêm a liderança nas exportações de carne. Faço essa comparação meramente porque gado e ovino podem caminhar juntos, ocupando a mesma categoria de proteína animal.

Entretanto, existem diferenças entre ambos os segmentos: a arroba do cordeiro de quatro meses é mais valorizada do que a de um boi gordo de 36 meses. O produtor alcança o sucesso quando usa fórmulas bem definidas, como frear os índices de mortalidade, descartar animais inférteis, manter a base de matrizes, agregar valor à carne e garantir escalas frequentes para a indústria.

Refletindo sobre projeções quanto ao baixo crescimento nos próximos anos, chegamos a conclusões que valem a pena serem compartilhadas. O mercado deu um grande salto na última década. Cada vez mais pessoas se surpreendem com o sabor da carne de cordeiro. Ao mesmo tempo, percebemos uma disposição maior do produtor em desempenhar seu papel como nunca. Os recursos do Brasil são abundantes e acumulamos conhecimento suficiente para evitar erros do passado, sem contar o respaldo tecnológico e científico, agora abundante. Devagar, mas sempre avançando, nossa ovinocultura entra nos eixos e vai perdendo o estigma de atividade de subsistência.

Tentando entender essas projeções, concluí que um gargalo que impacta a cadeia produtiva está em nosso próprio sistema de produção. Vemos técnicos tentando criar modelos, mas sabemos que aquilo que dá certo em uma região pode não funcionar muito bem em outra. Comparem o Nordeste e o Sul, por exemplo. No primeiro, existe uma concepção de que a ovelha deve parir o ano todo. Entre os sulistas, bom negócio mesmo é produzir um cordeiro de qualidade por ventre/ano. O que realmente interessa economicamente é o desfrute.

Apenas para ressaltar, o negócio está no desfrute. Fazendo uma analogia, há três décadas, uma ave demorava até 140 dias para ser abatida. Atualmente, esse período não ultrapassa os 40 dias. Detalhe: um filé de frango produzido aqui tem a mesma proporção, textura e sabor de um processado na China, no Japão ou em qualquer outro lugar do mundo.

De nada vai adiantar aumentar o volume do rebanho se a qualidade da carne não apresentar a excelência esperada pelo consumidor, que deseja um produto saboroso, macio, suculento e sem cheiro. Esses quesitos são conquistados apenas quando os cordeiros são abatidos aos 120 dias, em média, meta alcançada facialmente em raças como o Dorper e White Dorper nos cruzamentos industriais, raças especializadas na produção de carne. Nesses casos, os produtores continuarão desfrutando de boa remuneração sempre.

É preciso sempre estar atento aos sinais enviados pela indústria. Esse é o elo principal entre o produtor e o consumidor.

Pioneirismo

Buscando integrar a cadeia, há 12 anos a VPJ Pecuária, divisão de melhoramento genético da VPJ Alimentos, foi atrás de raças capazes de fornecer carne de cordeiro de boa qualidade, encontrando seus objetivos nas raças Dorper e White Dorper. Hoje, a propriedade contabiliza o fornecimento de carneiros, ovelhas, borregos e embriões das duas raças para mais de 1.000 criadores em todo o Brasil.

Muito desse sucesso deve-se ao Programa Cordeiro Prime, que já conta com 70 parceiros em São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Bahia, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Goiás. Esse é o maior programa de fomento cruza-Dorper em todo o Brasil, com mais de 40 mil abates anuais.

A padronização dos animais e a excelência dos produtos entregues aos frigoríficos credenciados, além de controles internos rigorosos e o pagamento de bonificações aos produtores enquadrados, bem como garantia total de compra dos borregos nascidos, são alguns dos fatores que tornaram a carne do Cordeiro Prime presente em todo o País.

Os criadores participantes também recebem toda a orientação técnica necessária, o transporte para cargas de até 130 cabeças e também o acesso a material genético de qualidade internacional. No que se refere ao manejo, algumas práticas desenvolvidas ajudam a melhorar a padronização e a qualidade de carcaça dos cordeiros.

Respeitando as peculiaridades sazonais de cada região brasileira, a estação de monta é realizada com aplicação de doses de sêmen a fresco. A sincronização do cio das matrizes é induzido e as parições, ajustadas à produção de um cordeiro por ano. A mamada é controlada e, no final dessa fase, os borregos são suplementados com farelo de milho para dar acabamento.

O ideal é que os produtos sejam abatidos aos 120 dias, pesando entre 35 e 40 quilos, mas também são aceitos cordeiros com 150 dias. Esses padrões de produção conferiram ao programa a certificação do selo do Serviço de Inspeção Federal (SIF), que permite a comercialização dos produtos em todo Brasil.

Gastronomia

Apesar do Programa Cordeiro Prime possuir uma empresa frigorífica com toda a infraestrutura necessária, os animais são ceifados em frigoríficos credenciados. As carcaças são inspecionadas e cuidadosamente direcionadas à VPJ Alimentos, sediada em Pirassununga, para aí sim produzirmos uma enorme variedade de cortes, já presentes nos melhores restaurantes, churrascarias, redes de fast-food e boutiques especializadas em carnes nobres.

A preferência pelo Dorper e White Dorper é explicada pelo fato de esses animais serem precoces ao abate e produzirem carne macia, sem odores e padronizada nas suas dimensões e marmoreio.

*Valdomiro Poliselli Júnior é presidente da VPJ Alimentos, sediada em Pirassununga (SP).