Negócios

Aquisição de peso

Controlador do Grupo Marfrig, Marcos Molina compra a Agropecuária Jacarezinho e aquece o agronegócio brasileiro

Erick Henrique
erick@revistaag.com.br

O último ano não foi um mar calmo onde as navegações transcorreram sem contratempos. Os leitores de AG – A Revista do Criador já sabem que estamos falando da economia brasileira, sucumbida pelo embate político e escândalos de corrupção. Diante desse turbilhão, o agronegócio manteve-se firme para não naufragar a exemplo de diversos outros setores como a indústria automotiva, as siderúrgicas, a construção civil e o varejo.

Para os pecuaristas superarem a tormenta de 2015 foi necessário mais atitude e menos pessimismo. Em momentos de crise, quem demonstra atitude e encara os desafios, certamente toma à dianteira quando a economia retornar aos eixos e com tendência de crescimento. Foi com essa visão que o pecuarista e presidente do Grupo Marfrig, Marcos Molina, resolveu investir na aquisição da Agropecuária Jacarezinho (AJ), fazenda-referência em melhoramento genético de animais da raça Nelore. Propriedade de 47 mil hectares, as fazendas nos municípios baianos de Vanderlei e Cotagipe, agora são integradas às fazendas do MT e SP que o empresário já ostenta.

A investida de Molina provocou certo murmuro no segmento, inclusive com algumas pessoas dizendo que o próprio frigorífico havia efetivado a compra. “É importante deixar claro que o negócio com a AJ é uma iniciativa pessoal do empresário Marcos Molina, que, como todos sabem, também é controlador do Marfrig Global Foods”, esclarece o diretor da Jacarezinho, Ian Hill.

Segundo Hill, a marca Jacarezinho será incorporada aos ativos de pecuária pertencentes a Molina. No total, o projeto passa a contar com cerca de 30 mil matrizes. Essa integração reforçará um trabalho de mais de 20 anos, aumentando a quantidade de matrizes que a AJ conta para desenvolver o programa de seleção genética, expandindo a atuação e a influência melhoradora na pecuária brasileira.

E para quem ainda possa ter dúvidas, o membro da rede global de consultores (GLG Group) Fábio Dias, durante Encontro de Analistas da Scot Consultoria, explicou que não há movimento dos frigoríficos comprando fazendas. Quem adquiriu a AJ foi a pessoa física, Marcos Molina, e não o Marfrig. “Algumas plantas até investiram em estruturas de confinamento e, atualmente, as estão transformando em boitéis, com uma proposta de parceria. Porém, não são os donas do gado. Isso é uma operação da pessoa física. Não há qualquer possibilidade de afetar a procura do frigorífico por bois no mercado”, pontua.

Dias é zootecnista, possui no currículo 30 anos de trabalho focado em produção de gado de corte, conhecimento do mercado pecuário, vendas em leilões e implementação de programas de melhoramento genético de raças bovinas. Até novembro de 2015, ele atuava como diretor estatutário da Agro Santa Bárbara, responsável por toda área comercial da empresa, envolvendo vendas de commodities (milho, soja, boi gordo e bezerro), além dos produtos de valor agregado (touros e vacas Nelore e novilhas Girolando).

Mas faria sentido

“Nós temos atualmente um grupo de companhias no Brasil que são relevantes tanto internamente como no mundo. Essas indústrias têm uma série de contratos com clientes de peso como McDonald’s e outros players espalhados pelo globo. Eles precisam de matéria-prima de ótima qualidade, porém, ela é fornecida de forma desigual, pois se compra tanto vaca como boi inteiro, boi magro e boi ‘tucura’ para o abate”, avalia o presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB), Gustavo Junqueira.

De acordo com Junqueira, por causa dessa diferença, o custo do produto fica elevado, uma vez que precisa realizar o trabalho de seleção dentro do frigorífico. “Por isso a indústria tenderá a organizar um grupo de fornecedores. Então, a indústria/fazenda impõe critérios, por exemplo, de acabamento de carcaça para produzir carne com mais gordura para os europeus ou com menos gordura para os asiáticos”, analisa o presidente da SRB. Um fator que poderia justificar o porquê de alguns interpretarem o negócio como sendo do Marfrig.

Na opinião do líder da entidade, se os pecuaristas não tomarem a decisão de unificar a cadeia, insistindo no conflito de interesses, a indústria não terá outra alternativa que não a de investir na compra de fazendas. “É claro que isso leva tempo, custa caro, é difícil. Mas ao longo do tempo, o pecuarista que estiver antenado a essa tendência vai atrair investidores, gerando contratos de compra de longo prazo. Porque a verdade é que se criou dois padrões: um de carne verticalizada, oriunda do próprio fornecedor (frigorífico), e outra que é uma compra spot, algo que vem ocorrendo sem organização”, assinala.

Segundo ele, o produtor que trabalha no spot, em certos momentos terá sucesso e muito dinheiro quando faltar boi, mas também corre o risco de perder muitas cifras ou até não ter a quem vender o gado. Essa dinâmica precisa ser observada não somente com o discurso contrário, mas também analisando como essa cadeia será estruturada. Com isso, o pecuarista poderá ser recompensado e ganhar força.

Junqueira explica que dentro de uma unidade industrial é necessário ter uma programação: tempo de abate, tipo de qualidade para poder investir em maquinário e produto, como acontece na citricultura. Dessa forma, a cadeia precisa ser organizada para fazer com que a indústria tenha melhor rendimento. “Isso acontece nos Estados Unidos, por exemplo, com grandes produções de confinamento. Eles analisam até de quem estão comprando o boi magro, qual é o pai do animal, se esse exemplar gera mais gordura, engorda em seis meses ou em oito. Lá tem grandes donos, podemos dizer pecuaristas, integrados aos frigoríficos”, conclui Junqueira.

Projeto Jacarezinho Os valores sobre a compra da Jacarezinho permanecem em segredo. Marcos Molina foi procurado para esclarecer, porém, não concedeu entrevista. Com a aquisição, os planos da empresa são produzir 4.000 touros com Certificado Especial de Identificação de Produção (Ceip), emitido pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. “Continuaremos com o projeto de melhoramento genético, com uso das mais modernas tecnologias de produção, como a genômica, que representa a essência do trabalho da Jacarezinho”, garante Hill. A AJ também participa do Programa Marfrig+, projeto que visa produzir animais com características superiores de desempenho, tanto em termos de quantidade quando de qualidade da carne produzida. Em 2014, a propriedade disponibilizou mil fêmeas Nelore Ceip para viabilizar a primeira fase do programa, para o cruzamento com touros Angus, com o intuito de obter bezerros precoces com elevada qualidade de carne.

Além da propriedade, o programa conta com pecuaristas parceiros de Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, em conjunto com FSL Angus ITU. A expectativa para 2016 é de 600 mil fêmeas prenhas dentro do programa, com os bezerros desmamados pesando, em média, 20% a mais e chegando à idade de abate aos 16 meses.