Entrevista

Quando viu, já foi!

Francisco Carlos Faria Lobato

Logo após o animal apresentar sintomas, a morte é rápida. É assim que acontece com o grupo de doenças conhecido por clostridioses. Para tratar do tema, convidamos o professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Francisco Carlos Faria Lobato, autoridade no assunto desde 1986.

Adilson Rodrigues adilson@revistaag.com.br

Revista AG - Durante muito tempo, alguns pecuaristas acharam que o risco de clostridioses no Brasil era uma preocupação “fabricada”. Hoje, a história prova o contrário?

Francisco Carlos Faria Lobato - Clostridioses é um termo extremamente genérico. Trata-se de um grupo no qual existem mais de 200 espécies de clostrídeos e 20 de patógenos. Então, esse termo é uma forma simples encontrada para especificar as enfermidades causadas por essas bactérias de determinados gêneros. O que podemos avaliar é que o Carbúnculo Sintomático e o Botulismo são endêmicos em todo o Brasil e ainda há a Gangrena Gasosa, causada por diversos agentes de clostrídeos tóxicos, como Clostridium perfringens tipo A, diagnosticada já há muito tempo também.

O fato da “preocupação fabricada” se relacionava não às clostridioses como um todo e sim aos quadros de Enterotoxemia, principalmente no início da década de 1990, quando da introdução de vacinas Logo após o animal apresentar sintomas, a morte é rápida. É assim que acontece com o grupo de doenças conhecido por clostridioses. Para tratar do tema, convidamos o professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Francisco Carlos Faria Lobato, autoridade no assunto desde 1986. Adilson Rodrigues adilson@revistaag.com.br Quando viu, já foi! Divulgação Outro aspecto que temos observado com relação à Gangrena Gasosa é o processo de vacinação. Temos vários casos registrados dessa forma.

Use uma agulha para 10 animais na seca e uma para 20 nas águas. importadas com múltiplos antígenos. À época, houve uma análise mostrando que a Enterotoxemia também era epidêmica e endêmica no Brasil, o que era mentira. Ela existe ainda hoje, mas nunca nessas condições descritas.

Revista AG - Seria possível responder quando foi registrado o primeiro caso desse grupo de doenças no Brasil?

Francisco Lobato - As principais doenças diagnosticadas nos bovinos datam da década de 1930 para o Carbúnculo Sintomático, que são as Mionecroses, e no início dos anos 1970 para o Botulismo. Esta última tem uma ocorrência maior na região do Brasil Central, onde são frequentes os casos em Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, parte de São Paulo e triângulo mineiro. Isso pelo fator primário do Botulismo endêmico ter correlação com a deficiência de minerais nas pastagens do gênero Brachiaria. Quando a suplementação do animal não é bem feita com fósforo, o gado desenvolve osteofagia, desencadeando o surto. Agora, no Sul do Brasil, podemos citar a Hemoglobinúria Bacilar, que é causada pelo Clostridium haemolyticum, com uma relação de ocorrência maior no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina e no Paraná, por fatores homeopáticos.

Revista AG - Hoje, o que mais assusta no que se refere a essas doenças?

Francisco Lobato - Quando você pensa em Carbúnculo Sintomático, só para ilustrar, a morbidade não é alta. Sempre acontece com poucos animais, geralmente nos mais jovens, de até 12 meses de idade. Tanto que chamam de Manqueira, pois ocorrem mais em gado no pós desmama.

Dessa forma, não é constatado um volume grande de animais enfermos ao mesmo importempo. Agora, com o Botulismo endêmico, correlacionado à deficiência de fósforo, é diferente. Ele normalmente tem uma prevalência de morbidade em torno de 10% do rebanho. Na época em que acontecia de forma epidêmica no País, tivemos grandes rebanhos, digamos de 10 mil cabeças, dos quais mil adoeciam de uma só vez, e com alta letalidade. Isso muito assusta.

Esses casos ainda acontecem, mas não nessa proporção. Também temos o Botulismo esporádico, que é aquele transmitido através da suplementação alimentar, com a toxina podendo gerar uma morbidade e letalidade tão altas que poderiam aterrorizar o criador.

Revista AG – Quando ainda na morbidade, dá tempo de tratar os animais?

Francisco Lobato - As clostridioses, de forma geral, apresentam surto agudo, então não se dispõe de muito tempo para a intervenção. Os veterinários estão utilizando para os casos de Botulismo, o soro antibotulínico, entretanto, se for aplicado em um grande número de animais, poderá inviabilizar economicamente a gestão da fazenda. Normalmente, nos bovinos que adoecem nos quadros de Mionecroses (Carbúnculo Sintomático), Gangrena Gasosa e Botulismo, o tratamento é incipiente.

Aqueles animais que o veterinário consegue diagnosticar logo no início, às vezes conseguem se recuperar através da utilização do soro, da aplicação de antibióticos e de uma boa enfermagem. Isso é mais comum de acontecer nos equinos.

Revista AG – Além dessas citadas, haveria outras clostridioses importantes?

Francisco Lobato - Teria ainda o Tétano, que é causado pelo Clostridium tétani. Junto às demais mencionadas são as principais que ocorrem, e há outras doenças bastante esporádicas e menos complexas. É bom deixar claro que essas doenças fazem parte das vacinas que estão disponíveis no mercado, então, o produtor já está imunizando seus animais contra tais agentes.

Revista AG - O jeito então é imunizar...

Francisco Lobato - A melhor solução é vacinar, mas antes da imunização vêm as práticas de manejo, que são muito importantes e vão depender da enfermidade. Porém, tem algumas práticas em comum, como a eliminação de cadáver nas pastagens para diminuir o nível de contaminação no ambiente. Essa atitude é importante para todos os tipos de clostridioses porque elimina o ciclo de contaminação.

No Botulismo, precisa-se encontrar e eliminar a fonte de intoxicação, enquanto nos casos de Gangrena Gasosa, é necessária assepsia nos processos cirúrgicos e evitar que o animal se corte. O ferimento é a porta de entrada da doença. Outro aspecto que temos observado com relação à Gangrena Gasosa é o processo de vacinação. Sabemos que é muito complicado, economicamente, usar uma agulha por animal, então sugiro utilizar uma para cada dez animais, no período da seca, fazendo a troca e a desinfecção de forma correta.

Já no período das águas, pode-se usar uma agulha para 20 bovinos. Isso evitará que a própria agulha carregue agentes que causem o quadro de contaminação. Temos vários casos registrados dessas doenças no Brasil através do ato de vacinar.

Revista AG - No caso específico de um animal que morreu de Botulismo, o melhor seria incinerar ou se poderia enterrar?

Francisco Lobato - É necessário incinerar, enterrar e ainda jogar cal para que minhocas não carreguem esporos e tatus não tragam os ossos para a superfície. Muitas vezes o pecuarista não consegue fazer isso quando ocorre alta mortandade de animais, então, pelo menos enterre. Não em “cemitérios”, pois a concentração traz riscos.

Revista AG - As vacinas existentes atualmente possuem boa eficácia?

Francisco Lobato - Até hoje o que podemos afirmar é que o Ministério da Agricultura controla a eficácia apenas das vacinas contra Carbúnculo Sintomático (Clostridium chavouei), Botulismo (Botulinium C e D) e Enterotoxemia (Clostridium perfringens). De um modo geral, ainda não temos um retrato geral da potência das demais vacinas. As vendas de vacinas contra clostridioses perdem apenas para as de febre aftosa. São produzidas mais de 150 milhões de doses por ano. E são necessárias, pois nós nunca vamos erradicar o clostridium porque ele está em todo o solo, na forma de esporos. Agora, estamos tranquilos, amanhã podemos não estar mais.

Revista AG - Em alguma dessas doenças existe o risco de contágio?

Francisco Lobato - Não há contaminação de um animal para outro. O clostridium não é enquadrado como doença infectocontagiosa, como é o caso de um vírus ou uma bactéria específica. O agente tem de estar presente no trato digestivo do animal ou achar uma porta de entrada, além de depender do fator primário para se multiplicar.

Revista AG - A maior preocupação seria em relação aos animais jovens ou adultos?

Francisco Lobato - Depende muito. O Carbúnculo Sintomático acomete animais de um a dois anos de idade, a Gangrena Gasosa pode ocorrer em qualquer faixa etária, o Botulismo endêmico tem relação com a deficiência mineral e acomete, principalmente, vacas gestantes ou em lactação. A Enterotoxemia depende da mudança brusca de alimentação, o tétano e as “Mionecroses” necessitam de portas de entrada. As enfermidades que independem da faixa etária podem ameaçar o animal depois dos quatro meses de vida. Antes disso ele ainda tem a imunidade passiva do colostro.

Revista AG - Qual seria o intervalo correto entre as vacinações e seus respectivos reforços?

Francisco Lobato - Como a grande maioria das vacinas é polivalente, faz-se a primovacinação aos três meses de idade, reforço de quatro a seis semanas depois e revacinação anual. Esse é o procedimento correto. E eu repito, vacine! Uma mudança brusca na alimentação pode causar Botulismo, assim como ocorreu em um grande surto na década de 1970, quando da introdução da braquiária na dieta dos bovinos, por exemplo. Quem causa a doença no animal são as toxinas que o clostridium produz. Existem no mercado opções de vacina bacterina (feita com o agente), bacterina-toxoide (feita com o agente e a toxina) e apenas as toxoides (produzida com a toxina).