Caprinovinocultura

 

Atenção no consumidor

Pesquisa indica preferências e pode ajudar a direcionar ações da cadeia produtiva voltadas à expansão do consumo

Denise Saueressig - denise@revistaag.com.br

Entender o que espera e prefere o consumidor é determinante para o sucesso de um produto no mercado. Afinal, é esse conhecimento que pode indicar a melhor estratégia para conquistar o gosto do cliente. Foi para compreender o que pensam os consumidores sobre a carne ovina que pesquisadores da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (Apta), vinculada à Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo, realizaram uma consulta em que foram entrevistadas 3.249 pessoas.

Os questionários, com 28 perguntas, foram aplicados entre janeiro e junho de 2013 nos municípios de Presidente Prudente, Marília, Araçatuba, Bauru e São José do Rio Preto, em São Paulo; Londrina e Maringá, no Paraná; e Dourados, em Mato Grosso do Sul. Além da proximidade geográfica entre as cidadas, foi considerado o potencial envolvendo a ovinocultura nesses locais, explica o zootecnista Ricardo Firetti, pesquisador da Apta no Polo Tecnológico Alta Sorocabana, em Presidente Prudente. “No interior do estado de São Paulo, por exemplo, a atividade vem passando por um período de transformações, em que os produtores estão investindo em qualificação e em aumento dos rebanhos”, observa.

Algumas informações coletadas no estudo chamaram a atenção. Entre os entrevistados, 38% afirmaram que consomem a carne ovina, mesmo que seja de vez em quando. Outros 34% foram considerados possíveis consumidores porque manifestaram interesse no produto. “Isso revela que 72% do total são potenciais clientes, o que inclusive nos mostra que existe uma rejeição inferior em comparação com os pescados”, detalha Firetti.

Dados coletados pelo estudo são apresentados em congressos e utilizados para discussões de estratégias em iniciativas que envolvem a cadeia produtiva

Entre as pessoas que consomem os cortes ovinos, as respostas indicam que a frequência de consumo ainda é baixa. Do total, 45% mencionaram que o fazem uma vez por ano ou ainda menos. Outros 21% responderam que o fazem mensalmente. No entanto, quando a pergunta é sobre a frequência com que gostaria de consumir, essa relação muda bastante, já que 75% das pessoas revelam que comeriam a carne pelo menos uma vez por mês. “Geralmente isso deixa de acontecer devido a questões mercadológicas, como preço e disponibilidade no varejo. De qualquer forma, é um dado muito importante, já que existe a percepção de que o produto tem apelo comercial que pode ser devidamente explorado pela cadeia produtiva”, destaca o pesquisador. “Outro ponto interessante é que em torno de 80% dos entrevistados concordam, parcial ou totalmente, que a carne ovina é saudável”, acrescenta Firetti.

Informação e estratégia

Entre os entrevistados que consomem a carne ovina, 31% adquirem o alimento diretamente do produtor. Isso provavelmente ocorre porque as pessoas consideram confiável essa forma de fornecimento. No entanto, é preocupante e ajuda a ilustrar um dos principais problemas da cadeia no País, que é a alta incidência dos abates clandestinos realizados sem inspeção sanitária e fiscalização.

Quanto à colocação do produto no mercado, 28% estão insatisfeitos com a oferta encontrada, o que mostra a importância de trabalhar pela maior disponibilidade do alimento em supermercados e hipermercados. Ao mesmo tempo, apenas 19% estão satisfeitos em relação ao preço, que é considerado elevado. Nesse momento, a comparação com a carne bovina é inevitável, o que acaba desfavorecendo a escolha pelos cortes ovinos.

O consumidor também afirma preferir a carne com cozimento bem passado e sabor suave. A carne preparada como churrasco tem a simpatia de 68% dos entrevistados. “É interessante sabermos que o consumidor prefere a carne bem passada, porque as campanhas de marketing existentes hoje normalmente apresentam os cortes mal passados, em pratos elaborados com a carne do cordeiro e voltados ao nicho da alta gastronomia”, constata Firetti. “A cadeia produtiva tem a oportunidade de aproveitar essas informações ampliando a oferta de cortes desossados, com preparo mais simples e que podem ser inseridos no churrasco das famílias”, completa o pesquisador.

Os dados coletados pelo levantamento vêm sendo apresentados em congressos, publicações especializadas e como material para discussões de estratégias em iniciativas que envolvem a cadeia, como a Câmara Setorial de Caprinos e Ovinos da Secretaria de Agricultura de São Paulo. A intenção é auxiliar na definição de ações para organização e valorização da atividade desde o campo até a mesa do consumidor.

Além da coordenação da Apta, o trabalho também contou com a colaboração do Grupo de Pesquisa “Agronegócios, Políticas Públicas e Desenvolvimento Regional” da Unesp, e da professora Marilice Zundt, da Universidade do Oeste Paulista (Unoeste). O estudo ainda recebeu financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).