O Confinador

 

RECRIA E TERMINAÇÃO

Os desafios na tomada de decisão

Leonardo C. Canellas & Julio O. J. Barcellos*

O desempenho produtivo e o resultado econômico dos sistemas de produção pecuários apresentam variações influenciadas pelos recursos naturais disponíveis, pela capacidade de investimento e habilidade de produção do gestor do negócio e pelo comportamento do mercado. De uma forma geral, o funcionamento desses sistemas é estável ao longo dos anos, ou seja, os produtores costumam “replicar” o seu sistema-base ano após ano, o que facilita o controle dos processos de produção. A partir do domínio desses processos e da estabilização dos indicadores produtivos, o produtor desfruta de momentos de maiores lucros intercalados com períodos de menores ganhos, conferindo ao negócio resultados cíclicos de acordo com o comportamento do mercado.

A estabilidade de um sistema de produção está muito relacionada à sua configuração básica. Sistemas que envolvem a produção de bezerros – sejam eles de cria isolada, cria e recria ou ciclo completo – tendem a ser mais estáveis pela retroalimentação do ciclo produtivo. Entretanto, sistemas especializados na recria e/ou terminação dependem de compras e vendas de animais, gerando importantes variações de estoque animal e fluxo de caixa, o que faz com que esses tipos de sistema necessitem de uma gestão mais dinâmica e de maior habilidade comercial por parte do produtor.

Nicho especializado surge no ciclo da recria

Atualmente, grande parte dos sistemas especializados na recria/terminação está vinculada ao uso compartilhado de áreas de agricultura. Na Região Sul, o uso das pastagens de outono-inverno- primavera em áreas compartilhadas com culturas anuais de verão constitui um importante recurso para recria e engorda de animais, modificando inclusive o comportamento de preços, dado o volume de animais disponíveis para o abate ao final do ciclo de crescimento dessas pastagens.

Outro ponto a ser destacado é a preferência pela recria/engorda por parte de investidores que estão entrando na atividade, pois são sistemas de ciclo mais curto e com alta liquidez, o que permite a obtenção de resultados de curto-médio prazo. Além disso, esses sistemas adaptam-se melhor à diminuição da escala de produção pecuária que ocorre em muitas regiões, permitindo, por meio de processos mais intensivos, a manutenção de um número maior de animais em áreas mais restritas.

A flexibilidade desses sistemas traz oportunidades de ganhos no atual momento de transição, porém, é fundamental que os mesmos sejam conduzidos com base em princípios produtivos bem fundamentados e coordenados por uma gestão econômico-financeira adequada. Para que isso ocorra, é necessário administrar, de forma integrada, aspectos relacionados à configuração do sistema, ao uso de tecnologias e à comercialização dos animais.

Desafio da compra
Em se tratando de sistemas abertos, os quais são dependentes da compra de animais, a configuração do sistema é um dos principais desafios. Ao contrário dos sistemas que produzem os próprios animais, na recria/engorda a dependência da compra faz com que a replicação do sistema ao longo dos anos apresente variações importantes. Isso ocorre, pois, salvo exceções, o produtor depende de um produto que apresenta variações em preço, peso e qualidade. Previamente à compra, o produtor normalmente já tem definido qual será o seu produto final, e, a partir disso, busca no mercado a matéria-prima que irá servir como base para a produção. Contudo, se essa matéria-prima apresenta alguma modificação em suas características (idade, peso, etc.) ou no preço, o sistema deve se adaptar a essas variações.

Um exemplo de modificação que vem ocorrendo nos últimos anos é a dificuldade de compra de bois magros de 2-3 anos que tradicionalmente é realizada por produtores especializados na engorda. Esse tipo de animal está cada vez mais escasso, forçando os terminadores a modificar o tipo de animal que entra no sistema, tendo de se adaptar à produção do boi gordo a partir de animais mais jovens (bezerros ou novilhos de 1,5 anos) e mais leves. Em alguns casos, o boi de reposição que anteriormente era comprado com 320-350 kg, atualmente é comprado com 280-300 kg e com um ano a menos. Isso traz implicações no sistema, pois o ganho de peso necessário para a produção do boi gordo aumenta, modificando as necessidades de alimentação, o tempo de engorda ou, em último caso, o peso de venda.

Nesse cenário, a produção do boi gordo, a partir do bezerro, pode ser a saída para muitos terminadores, modificando o sistema de produção a partir da inclusão da recria. Nesse caso, o produtor deve direcionar compras de animais para um bezerro mais pesado, no caso de desejar fazer uma recria mais curta, ou de um bezerro mais leve, se optar por uma recria mais longa. Outro fator que poderá ser modificado ao longo do ciclo produtivo é o peso de venda, que pode ser reduzido no caso de uma etapa de engorda mais rápida para a produção de um novilho mais leve.

Uma alternativa que vem crescendo nos últimos anos é a recria especializada. Alguns produtores, por oportunidade de mercado, vendem animais antes de serem terminados para outros produtores, e estes realizam a terminação. Esses animais são vendidos entre 18 e 24 meses e normalmente são destinados a sistemas intensivos de Uma alternativa que vem crescendo nos últimos anos é a recria especializada. Alguns produtores, por oportunidade de mercado, vendem animais antes de serem terminados para outros produtores, e estes realizam a terminação. Esses animais são vendidos entre 18 e 24 meses e normalmente são destinados a sistemas intensivos de engorda (semiconfinamento ou confinamento) que produzem novilhos mais pesados. A grande vantagem produtiva ou biológica desse tipo de sistema é que o produtor fica livre da engorda dos animais, etapa que é mais onerosa em termos de alimentação. Ou seja, o recriador aproveita a etapa da curva de crescimento na qual o aumento de peso se dá com maior eficiência, o que reduz o custo por quilograma produzido. Ao contrário do tradicional boi magro, recriado de forma extensiva e vendido por necessidade de ajuste de lotação ou de geração de receitas, esse novilho é caracterizado por apresentar um padrão racial definido e é vendido por um preço muitas vezes superior ao preço por quilograma pago pelo boi gordo. Desse modo, a recria especializada destinando animais para mercados específicos constitui uma importante oportunidade para o produtor, seja para flexibilizar o sistema de engorda, seja como um sistema isolado.

Outro produto que pode ser incluído na configuração do sistema de engorda é a vaca de descarte. Esses animais apresentam a vantagem de serem terminados rapidamente, podendo ser utilizados em momentos de alta disponibilidade de alimento e compradas em momentos de oportunidade. Apresentando um retorno rápido, a engorda de vacas pode ser utilizada de forma concomitante em um sistema de recria/ engorda de novilhos, aproveitando o excedente de alimentação em determinados períodos. Ao contrário da recria e da terminação de novilhos, que depende da manutenção de um estoque de animais por um período que normalmente excede um ano, a engorda de vacas é realizada em menos de seis meses, podendo ser esse período reduzido para 60-90 dias conforme a condição corporal das vacas no momento da compra e a alimentação utilizada. Contudo, na terminação de vacas de descarte, alguns cuidados devem ser tomados. A idade dos animais deve ser observada, pois vacas muito velhas podem apresentar atraso na engorda. O diagnóstico de gestação prévio à compra é fundamental para evitar a compra de vacas prenhes, o que pode gerar um enorme problema para os sistemas de terminação. Contudo, dependendo da procedência das vacas e do período de engorda, outro diagnóstico de gestação, prévio à venda, pode ser necessário, assegurando que o produtor não estará vendendo vacas gestantes, sujeito a perdas por condenação ou descontos no frigorífico.

Com relação à procedência, a questão sanitária é fundamental para novilhos, mas principalmente para vacas. Animais mais velhos têm maiores chances de apresentar problemas sanitários, aumentando o risco de condenação no momento da venda. A compra direta entre produtores, além de normalmente apresentar menores custos adicionais, é mais segura, pois a origem dos animais é conhecida.

Tecnologias para recria/terminação
Atualmente, dado o grande volume de informações a respeito de tecnologias disponíveis para recria/terminação de bovinos, o produtor deve optar pelo uso de técnicas que se adaptem melhor ao sistema praticado e, principalmente aos recursos e às estrutura disponíveis. Um dos principais problemas enfrentados pelos produtores tem sido a escassez de recursos humanos. Esse problema é agravado quando existe a necessidade de intensificar alguns processos de produção, dependentes da adoção de determinadas tecnologias. Nesse contexto, técnicas de suplementação têm sido utilizadas para intensificar a recria/terminação com redução da necessidade de mão de obra, tais como a suplementação infrequente e o autoconsumo de suplementos. Essas técnicas permitem uma redução no custo com pessoal ou a liberação dos trabalhadores para execução de outras tarefas.

A suplementação infrequente consiste em suplementar os animais em dias alternados ou concentrar a suplementação somente nos dias de semana. Sob o ponto de vista nutricional, o principal cuidado a ser tomado é que a proteína da dieta não seja o limitante. Esse tipo de suplementação se adapta a pastagens de alta qualidade. Normalmente, utilizam-se concentrados energéticos, aumentando o ganho de peso no pasto. A suplementação não deve exceder o equivalente a 1% do peso vivo por dia. Dentro desses parâmetros, a quantidade semanal de suplemento pode ser fornecida em dias alternados ou de segunda a sexta sem afetar o ganho de peso. Desse modo é possível, por exemplo, fornecer 0,5% do peso vivo todos os dias ou 1% do peso vivo a cada dois dias obtendo resultados semelhantes de desempenho animal.

O autoconsumo de suplementos é outra técnica que permite uma redução significativa no uso da mão de obra e consiste em permitir o livre acesso dos animais ao suplemento. A quantidade diária ingerida por animal é regulada pelo teor de sal branco (NaCl) no suplemento, impedindo a ingestão exagerada do concentrado e assim evitando possíveis transtornos metabólicos. A principal limitação dessa tecnologia é a dificuldade de controle da ingestão de suplemento e a variação na quantidade consumida entre os animais. Aspectos como a quantidade e qualidade do pasto e da água de bebida, a palatabilidade da ração, o acesso aos cochos de autoconsumo e a categoria animal utilizada afetam o consumo de suplemento.

Independentemente do sistema de produção, dos processos e das tecnologias escolhidas e dos sistemas especializados em recria e/ou terminação devem ter uma base de funcionamento, constituída pela escolha do tipo de animal a ser utilizado, os períodos predominantes de compras de animais e uma previsão de escala de vendas. Esses fatores devem, obrigatoriamente, ser combinados com a disponibilidade forrageira ao longo do ano e com a combinação de uso de outras tecnologias adaptadas ao sistema pretendido.


Amido fecal como indicador do aproveitamento da dieta


Da Redação

Importante nas dietas de confinamento, o aproveitamento do amido pode ser monitorado através da análise fecal. “O amido fecal dá uma estimativa bem próxima do que está acontecendo com o animal e isso é importante para a eficiência alimentar. Ele é o coração do confinamento e o aproveitamento pode variar de 80 a 100%”, esclarece o professor da Universidade da Califórnia (EUA), Richard Zinn. A ferramenta é simples e, de acordo com o renomado nutricionista, sem muitos pormenores e foi inicialmente criada para medir a eficiência do milho floculado.

“O produtor recolhe dez amostras de fezes de um mesmo lote e mesma dieta e envia o material seco para um laboratório credenciado, que, por sua vez, mede a porcentagem de amido e entrega, em 24 horas, o valor de digestibilidade do lote”, detalha Zinn. Atualmente, Canadá, Estados Unidos e México adotam em grande escala essa tecnologia. No Brasil, a pecuária leiteira já observa os impactos positivos. Dados experimentais indicam que “para cada unidade percentual de variação na digestibilidade do amido tem- -se 300 ml de variação na produção de leite, por exemplo”, revela o médico veterinário Marcelo Hentz Ramos, que acompanhou o professor Richard Zinn durante o Ciclo de Palestras 3rlab por cidades brasileiras.

O especialista em nutrição de ruminantes comenta que na pecuária de corte o uso desse instrumento ainda é incipiente, mas com perspectivas favoráveis. “É um efeito muito grande no desempenho que pode fazer com que o boi coma menos e produza a mesma quantidade de carcaça. É um produto integrado ao animal, passa pelo manejo, pelo trato, pela rotina e tudo isso é acompanhado”.


*Leonardo Canellas & Júlio Barcellos são professores do Núcleo de Estudos em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e Cadeia Produtiva (Nespro) e do Departamento de Zootecnia da Faculdade de Agronomia da UFRGS - julio.barcellos@ufrgs.br