Entrevista do Mês

 

Só de PASSAGEM!

O curral não é um local construído para a permanência dos animais. A aglomeração traz perigo tanto para o homem quanto para o bovino. Por esse motivo, ouvimos as dicas de Murilo Henrique Quintiliano, zootecnista, especialista em manejo racional e diretor-executivo da FAI do Brasil, para otimizar o manejo da propriedade.

Adilson Rodrigues - adilson@revistaag.com.br

Revista AG - Para muitos, o curral ainda é o vilão do manejo da fazenda. Como nasceu esse estigma?
Murilo Quintiliano -
A razão é simples. Durante muitos anos, devido ao modelo de criação extremamente extensiva ser o predominante, a interação entre as pessoas e os bovinos só ocorria (e em muitos casos ainda ocorrem) em situações que fugiam completamente da rotina dos animais e das pessoas. Os bovinos somente encontravam as pessoas em situações com um potencial de estresse elevado, como vacinação, castração, etc. Assim sendo, o curral ficou associado, para os animais e para as pessoas, como o local onde situações aversivas aconteciam. Junto a isso, a ideia de que o curral deve abrigar todos os animais daquela fazenda ou retiro fez com que os projetos fossem superdimensionados, tornando-os grandes e caros demais, além de trabalhosos, necessitando de muitas pessoas para realizar o serviço. Felizmente, devido à implantação de sistemas de produção que priorizam a produtividade e o controle, a ida ao curral passou a ser, necessariamente, parte constante da rotina da fazenda (uma fazenda de cria, por exemplo, com aplicação média de tecnologia leva o gado ao curral no mínimo seis vezes ao ano), e, consequentemente, é possível utilizar técnicas de manejo que permitam que essa rotina seja boa para todos.

Revista AG - O que poderiam fazer todos aqueles pecuaristas que compõem essa estatística? Isso teria um pouco a ver com a escassez de madeira, enfrentada no passado?
Murilo Quintiliano -
Acredito que soluções simples podem ser aplicadas para se chegar à maior eficiência. A vantagem é que, no passado, a estrutura era enorme e a quantidade de material, elevada, então é possível readequar e, inclusive, construir outro centro de manejo com as sobras dos currais desmanchados. A escassez de madeira não chega a ser um problema, pois materiais alternativos como metal e concreto podem ser utilizados em determinados locais, sem prejudicar a solidez da estrutura, a facilidade do trabalho e o custo final do projeto.

Revista AG - E como seria o curral ideal?
Murilo Quintiliano -
Entendo que para ser considerado ideal o curral deve atender quatro requisitos básicos: as necessidades das pessoas; as necessidades e limitações dos animais; ser construído de maneira sólida para oferecer segurança às pessoas e ao gado; e estar dentro do orçamento e da capacidade da fazenda.

Revista AG - Não necessariamente ele precisaria ser uma instalação majestosa... o que ele precisa ter, basicamente?
Murilo Quintiliano -
Além de bonito, o curral deve ser funcional. O ideal é que tenha facilidade de acesso; possua áreas de espera no entorno e porteiras bem posicionadas para facilitar a movimentação e reduzir danos na estrutura e, ainda, contenha um bom “embuti” e “seringa”, além de um bom equipamento de contenção. Definir a necessidade de apartações é importante para estabelecer o número de “mangas”.

Revista AG - O prof. Mateus Paranhos diz que o curral não é lugar para a permanência do animal? Qual seria a solução? Murilo Quintiliano - O professor Mateus tem razão. Curral deve ser local de passagem e não de “estoque de animais”. Grandes piquetes em seu entorno são a solução mais simples e é mais barato construir cercas de arame liso do que laterais de tábua ou metal em um curral. Essas estruturas ajudam muito em situações em que o pasto do lote é muito distante. A equipe pode trazê-lo no dia anterior e iniciar o trabalho logo pela manhã seguinte, poupando tempo e reduzindo imprevistos.

Revista AG - Planejar a ida dos animais antes de chegar à área de manejo seria imperativo?
Murilo Quintiliano -
Isso mesmo! O ideal é que a rotina seja estabelecida para que tenha horário para iniciar e terminar, bem como intervalos para descanso. É muito comum que a fazenda tenha o sistema do “vamos acabar!”, isto é, continuar o trabalho por uma jornada mais longa, com a ideia de que isso acelere e melhore o manejo. A verdade é que o trabalho na fazenda não acaba nunca, assim sendo, o planejamento do dia deve prever a quantidade de animais possível de se trabalhar com a equipe escalada, as condições de clima e as instalações existentes. As estruturas anexas ajudam a liberar os animais no final da jornada e facilitam a prendê-los para continuidade do trabalho posteriormente.

Revista AG - Em relação aos piquetes de espera, quais seriam as recomendações?
Murilo Quintiliano -
Eles devem facilitar a entrada e a saída dos animais. Não necessitam ser muito grandes. Tenho projetado instalações entre 0,7 e 1 hectare. Têm de ter uma boa cerca, pasto bem cuidado, sombreamento e água. Se possível, cochos para suplementação fazem uma grande diferença. Agrada os animais, isto é, eles passam a associar a ida ao curral com coisas positivas também e não somente a agulhadas e esbarrões.

Revista AG - Qual seria a melhor localização do curral? O tipo de terreno influencia a escolha?
Murilo Quintiliano -
Influência muito. O local deve favorecer o trânsito tanto das pessoas quanto dos animais. Por isso, é importante associar os currais aos corredores da fazenda. O tipo de solo, a declividade e a topografia do local também são fatores essenciais. Evite baixadas, solos muito arenosos ou demasiadamente argilosos. Como regra básica, quanto menos água externa entrar no curral e quanto mais água interna sair dele, melhor. Lugares mais elevados e com leve declividade são mais indicados.

Revista AG - Optar pelo tronco de contenção coletivo ou individual impacta a gestão da estrutura?
Murilo Quintiliano -
Acredito que hoje é um retrocesso não pensar em ter um tronco de contenção com balança dentro da fazenda. Essa estrutura permite trabalhar com mais segurança, tranquilidade e eficiência, além de monitorar o desenvolvimento dos animais. Economiza-se no tamanho da estrutura, na força de trabalho e no desperdício de produtos. A falta de recursos não pode servir de desculpa. Mesmo em fazendas pequenas, é possível criar estruturas que deem acesso individual ao gado manejado.

Revista AG - O ideal é ter quantos funcionários tocando o manejo no curral e estarem distribuídos em quais funções? Podemos usar como exemplo uma vacinação antiaftosa.
Murilo Quintiliano -
Depende muito, mas em um curral bem projetado e com uma equipe bem treinada, é possível trabalhar quatro ou cinco pessoas, sendo duas no tronco de contenção (uma delas, o vacinador), outra no tronco coletivo e seringa e uma ou duas conduzindo o lote à seringa. Assim, vacinam-se 600 animais no dia, sem fadiga e com baixo nível de acidentes. A verdade é que pessoas demais atrapalham e pessoas de menos atrasam o manejo.

Revista AG - Em relação à quantidade máxima de animais, seria possível dar algumas dicas aos pecuaristas?
Murilo Quintiliano -
A dica é simples, planeje de acordo com o ritmo médio de trabalho diário. Se consegue manejar 400 ou 500 animais por dia, a instalação não necessita ter capacidade superior a essa. Se for com 100 ou 200, vale a mesma ideia. Para definir a capacidade, é fácil: comece a registrar tempos de início e fim de trabalho, dentro da jornada normal, para cada tipo de manejo, levando em consideração todos os aspectos, incluindo buscar e levar os animais. Já dentro da instalação, o desejável é ter mais da metade da manga livre durante a condução de um animal.

Revista AG - Apartadores e corredores! Como eles devem ser projetados para garantir uma lida tranquila, mesmo com grande quantidade de animais
Murilo Quintiliano -
Eu aconselho não economizar em tamanho de corredores. Lembre-se que animais, veículos e maquinários podem transitar pelo mesmo local, por isso, dez a 12 metros de largura são muito interessantes. Para corredores do curral de manejo, larguras de três a 3,5 metros são preferíveis. Com relação aos apartadouros, existem vários modelos e maneiras de construir. O ideal, para aqueles após o tronco de contenção, é mantê-lo simples, sempre com laterais sólidas e que possuam um sistema de acionamento remoto, com molas, cordas, contrapesos e roldanas. Isso economiza tempo e mão de obra. Lembre-se que a saída dos apartadouros deve ser planejada de maneira a não ter cantos vivos. Evitam-se esbarrões e hematomas nas carcaças.

Revista AG - É sábio lembrar que corredores ou seringas sólidos circulares são preferíveis...
Murilo Quintiliano -
Na verdade, nem sempre eles precisam ser sólidos e nem sempre circulares. Para cada situação existe uma configuração melhor. É importante lembrar que as laterais só devem ser sólidas em corredores onde a largura não seja superior a 3,5 metros e onde eu consiga dispor de passarelas de trabalho laterais. É importante sim “cortar os cantos” para evitar ângulos de 90 graus que dificultam o trabalho e acesso aos animais. No caso da seringa, o semicírculo em composição com uma porteira que gira em um eixo auxilia na redução do espaço dos animais. Dessa maneira, a transição da seringa para o tronco coletivo fica muito mais fácil, principalmente para animais muito reativos.

Revista AG - A bandeira é um objeto comum, mas em substituição aos ferrões e gritos pode ajudar na segurança dos funcionários e animais?
Murilo Quintiliano -
Costumo dizer que a bandeira de manejo é uma ferramenta de trabalho. O que realmente faz o animal movimentar-se é o entendimento do manejador sobre aspectos básicos do comportamento do bovino, por exemplo, como ele enxerga o mundo e como ele reage aos estímulos externos. Os vaqueiros, em geral, possuem essa noção, o que precisa ser feito é sistematizar e mostrar que não é necessário gritar, bater, chutar o chão ou jogar pedras para que os animais caminhem. Digo sempre que o bovino só se movimenta para onde ele quer, nossa função é sermos astutos o suficiente para que esse lugar coincida com nosso objetivo. Não somos mais fortes nem mais rápidos. Temos de tentar ser mais inteligentes.

Revista AG - Resumindo nossa conversa, um curral bem planejado é sinônimo de mais dinheiro no bolso do pecuarista e menos acidentes envolvendo homens e bovinos?
Murilo Quintiliano -
Com certeza, é possível, com um planejamento e projeto, economizar na construção, manutenção e reduzir os riscos de acidentes com as pessoas e com os animais de uma maneira que você se surpreenderia. Agora é importante salientar que, de nada adianta um bom curral sem uma equipe preparada para trabalhar nele. Você consegue um bom manejo em um curral ruim com uma equipe bem treinada, mas não consegue em um curral bom, com uma equipe péssima. O curral deve vir com “manual de instrução”, pois a adequação passa pela mudança de atitude da equipe em utilizar cada estrutura adequadamente. Caso contrário, a desculpa de que “esse curral não funciona” será sempre utilizada pela equipe de trabalho. Para cada projeto existe uma dinâmica por trás que deve ser respeitada, por isso, a opinião dos vaqueiros durante o planejamento faz toda a diferença.

Revista AG – Financeiramente falando, valeria a pena destruir a estrutura existente e recomeçar do zero?
Murilo Quintiliano -
Se o curral tiver boa estrutura, localização e manutenção, eu diria que não. Simples adequações e um bom treinamento da equipe solucionam a maioria dos problemas. Já passei por situações em que não recomendei a adequação do curral em determinado momento porque a equipe ficou tão bem treinada que o investimento poderia ser realizado em outro momento. Agora, se o curral está com estruturas ruins ou localizado em local impróprio, vale a pena pensar e orçar quanto custaria um novo, aproveitando-se materiais do antigo. Em ambos os casos, a equipe deve participar, opinar e ser treinada durante todos os processos de planejamento e execução do projeto.