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É preciso impulsionar a produção

O Brasil detém o segundo maior rebanho bovino comercial do mundo. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o País chegou a 212,3 milhões de cabeças. Embora com rebanho expressivo em termos de quantidade, a produção de carne brasileira ainda está aquém do desejável. O País produz 35% a menos que os Estados Unidos, cujo rebanho é bem menor, com cerca de 89 milhões de cabeças. Infelizmente, o sistema produtivo no Brasil ainda apresenta algumas limitações quando comparado com os concorrentes. De acordo com o Anualpec, a projeção de abate para 2015 é de pouco mais de 42 milhões de cabeças, 16,19% a menos que em 2014, quando foram abatidas 43.038.058 de cabeças.

Podemos atribuir vários fatores às falhas de produção, como a qualidade das pastagens, por exemplo. Praticamente toda a produção brasileira é baseada nesse recurso; sendo assim, a qualidade dos pastos interfere de forma significativa no resultado final da produção, podendo levar à queda de desempenho e consequente atraso no desenvolvimento do animal. Assim, as pastagens necessitam de um manejo correto, que envolve desde o combate e o controle de plantas daninhas até a nutrição das plantas forrageiras e a correção do solo.

Outro fator importante para determinar a qualidade dos animais produzidos no Brasil é a suplementação. A necessidade de suplementação varia muito e cada caso deve ser muito bem estudado, desde o fornecimento de sal mineral da linha branca, passando por proteinado de seca ou de águas e até chegar a um concentrado energético proteico, por exemplo. A baixa taxa de prenhez, decorrente de problemas com nutrição, e a alta mortalidade de bezerros, seja por falta de manejo adequado ou problemas de sanidade, também colaboram para o baixo desempenho da produção.

Apesar dos grandes avanços na pecuária nos últimos anos ainda, precisamos avançar em produção. Dependendo do sistema produtivo, o animal é abatido em média com três anos e meio, mas o ideal seria produzir um animal mais pesado e reduzir esse tempo de abate para dois anos ou menos. Para atingir o ganho de peso desejável e encurtar o prazo de abate é necessário o investimento em genética e em nutrição.

Na busca por melhores parâmetros reprodutivos e taxa de desfrute mais adequadas, faz-se necessário o uso de tecnologia de produção. Dessa forma podemos citar a tecnologia de Inseminação Artificial em Tempo Fixo (IATF), que permite maior eficiência reprodutiva. Essa tecnologia traz muitas vantagens, pois permite a concentração de serviços e a melhor organização do manejo, eliminando a observação do cio e prevendo a data de parição. Além disso, ajuda a padronizar as crias, pois possibilita fazer vários cruzamentos, usando material genético de melhor qualidade.

O manejo reprodutivo destaca-se como um dos principais aspectos responsáveis pelo desempenho econômico da atividade, sendo que boas taxas de produção também estão relacionadas à sanidade do rebanho, à genética e à nutrição. Para a implantação de qualquer tecnologia é necessário um bom planejamento. Não adianta fazer uma boa seleção genética se o rebanho estiver com deficiência nutricional ou com problemas sanitários. Além do mais, é impossível não ter uma escrituração zootécnica eficiente que permita avaliar fatores como histórico reprodutivo, taxa de prenhez, desmame, habilidade materna, etc. Outro aspecto importante é a qualificação da mão de obra, de forma que a equipe esteja preparada para os processos, rotinas e procedimentos. No caso da IATF, em que é feito o sincronismo das fêmeas, a inseminação e a confirmação da prenhez, vai haver uma grande concentração de parições, com muitos bezerros nascendo ao mesmo tempo e que vão exigir maiores cuidados.

Enfim, a própria demanda mundial por carne bovina deverá impulsionar o Brasil a avaliar seu processo produtivo. O país tem um grande potencial para atender boa parte dessa demanda, mas esbarra na necessidade de aumentar a escala de produção. Ou o País adapta o sistema de criação, produzindo mais, de maneira eficiente e sustentável, ou perderá competitividade.

O setor pecuário enfrenta com firmeza os momentos de crise e vem se consolidando. O produtor está se especializando mais, investindo em novas tecnologias, gerindo a sua atividade de maneira profissional e com o preço da arroba valorizado, segue motivado com a atividade. Mas a má situação econômica tem afetado o consumo interno, com aumento pouco significativo nos últimos três anos. Em 2013, o consumo de carne bovina per capita era de 39,02 kg; em 2014, de 39,3 kg; e em 2015, de 39,4 kg em equivalente carcaça com osso, segundo dados fornecidos pelo Anualpec. Apesar da fraca demanda no mercado doméstico, a arroba segue valorizada, sustentada pela oferta restrita de animais. A média paga à vista é de R$ 144,00, valor negociado na segunda quinzena de outubro em São Paulo. No mesmo período do ano passado, a cotação estava em R$ 129,77, à vista.

Se por um lado o consumo interno da carne bovina segue lento, as exportações atravessam um bom momento, favorecidas pela valorização do dólar.

De acordo com a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec), as exportações de carne bovina registraram o maior faturamento e volume de venda do ano no mês de setembro. Foram exportadas 117,7 mil toneladas de carne, com faturamento de US$ 520,4 milhões, crescimento de 2,45% em volume no mês de setembro, se comparado com agosto. O mercado chinês ocupa o primeiro lugar no ranking dos maiores importadores de carne bovina brasileira, totalizando 16.193,62 toneladas, com compras na ordem de US$ 81,2 milhões. Em seguida, temos a União Europeia com 10.554,88 toneladas e faturamento de US$ 70,3 milhões e, por último, o Egito, com 19.245,74 toneladas e faturamento de US$ 69 milhões.

Ainda de acordo com a Abiec, no acumulado do ano de 2015 as exportações de carne bovina atingiram US$ 4,3 bilhões em faturamento e foram embarcadas mais de 999 mil toneladas de carne. Contudo, o resultado ainda se mantém inferior ao mesmo período de 2014, com queda de 18% em faturamento e 13% em volume.

O quadro “Boi Gordo no Mundo” apresenta o valor médio da arroba do boi gordo no período compreendido entre 15 de setembro e 9 de outubro de 2015, para os principais países produtores: Brasil, Argentina, Austrália e Estados Unidos. Neste período, houve valorização da arroba apenas na Argentina e na Austrália, quando comparado ao período imediatamente anterior.

O gráfico “Evolução do Preço da Arroba do Boi Gordo” analisa a evolução do preço em alguns estados brasileiros. A cotação segue valorizada na maioria das praças pesquisadas, ganhando força no início do mês de outubro, período em que o consumo melhora um pouco. Em alguns estados, como MS e MT, houve pouca oscilação de preço; mas, apesar da pouca movimentação no mercado, a média da arroba do boi gordo está sendo negociada a R$ 137,00 (à vista) no MT e R$ 129,00 (à vista) no MS.

Analisando o deságio do preço do boi gordo por UF, no período de 15 de setembro a 9 de outubro, observamos que a média do deságio pago aos pecuaristas entre o preço à vista e o preço a prazo (30 dias) foi de 1,5%.

O mercado de reposição ganhou força em algumas praças produtoras. Em SP, o bezerro passou a valer R$ 1.267,22; em MG, R$ 1.095,00; em GO, R$ 1.203,89; no MS, a média paga foi de R$ 1.231,11; e no PR, R$ 1.252,22. Já nos estados do MT, PA e RS, o preço recuou, registrando negociações a R$ 1.115,00, R$ 1.003,89 e R$ 1.053,89, respectivamente.

A média paga pelo boi magro também valorizou, sendo cotado no estado de SP a R$ 1.901,11; em MG, a R$ 1.722,22; em GO, a R$ 1.873,89; no MS, a R$ 1.838,89; no MT, a R$ 1.701,11; no PA, a R$ 1.636,11; no PR, a R$ 1.960,00; e no RS, a R$ 1.795,00.

Os índices médios de relação de troca entre as categorias de reposição e boi gordo ficaram em 1,91. Para boi magro/ boi gordo ficou em 1,21.

A crescente demanda por proteína animal certamente poderá incentivar ainda mais o desenvolvimento do setor pecuário, que nos últimos anos tem trilhado caminhos rumo à intensificação da produção aliados à sustentabilidade. Diante de um cenário econômico enfraquecido, é preciso ficar atento, considerando os desafios e as oportunidades.

Antony Sewell e Rita Marquete
Boviplan Consultoria