Caindo na Braquiária

 

Sonhos de uma pecuária ideal

Alexandre Zadra - Zootecnista
zadra@crigenetica.com.br

O que você gostaria de ver mudado na nossa realidade de campo, Zadra?” Questionou-me Luís Carlos, o curioso aluno de Ciências Agrárias que havia assistido minha apresentação na parte da manhã em uma competente faculdade.

Para responder essa complexa questão, peço licença a profissionais com muito mais tempo de curral e observação que eu, como Fernando Cardoso, Osvaldo Garcia, Moacir Corsi, além de grandes pesquisadores como Fausto Pereira Lima, Kepler Euclides, Pedro Franklin, dentre outros técnicos que efetivamente foram agentes da aplicação de novas tecnologias, possibilitando um salto considerável nos índices produtivos da pecuária.

Depois de viver curtos 25 anos de campo, vejo com certa clareza alguns pontos que estrangulam o pecuarista e que poderiam ser melhorados no sentido de facilitar a vida daqueles que dependem da produção de carne bovina, na qual quero destacar a seguir alguns poucos que me tiram o sono e que me fazem parecer estar diante de um abantesma, pois são impossíveis de serem tocados, sendo algumas vezes quase irreais suas mudanças.

1 – Juro Zero no crédito pecuário, com prazo longo para a amortização – Sei que isso depende totalmente do momento o qual vive o País, mas tenho esperança que chegaremos lá assim que o Governo limitar os lucros bancários ou mesmo estimulá-los na isenção de impostos para que exerçam tal política. Sabemos bem que não é habitual ao pecuarista tradicional tomar dinheiro no banco como os agricultores fazem, mas com juros zero para custeio como reforma de pastagens e cercas ou mesmo para compra de equipamentos e matrizes, a pecuária daria um salto enorme.

2 – Recebimento de dividendos pela manutenção de APPs e reservas – De quem é a responsabilidade pelo cuidado das reservas mantidas nas fazendas? Se nosso Governo quer estimular os produtores a manterem áreas de reserva ou mesmo reflorestar novas áreas da propriedade, deve haver o pagamento de dividendos para isso, pois hoje a responsabilidade por perdas de matas através do fogo ou derrubadas clandestinas fica totalmente a cargo do pecuarista. Sei também que existem em algumas localidades projetos de pagamentos de dividendos para quem preserva áreas de nascentes e APPs, os quais devem nacionalmente ser institucionalizados para que possamos manter uma pecuária cada dia mais simbiótica com a natureza.

3 – Utilização consciente de promotores de crescimento na terminação – Outra incongruência que nosso País vive é a proibição indiscriminada de promotores de crescimento já exaustivamente pesquisados e que comprovadamente não deixam resíduos na carne quando respeitado o período de carência pré-abate, incrementando, conforme estudos, em até 15% a eficiência no ganho de peso da carcaça. Com a atual legislação vigente que prega a proibição total desses produtos, temos observado importação clandestina dos mesmos, em que, por vezes, o gado tratado é abatido antes do período de carência, fato muito pior que a liberação assistida.

Sabemos que o melhor seria termos confinamentos habilitados ao uso desses promotores, os quais se sabe que estariam fora da lista de fornecedores de carne à Europa ou mercados que não permitem o uso dos mesmos. Para tanto, nossa vigilância e fiscalização deveriam melhorar sobremaneira, pois, na atual conjuntura, a Anvisa e os órgãos fiscalizadores têm orçamentos limitados, impossibilitando novas contratações no setor.

4 – Precificação das carcaças de qualidade feita pelo pecuarista – O sonho de todo pecuarista é um dia ser acordado pelo comprador do frigorífico dizendo o seguinte: “Bom dia, hoje preciso de boi novo, pesado, bem terminado, castrado e com couro íntegro e pensei no senhor. Qual seu preço para me vender a boiada extra que sabemos que sempre tem?” E assim começava uma negociação sadia que estimulasse o pecuarista a criar bem, utilizando sempre a melhor genética, os melhores produtos de saúde animal e a suplementação mineral com arraçoamento adequado, a fim de conseguir o melhor boi do mercado, com preços que melhor retornassem os investimentos.

5 – Livres da aftosa finalmente – Quando nos veremos livres dessa injúria que nos aflige? Definitivamente, devemos ser responsáveis e vacinar nossos bovinos e não somente tirar nota de vacina e não aplicar no gado. Se fizermos nossa parte, esse sonho se tornará realidade em um período não muito longo. Mas, a meu ver, deveríamos receber essa vacina gratuitamente do Governo, sendo fiscalizados na seringa do curral, com a intenção de termos a certeza da aplicação correta da mesma.

Sonhos e realizações mudam com o tempo. Imagino os sonhos que nossos experientes pesquisadores citados anteriormente tiveram e viram realizados no decorrer de suas trajetórias. Eu mesmo já vivi realizações que achava quase impossível, como ver um boi ir para o abate com 11 meses e 250 kg de carcaça ou mesmo o manejo de até seis cabeças por hectare sem danificar os pastos. Que não faltem sonhos para sabermos que ainda temos motivos para aqui estar.