Na Varanda

 

Enxergando o sol atrás das nuvens...

Francisco Vila é economista, consultor internacional e diretor da Sociedade Rural Brasileira - vila@srb.org.br

Decisões são tomadas em função das nossas expectativas. E essas dependem dos cenários que nós extraímos do tsunami de informações desconexas que recebemos todos os dias. No momento, o vento sopra do lado pessimista. A rara coincidência de um cenário macroeconômico recessivo com um panorama de graves turbulências políticas engessa a mente empreendedora do produtor.

Em épocas de incertezas ou rupturas, a terapia adequada é afastar-se do barulho do momento para enxergar as chamadas megatendências. Ao mesmo tempo, convém olhar para o passado para analisar como situações semelhantes foram superadas. Na linha histórica, temos testemunhos em séculos anteriores que o mundo, diversas vezes, já mergulhou no abismo. Porém, sempre se reergueu das cinzas e construiu uma realidade mais próspera em um patamar tecnológico e social mais elevado.

No passado mais recente, passamos pelas crises do petróleo dos anos 1970, pela década perdida dos anos 1980, pelos choques das crises no final dos anos 1990, da bolha da Internet e, por último, da bolha dos créditos imobiliários. O mundo, e também o Brasil, estremeceu, mas voltou ao caminho do crescimento. Desta vez, porém, o cenário é mais complexo e não é apenas difícil enxergar uma luz no final do túnel como também muitos nem conseguem ver um túnel sequer.

Como isso se projeta em nossa atividade da carne bovina? Há dois anos, o analista mais experiente do mercado da pecuária fez uma exaustiva análise do cenário concluindo sua apresentação com uma frase curta e clara. Alexandre Mendonça de Barros defendeu: “Se tudo correr mal nos próximos cinco anos, a pecuária vai evoluir bem”. Naturalmente, ele não teve como prever nuvens tão pretas como aquelas que atualmente escurecem a nossa vista da Varanda. Todavia, em recente evento ele confirmou que, mesmo com uma tendência de baixa do consumo interno de carne vermelha, as perspectivas gerais para o setor continuam bastante positivas.

A China, com 6 kg/per capita, consome ainda muito pouco quando comparado com os 18 kg dos europeus, 35 kg dos brasileiros e 40 kg dos americanos, uruguaios e argentinos. Com a forte urbanização do gigante asiático e a notável elevação da renda das famílias na faixa costeira, é bem provável que o país consiga aumentar seu consumo em 1 kg ao longo dos próximos anos. Essa evolução já poderia absorver a totalidade das exportações brasileiras de carne bovina! A boa estratificação de mercados-alvos das vendas globais brasileiras assegura que focos regionais de problema pouco impactam na tendência de crescimento de 2 a 3% por ano das exportações.

Diferentemente de outros produtos como grãos, carnes de aves e de suínos, o boi a pasto encontra pouca concorrência fora da América Latina. A Austrália chegou ao limite da capacidade física, a África ainda não é competidora relevante, a Índia foca em mercados de baixa qualidade, com pouca capacidade de elevar o nível dos produtos e os americanos continuam importando mais carne vermelha do que exportam. A abertura recente dos Estados Unidos e da China para exportações brasileiras é prova de que existe uma demanda robusta para esse produto.

Observado isso, podemos concluir que estamos no País certo, no setor certo e no momento certo. Porém, existem desafios que precisam ser enfrentados. A situação macro pouco depende da nossa atuação. Só podemos esperar. Entretanto, devemos reinvestir os ganhos dos últimos anos para aumentar a oferta de animais de qualidade em condições sanitárias adequadas e com fornecimento regular dentro dos programas de fidelidade. O perfil da demanda, tanto interna como externa, passou a ser mais exigente e diversificado, o que exige sistemas produtivos cada vez mais alinhados.

Enquanto a sociedade como um todo acompanha com incompreensão e frustação a evolução no cenário político, a agropecuária pode e deve canalizar energias para o fortalecimento da competitividade. Já que, um dia, as coisas se acertarão, a pecuária de corte estará na pole position da retomada da economia brasileira como um dos principais fornecedores de carne para o mundo.


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