Na Varanda

 

O boi pode salvar o Planeta?

Francisco Vila é economista, consultor internacional e diretor da Sociedade Rural Brasileira vila@srb.org.br

Ultimamente, um vídeo das conferências TED* tem gerado muita discussão entre ambientalistas urbanos e especialistas do agro. Sempre quando uma verdade pétrea está sendo contestada, as ondas de emoção elevam o nível de ruído. Do que se trata?

Um produtor, ambientalista e cientista sul-africano com ampla realização de projetos de pesquisa do fenômeno da “desertificação” chegou à conclusão de que rebanhos concentrados de bovinos, ovinos e cabras, em vez de ameaçar a sustentabilidade de vastas regiões da terra, são exatamente o oposto. Quanto mais animais por hectare, maior e melhor é a recuperação da massa vegetal que cobre o solo.

Como bem lembramos, sempre nos criticaram que o boi é um devastador do equilíbrio da natureza e deixa rastros de destruição do ecossistema por onde passa. Durante milhares de anos, os nômades contribuíram para o empobrecimento das regiões por onde seus rebanhos pastejaram. Por isso, a pecuária foi proibida nos anos 1950 e 1960 nos grandes parques naturais da África, dando espaço à chamada wildlife. Todavia, isso levou à superpopulação de elefantes na Zimbábue, com o governo daquele país decretando a matança de 40.000 (!) animais dessa bela espécie. Porém, o objetivo dessa política de reduzir a pressão sobre a cobertura vegetal e acelerar o processo de rebrota de plantas naturais não foi atingido! Quanto menos elefantes, mais fraca foi a recuperação do pasto. Todos ficaram perplexos. Tanto fazia o que se fizesse, sempre piorava! O que fazer, então?

O cientista Allen Savory divide o globo em regiões com chuvas contínuas (nas quais o ciclo natural está garantido) e em enormes áreas com alteração de três a quatro meses de chuva e o resto do ano com seca. A fraca superfície vegetal desses bilhões de hectares não só não armazena a água mas também libera carbono e, assim, contribui para o aquecimento do clima.

No período da seca, a vegetação torna-se mais dura, motivo pelo qual historicamente os povos queimaram tocos e arbustos. Porém, isso empobrece o solo e acelera tanto a infiltração como a evaporação das chuvas torrenciais, que em nada contribuem para o fortalecimento da vegetação.

Perante esse duplo dilema do suposto overgrazing (superpastejo) e da queima e após décadas de estudos na África e nos EUA, Allen chegou a uma estranha conclusão. Não é o gado que destrói a vegetação. É o gado, devidamente manejado, que passa a ser o jardineiro do planeta. Como assim?

O pecuarista brasileiro que adota o sistema rotacionado de pastejo entenderá facilmente o segredo da inversão da lógica da experiência tradicional e a mudança do boi de “vilão” para “benfeitor” para o ambiente, ao equilíbrio climático e provedor de alimentos para vastas camadas de populações em países ainda pobres.

Não é o indivíduo do boi, mas sim o rebanho que ajuda a equilibrar o ciclo vegetal. Após a época das águas, animais com forte lotação reduzem a oferta de pasto, deixando fezes e urina como adubo e compactando o solo para facilitar a retenção de menor carga de chuvas posteriores, que pode ser armazenada na cobertura vegetal, nem infiltrando nem evaporando e, ao mesmo tempo, liberando carbono e reduzindo o efeito negativo do metano.

Trata-se de usar a observação das características do ciclo das plantas ao longo do ano na definição de um modelo holístico de manejo de pasto que atende as potencialidades e necessidades do solo, das plantas, dos animais e do ciclo climático. Movendo os rebanhos e aumentando ou reduzindo o gado conforme otimização do desenvolvimento e da rebrota das gramíneas é o segredo para manter a natureza em equilíbrio ativo e, ao mesmo tempo, produzir alimentos, influenciar o microclima (para pasto e agricultura) e o macroclima de regiões, países e continentes.

Uma vez que a fórmula parece simples demais, consultei diversos especialistas para saber se eventualmente se trata de uma simplificação de argumentos que não se concretizam na realidade. No entanto, atualmente, já estão geridos 1,2 milhão de hectares em cinco continentes com esse sistema integrado. O potencial de melhora existe em mais de 1 bilhão de hectares. Assim, será possível explorar os ecossistemas, preservar o ambiente, contribuir para a estabilização do clima, alimentar cada vez mais populações marginais e, por conseguinte, contribuir para a redução de guerras e ondas migratórias, como podemos observar nesse momento na Europa.

Será que não existe um senão em toda essa história? Talvez sim. Nos experimentos em diversos países com regiões áridas e semiáridas, verificou-se um aumento de até 400% de gado. No Brasil, trabalhamos com uma média de 1 animal por hectare, mas podemos chegar facilmente ao dobro. E muitos produtores já operam com mais de 3 UA/ha. Se, de repente, houver um surto de programas de recuperação de cobertura vegetal (para reduzir a tendência mundial de desertificação) na qual o gado seria a ferramenta para uma estratégia ambiental e social, poderíamos cair no outro extremo, ou seja, enfrentar uma sobreprodução de carne.

As previsões são de um crescimento anual médio de 3 a 4% da demanda mundial por carne bovina. Se, repentina e simultaneamente, em várias regiões do globo, agropecuaristas adotassem um sistema de manejo do tipo rotacionado, existiria o perigo de uma produção acima da taxa de crescimento da demanda. Um efeito negativo para as margens da atividade pecuária seria inevitável. Contudo, os especialistas acreditam que o processo da reversão da desertificação proposto pelo manejo holístico em regiões semiáridas será lento e não ameaçará os produtores que hoje abastecem o mercado.

*TED é a plataforma de uma organização internacional sem fins lucrativos dedicada à difusão de diferentes temas em rápidas videoconferências. Acompanhe a discussão citada no link:

http://www.youtube.com/watch?v=vpTHi7O66pI&sns=em