Raças - Hereford e Braford

 

HEREFORD E BRAFORD

Precocidade, fertilidade e velocidade de ganho de peso

Elder Amaro Filho

O Braford nasceu da necessidade atual de se criar eficientemente um produto uniforme em ambientes de produção específicos. Trabalhando com uma base de vacas Brahman e touros Hereford, Alto Adams Jr. iniciou o programa de cruzamento em seu rancho no município de Lucie, na Flórida, em 1947. Os bois resultantes e os bezerros nascidos de novilhas eram excelentes. Porém, os touros Hereford puros apresentavam problemas sérios nos pés e olhos que comprometiam a sobrevivência. Percebeu-se depressa que, usando touros Hereford que não eram adaptados para o Sul da Flórida, simplesmente não era possível seguir esse cruzamento. Então, começou-se a experimentar o uso de touros com vários graus de sangue Brahman-Hereford. Eventualmente, ele identificou touros que estavam produzindo bezerros que satisfaziam as necessidades básicas. Usou esses touros e sua descendência para formar o que é reconhecido como o Rebanho da Fundação da raça Braford nos Estados Unidos. Os Brafords são conhecidos por sua habilidade materna superior, puberdade precoce, muita fertilidade, parto fácil, ótima produção de leite, aptidão materna e longevidade produtiva. Isso distinguiu sua reputação. A raça Braford é aproximadamente 3/8 Brahman e 5/8 Hereford. No Brasil, o Braford surgiu dos experimentos coordenados pela Associação de Criadores de Hereford e a Embrapa-Bagé/RS, na década de 1980, e tornou-se raça bovina registrada no Ministério da Agricultura em 1993, tendo nos dias de hoje um grande nível de expansão pelo País. O Braford existe em todos os países de pecuária extensiva forte. É presença atuante na Austrália, Argentina, África do Sul, EUA e Brasil. Ao unir a precocidade, o temperamento dócil e a velocidade de ganho de peso do Hereford com a resistência, a rusticidade, a longevidade e o poder de conversão de alimentos grosseiros do Nelore, o objetivo foi alcançado; criar um biotipo animal de alta eficiência produtiva.

Witis Baes Rodrigues, médico-veterinário de Santa Vitória do Palmar, Rio Grande do Sul, desde 1999 atuando no Centro-Oeste (Campo Grande/ MS), é técnico da Associação Brasileira de Hereford e Braford (ABHB) desde o ano de 2000 e assiste a quatro grupos de fazendas pela ABHB. Um com quatro estabelecimentos no Paraguai, outro com duas fazendas no MS, três no MT e mais um com quatro no MS. O técnico lembra que todo o trabalho é focado no manejo reprodutivo, principalmente IATF. Witis afirma utilizar 100% de sêmen de taurinos britânicos no processo de inseminação artificial adotado pelos estabelecimentos, mais especificamente o Hereford.

“Nos trabalhos de registro, atendo três fazendas no MT, Centro-América e Lagoa Encantada e La Aurora, em Campos de Julio. Presto serviços, também, em fazendas no MS, Fazenda Engano e Morada da Lua, e duas em São Paulo, Prata Agropecuária e Fazenda Nova”, informa o técnico. Segundo Witis, o foco do trabalho com genética Hereford e Braford no Centro-Oeste não é muito o de procurar formar plantéis, visando produzir e vender touros puros. “Temos muito pouco trabalho de registros e clientes com plantel. O que a maioria busca é ganho na produção de carne”, afirma.

Braford leva a qualidade do Hereford ao Brasil Central

Hoje a procura pelas duas raças é fato consumado. O Hereford para IATF e Braford para monta natural, no cruzamento industrial. Atualmente, as raças Hereford e Braford são as que mais crescem proporcionalmente em volume de vendas de sêmen e utilização, conforme dados da Asbia, no Centro-Oeste brasileiro. Tem se aberto um mercado interessante no uso do Braford para usar sobre as F1 Angus. Com a falta de matrizes no mercado, as F1 que até então eram produzidas para o abate estão sendo retidas, abrindo espaço para a inseminação com Braford ou monta Natural.

A IATF foi outra ferramenta fundamental que fez com que a genética Hereford se disseminasse no país através dos produtos de cruzamentos. Essas técnicas, aliadas a todo o esforço que a ABHB vem buscando oferecer aos produtos através dos programas de fomento de carne, só vêm a agregar e incentivar, cada dia mais, novos produtores a utilizar o Hereford e o Braford. “É o que eu sempre digo, faça o teste, compre algumas doses, compre alguns touros, use e depois conversamos. E o resultado é exatamente esse que temos visto e acompanhado”, lembra Witis. Há um interesse cada vez maior por esses animais. Essas raças se garantem. Temos que ir devagar, disseminando animais altamente adaptados e que produzam em todas as condições exigidas, seja 40 graus no Chaco paraguaio, na seca do MT ou no alagadiço do pantanal. Esse é o desafio”, afirma o especialista. Atualmente, há pouca oferta de touros no Centro-Oeste e no Sudeste. Há um leilão da Cabanha Pitangueira, em Rondonopolis, no MT, um da Fazenda Nova, em Aracatuba/SP, um da Prata Agropecuaria, em Presidente Prudente/ SP, e um da Sucupira, em Brasília/ DF. O restante da oferta é negociada na porteira.

Dentre as principais características que têm levado os criadores a escolherem o sangue Hereford e Braford estão o maior tamanho de carcaça, mais facilidade de acabamento pela gordura subcutânea e a mansidão. Essas características resultam em ótima adaptação ao período de pré-confinamento e trato, saindo na frente de outras raças, quando se fala em boi terminado no confinamento.

A ABHB é única entidade delegada pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) para o registro genealógico da raça Braford, quem afirma é a superintendente de registro genealógico da entidade, Zilah M. G. Cheuiche, médica-veterinária. “A marca é resultado do processo de certificação racial, que inicia com as informações de cobertura e nascimento prestadas pelo criador, passando pelo processamento e análise dos dados no setor de registros até a avaliação fenotípica dos inspetores técnicos a campo”, ressalta Zilah Cheuiche. É importante lembrar que a ABHB foi a primeira entidade a exigir confirmação de fertilidade de seus reprodutores machos e fêmeas que recebem registro definitivo, uma garantia de qualidade para o produtor que investe nas raças Hereford e Braford.

Uma das metas de Luciano Sperotto é a manutenção da qualidade zootécnica dos touros Hereford PO e PC

“Nem toda cruza de Hereford com Zebuíno é Braford”, lembra a superintendente. Portanto, não se engane: o legítimo Braford leva a marca da ABHB na paleta esquerda. A certificação racial agrega valor ao rebanho e é sinônimo de qualidade, produtividade e de bons negócios.

Base britânica da raça Braford, o gado Hereford possui temperamento dócil e de fácil manejo humano. São animais de constituição harmoniosa e bem constituída. Por se adaptarem em ambientes diversos, apresentam boa fertilidade, grande habilidade materna e altos índices de repetição de prenhez. São animais precoces e eficientes a pasto ou confinamento, com terminação excelente, produzindo carcaças de tamanho adequado à demanda industrial. Sua inegável qualidade após muitos anos de seleção genética torna a raça muito presente nos cruzamentos em gado de corte.

O cruzamento com Hereford pode contribuir de forma significativa para o melhoramento genético do rebanho, aumentando os índices produtivos e reprodutivos. Diversos trabalhos de pesquisa confirmaram o bom desempenho dos produtos desses cruzamentos, quando comparados com outras raças. O trabalho publicado em 2010 pelo pesquisador Fernando Cardoso, da Embrapa Pecuária Sul, mostrou que o cruzamento de Hereford com Nelore proporcionou maior ganho de peso pós desmama e aos 18 meses, além de 15 kg a mais de peso da carcaça quente e 30 dias a menos na terminação, quando comparados a cruzamentos com outras raças. A cara branca, característica racial marcante do Hereford, normalmente se expressa nas cruzas. Quem conhece sabe que o gado de cara branca pode proporcionar qualidade no cruzamento industrial e altos rendimentos para o produtor. Segundo Guilherme Duarte, presidente do Núcleo de Criadores de Hereford e Braford da Fronteira Oeste, com sede em Uruguaiana, Rio Grande do Sul, a demanda pelo Hereford está aquecida. O dirigente e criador da raça lembra que a procura por touros e fêmeas PO, tanto Hereford como Polled Hereford, é impressionante. Duarte acredita que o mercado possa não ter como ser atendido devido à tamanha procura. “Quem produziu touros Hereford vendou todos e ainda recebe telefonemas, principalmente dos mercados catarinense e paranaense, à procura de exemplares”, afirma.

Caminhos futuros

Sendo o Brasil tão importante economicamente no setor carne, com o maior rebanho bovino comercial do mundo, a força das raças zebuínas concentrou por muito tempo a atenção e os cuidado de criadores e das autoridades, tanto políticas quanto científicas, com universidades e autarquias oficiais dedicadas a encontrar soluções de continuidade para o grosso do rebanho brasileiro. Com isso tivemos, por muito tempo, uma desatenção para o que se criava no Rio Grande do Sul, o estado mais europeu do Brasil. Hoje, quando o comércio de carne exige qualidade – o que não significa, absolutamente, quantidade – surge o Sul como solução para o maior problema da criação brasileira: a falta de qualidade. E surge através da forçosa necessidade de fazerem-se cruzamentos das “vacas brancas” com as principais raças britânicas que o Rio Grande do Sul oferece com tradição de longa data. Embora a Aberdeen Angus tenha saltado na frente para agredir o mercado de sêmen e de reprodutores do Brasil Central, é a raça Hereford que vem conquistando mais e melhores espaços em um crescimento impressionante nos últimos anos. Muitas vezes com animais puros de pedigree ao invés de cruzados. Quem sabe pela simpatia dos criadores em resultado da beleza dos animais, mas, certamente, pela aprovação dos produtos que aportam os frigoríficos. A Cabanha Touro Passo, por exemplo, importante criatório de Hereford, propriedade localizada em Uruguaiana/ RS, tem produtos oriundos de sua genética do RS, PR, SC, MT, GO até o Sul da Bahia. Luciano Augusto Sperotto Terra, presidente recém-empossado na Associação Brasileira de Hereford e Braford, entende que sua gestão não se trata de uma empreitada e sim de um privilégio. “Estar à frente de uma entidade que representa parte tão importante do agronegócio brasileiro é uma honra”, ressaltou. Luciano refere-se ao cargo como uma extensão de sua atividade. O presidente lembra que o trabalho a ser feito, principalmente depois de uma gestão exitosa por parte de Fernando Lopa, presidente que o antecedeu, é de muita cumplicidade com as raças Hereford e Braford, com os associados e com aqueles que utilizam a genética das raças. O dirigente informa que manteve a base da diretoria anterior e acredita que os colaboradores são conhecedores do que a ABHB procura e necessita. Quanto às ações que já existiam, Luciano Sperotto dá a entender que as mesmas já eram determinadas pelos produtores e associados, portanto, serão mantidas. Sua principal preocupação e aspiração é de que cada diretor tenha autonomia, como se presidentes fossem, para determinar ações futuras. “Afinal de contas, todos seremos e temos condições para isso, de ser o próximo presidente”, lembrou. Não há por que o presidente impor situações ou medidas, somos uma entidade que busca melhorias e incremento às duas raças, Hereford e Braford, ressaltou. Sperotto foi enfático de que a maior preocupação atual, quanto à procura por touros Hereford, PO e PC, é a manutenção da qualidade zootécnica dos animais. Ele acredita que quando existe uma demanda muito grande, o foco deve estar na “marca H”, para que não exista demérito genético. Afirma que a curva ascendente do uso de genética Hereford não se resume ao Brasil Central: “Se olhares as invernadas do Rio Grande, veremos terneiradas de cara branca bastante expressivas e com qualidade superior”, lembrou. O dirigente fez questão de ressaltar a importância da marca, pois, segundo ele, ter a cara branca ou a careta não determina a qualidade: “Há de ter o ‘H’ ou o ‘B’ no couro. Isso é uma garantia de origem e qualidade”, enfatizou. O presidente da ABHB comentou que em qualquer raça a marca que define a origem é importante. “Um animal superior e melhorador é identificado por essa marca a fogo”, resume.

A Carne Pampa chega ao prato dos consumidores com qualidade diferenciada

Expansão no Centro-Oeste

Um case de sucesso formou-se entre as cabanhas Santa Ana, de Uruguaiana, e Luz de São João, de São Gabriel, ambas do Rio Grande do Sul, que produzem e comercializam genética Braford há mais de duas décadas. São produzidos touros, ventres e embriões para atender a demanda do Rio Grande do Sul e estados do Brasil Central como Minas Gerais, Distrito Federal, Bahia, Goiás, Mato Grosso do Sul, Tocantins, Mato Grosso, além da Região Norte através do estado do Pará.

Participam anualmente das principais feiras de pecuária, levando seus animais rústicos e de galpão. Mostras dos Núcleos Regionais do Rio Grande do Sul, ExpoNacional do Hereford e Braford, Expointer, de Esteio; e ultimamente a AgroBrasília (Exposição Internacional dos Cerrados).

Foi organizado um corpo técnico que pudesse atender as demandas de ações visando as necessidades do dia a dia, tanto na seleção genética, aspectos zootécnicos, manejo reprodutivo, manejo alimentar e suporte forrageiro. Os médicos-veterinários José Puig Saldanha, Bárbara Pires e Thiago Sommer, os zootecnistas Everton Astrana Cafarate e Bhernardo Ceccon, e o engenheiro-agrônomo Marco Antônio Bittencourt formam a equipe de trabalho nas propriedades.

As duas empresas gaúchas, Santa Ana e Luz de São João, também participam do “Brazilian Hereford & Braford” (BHB), que é um projeto exportador fomentado pela Apex Brasil. Com isso, desde 2010 participam de eventos e feiras internacionais, sempre difundindo e comercializando genética Braford. Suas ações abrangem diversos países da América do Sul, como Argentina, Uruguai, Paraguai, Bolívia e Colômbia.

No início do ano de 2013, as duas cabanhas estabeleceram uma aliança cujo objetivo foi o de buscar desenvolver ações de forma a atuar no Brasil Central.

Inicialmente, atuaram na região do Sertão Norte de Minas Gerais, no município de Butitis, onde está localizada a Fazenda Sucupira, da família Cenci (Fátima, Henrique e Ademir). Para lá, foram enviados tourinhos com idade de 12 meses para serem adaptados à região. Ao mesmo tempo, foram implantados 800 embriões. Após a primeira fase do projeto, foi realizado o 1º Leilão Braford Tropical – Genética Adaptada, em maio/2015, na Agro- Brasília, com sucesso de público e de vendas, onde foram comercializados 45 touros com média recorde de R$ 14.000,00 por animal.

Foi estabelecida uma parceria com a empresa paulista Cabanha Santa Agatha (CSA), de Pompeia/SP, de propriedade de Miguel Calmon Marata. Neste projeto, ficou estabelecido o implante de embriões da raça Braford, com o intuito de formarem um plantel para comercialização de genética naquela região.

Estabeleceram também uma parceria com a empresa Genética La Aurora, do Grupo Spraytec, com fazenda na cidade de Campos de Julio/MT. Para lá, foram enviados em julho de 2015 os primeiros tourinhos com idade de nove e de 15 meses para serem adaptados. Paralelamente, foram enviados 300 embriões Braford que foram implantados em receptoras daquela fazenda. O planejamento já está feito e o objetivo a ser atingido inicialmente é o de realizarem o 1º Leilão Visionários do Centro-Oeste (La Aurora/Santa Ana/Luz de São João), dia 9 de julho de 2016.

A última parceria feita foi com a Fazenda Mutuca, de Camapuã/MS, de Delano de Oliveira Huber e irmãos, onde o objetivo é o de implantarem, na primeira fase, 200 embriões Braford e formarem o primeiro plantel da raça naquela propriedade e lá organizarem um futuro leilão da raça para 2018.

Com essas ações e parcerias fora do estado do Rio Grande do Sul, as comercializações passaram a representar hoje 40% do faturamento bruto na venda de genética das duas empresas parceiras.

As carnes das raças Hereford e Braford são procuradas e disputadas no mercado nacional e internacional pela qualidade, pela maciez e pelo sabor. Logo, os consumidores exigentes procuram essas carnes nas mais diversas redes de supermercados e churrascarias.

Hereford nasceu em meio à necessidade de se produzir alimentos em grande escala pós-Revolução Industrial

Com isso, a raça Braford encontrou espaço no Brasil Central. Através dela é possível a produção dessa carne de qualidade. Os animais se adaptam perfeitamente, agregando a rusticidade do Nelore, com a qualidade e precocidade da raça Hereford e Braford.

Além do mais, é uma atividade sistêmica, onde haverá uma cadeia de interesses e beneficiados, tanto por parte do criador, como dos frigoríficos e butiques de carne, além dos consumidores finais. Todos terão os seus interesses e saberão valorizar o produto final, que tem um grande valor agregado.

Na mesma tocada, a Agropecuária Odair González, atuante na Fronteira Oeste do Rio Grande do Sul, ligada ao Braford desde seu desenvolvimento, tem na pessoa de Miguel González, titular da Estância São Miguel, um dos participantes do grupo que concebeu a raça Braford no Brasil. González conta que a propriedade sempre contou com uma base Hereford bastante consistente. Na década de 1960, o estabelecimento iniciou a inseminação artificial com touros americanos de alta linhagem. Nessa mesma década, o senhor Odair González adquiriu um touro Nelore de um comerciante que se aventurara com esses zebuínos nos Pampas gaúchos, sabidamente, já à época, terra de taurinos britânicos. “A novidade foi tanta que até o grupo de 30 vacas Hereford, velhas, diga-se de passagem, que foram postas para que o touro trabalhasse, disparavam como o diabo da cruz do coitado”, lembrou González. Passados nove meses, para surpresa de todos, mesmo com os relatos do capataz que davam conta de que não vira o dito cujo trabalhar, foram avistados vários terneiros de pelagem brasina no potreiro destinado ao reprodutor. “Eram excelentes animais. Nós fomos ficando com os brasinos”, relata González. Segundo o produtor, houve necessidade de adaptar o manejo com os animais dado o seu temperamento bastante mais ativo do que o Hereford. Eliminaram-se os cães, entre outras coisas, nos trabalhos de mangueira, por exemplo. Quando o número destes animais já era expressivo, surge uma ideia no Núcleo de Hereford, em Uruguaiana, de se desenvolver uma nova raça, aproveitando-se esse cruzamento. “Tratava-se de um gado maior, adaptado aos campos da região que sabidamente são fracos”, lembrou. Reunidos vários criadores que já tinham o meio-sangue oriundo desse cruzamento com o Nelore, ficou estabelecido que se desenvolveria uma nova raça. O zootecnista escolhido para coordenar os trabalhos foi o Dr. Pedro Genro Surreaux. Reunido o grupo, foi escolhido o nome de Pampeano para a nova raça. Quando já bastante desenvolvido o criatório, houve uma sugestão que atenderia interesses comerciais: renomear a raça para Braford. Unificando, assim, os mercados que já produziam esses animais. A característica maior do Braford brasileiro é a base Nelore, pois os demais criatórios, em via de regra, são de base Brahman. O trabalho desenvolvido, mesmo com comentários reticentes à época, nos brindou com este animal maravilhoso e com uma pelagem característica, chamada camiseta, comentou González. “Os cruzamentos sempre nos respondem com um vigor híbrido importante. O Braford, raça a qual estou intimamente ligado, deve ser preservada em suas características. Evitemos prepúcios baixos e tenhamos cuidado com a pigmentação, precocidade, cortes interessantes e fertilidade”, afirmou.


Benjamin Tompkins

Por Gustavo Isaacsson*

Na vida, é preciso ter memória e tudo o que construímos de genética melhorada constantemente na raça Hereford devemos a este cidadão inglês e seu filho, Benjamin Tompkins, o homem que iniciou e selecionou o Hereford nos idos de 1740, no condado de Herefordshire, Inglaterra.

Toda a fabulosa evolução dos «caras brancas” iniciou com ele, que caprichosamente foi orientando e anotando os cruzamentos, iniciando, assim, a história da raça mais cosmopolita do planeta, com distribuição nos ambientes mais diversos e provando a eficiência na produção de carne nobre e de qualidade, apreciada nos mais requintados restaurantes e comercializada com a garantia de excelência. Com um temperamento muito manso, extremamente precoce, iniciando a reproduzir a partir dos dois anos de forma muito eficiente, o Hereford tem sido matéria- -prima de alta qualidade e base genética importante em cruzamentos. Contribuiu de maneira magnífica na formação do Braford, transmitindo qualidades e atributos produtivos combinados em uma raça sintética que também desbrava terreno em produção de carne.

Com um fenótipo marcado e inconfundível, cara branca, ventre branco, peito branco e um nobre manto vermelho cobrindo o lombo e laterais, torna- -se único e maravilhoso, unindo a beleza e a nobreza com a eficiência em produção. No Brasil, seu momento é importante e crescente, controlado e orientado em sua produção pela Associação Brasileira de Hereford e Braford (ABHB), participa ativamente em programas de carne, exposições e mostras em que são selecionados e classificados, orientando os destinos de continuidade e preservação corretos do Hereford.

Desde os tempos imemoráveis, o gado de Herefordshire e outras comarcas adjacentes tem sido famoso por seu tamanho, resistência e aptidão carniceira. Essa raça foi fundada a partir de um tipo que predominava em Hereford durante séculos. Já em 1627, mencionava-se a existência dessa raça.

Baseando-se em dados um tanto escassos, conta- -se que o gado Holandês trazido de Dunquerque para a propriedade do Lord Scudamore, provavelmente, tenha conferido ao Hereford tamanho e cor branca na cara e região abdominal, indicando, assim, a analogia que existe entre o Hereford e a raça Groningen.

Um estudo feito recentemente pelo Departamento de Genética do Trinity College, Dublin, Irlanda, com uso de marcadores genéticos para estudo do DNA, verificou os valores entre a distância genética de sete raças, entre as quais estão Aberdeen Angus, Jersey, Hereford, Charolês, Holandês, Simental e N’Dama. Verificou-se que a raça Hereford tinha maior afinidade genética com a raça Holandesa do que com as outras duas raças britânicas, mostrando, portanto, que a raça Hereford tem um passado em comum com as raças dessa região da Europa.

Os fazendeiros de Herefordshire estavam determinados a produzir carne expandindo o mercado de comida criado pelos britânicos na Revolução Industrial. Para o sucesso desses primeiros criadores, eles tinham bovinos os quais poderiam converter a grama nativa em carne, e isso tudo com lucro.

Nessa época, não existiam raças que fornecessem tais necessidades, tanto que os fazendeiros de Herefordshire encontraram uma raça de carne que logicamente tornou-se conhecida como Hereford. Esses primeiros criadores moldaram o gado com a ideia de uma raça de alta produção de carne e eficiência produtiva e firmaram as características até hoje existentes.

Independentemente de sua origem, a raça já se encontrava estabelecida em 1788, quando escreveu- -se que “a raça Hereford era, sem sombra de dúvidas, a primeira das Ilhas Britânicas”. Consequentemente, é inaceitável que ainda se desconheça a origem. O moderno Hereford descende de animais de mérito inquestionável e com uma notável resistência a enfermidades.

Iniciando em 1742, com um terneiro de uma vaca cinza e duas vacas, Benjamin Tomkins, o pai, é creditado ser o fundador da raça. Isso ocorreu 18 anos após Robert Bakewell ter iniciado o desenvolvimento de teorias sobre cruzamentos animais. Desde o início, Tomkins tinha como objetivo a economia na alimentação, aptidão natural para crescer e ganhar peso em pasto ou a partir de grãos, rusticidade, precocidade e prolificidade, características que ainda são de primeira importância. Outros criadores pioneiros seguiram Tomkins, levando e estabelecendo o gado de Herefordshire, renomado mundialmente.

Os Tomkins iniciaram um número considerável de cruzamentos de consanguinidade, devido ao fato de que eles mesmos criavam e utilizavam seus touros, sendo o único critério qualitativo que os guiava à rapidez de apronte e produção de carne.

A maior parte dos demais criadores de Hereford daquela época não se interessava por características de pelagem, que eram menos importantes. Depois, quando estavam suficientemente fixadas as características funcionais, estabeleceu-se uma controvérsia sobre o padrão de pelagem e marcas ideais que a raça deveria adotar como típica. No início do século XIX, eram preferidos animais com quatro pelagens básicas; vermelha de cara branca, vermelha com cara salpicada, cinza clara e prateado.

Gradualmente, os partidários das duas primeiras pelagens impulsionaram o seu uso sobre as outras duas. Uma vez adotada essa combinação de cores, foi implantada por seleção e cruzamentos consanguíneos até que o vermelho e o branco foram considerados como «marca de pureza» do Hereford.

O gado Hereford da Inglaterra do final de 1700 e início de 1800 era muito maior do que hoje. Muitos animais adultos daqueles dias pesavam 1.350 kg ou mais. Cotmore, um touro ganhador de várias exposições e notável padreador da época, pesou 1.770 kg quando foi exposto em 1839. Gradualmente, o tipo e a conformação mudaram para um peso e tamanho menos extremados para conseguir mais qualidade e eficiência.

*Gustavo Isaacsson é médico-veterinário e Técnico Sênior da ABHB