Na Varanda

 

A tecnologia e a ética

Francisco Vila é economista, consultor internacional e diretor da Sociedade Rural Brasileira
vila@srb.org.br

A atual situação política e econômica faz com que frequentemente nos indaguemos sobre como podem e devem ser organizadas as convivências das pessoas em seus diversos ambientes de família, trabalho e vida pública. Estamos perplexos sobre como as coisas saíram do controle da sociedade. E quais os ensinamentos devemos passar para os nossos filhos?

Em uma abordagem mais proativa desse fenômeno difuso, podemos tentar encontrar um caminho dentro da realidade do nosso negócio da pecuária. A produção bovina é uma das mais complexas atividades da economia. Ela envolve solo, plantas, animais, clima, máquinas e pessoas. Cada elemento com características, ritmos e riscos distintos. Assim, é natural que a geração de um produto padronizado torne-se bastante difícil. No entanto, na época de mercadorias certificadas com garantia e direito à devolução de objetos com defeitos, a exigência de fornecer um “boi padrão” para a indústria de transformação passou a ser condição indispensável. As tecnologias, ferramentas e conceitos de gestão já disponíveis abrem o caminho para uma nova realidade de produção. Como referência, serve o exemplo de uma fazenda leiteira na França que opera de forma totalmente automatizada, ou seja, sem envolvimento de mãos humanas no manejo alimentar e na ordenha.

Já aplicamos tecnologia de comunicação interativa com os animais no pasto através de implantes, bem como controles de manejo através de drones, o novo e mais perfeito “olho do dono”. O programa do varejo “Garantia 100% de Qualidade desde a Origem” indica o controle total do processo desde o sêmen certificado até o transporte da fazenda para o frigorífico monitorado eletronicamente.

O que isso tem a ver com a nova moral da sociedade? A ética é o conjunto das regras de convivência dos humanos em determinadas épocas e regiões geográficas. Por isso, as regras, os mecanismos de controle e a punição variam conforme o momento e o local. Uns não devem consumir carne suína, mas a maioria pode. Em algumas nações, o ato de roubar resulta na amputação da mão; em outras, as punições são mais brandas. A expectativa do cumprimento das regras é o fundamento para o funcionamento da ética. Conhecimento das normas, monitoramento do cumprimento e punição adequada para o desvio do combinado constituem as ferramentas de funcionamento dos bons costumes. Com isso, chegamos à ligação entre a ética, a tecnologia e a pecuária competitiva.

O consumidor exige e paga pela entrega de um produto conforme padrão estabelecido. A total rastreabilidade desde o caixa do supermercado até o CAR da fazenda produtora permite identificar falhas em qualquer uma das dezenas de etapas de transformação de sêmen em bife embalado a vácuo e com data de vencimento na gôndola. Detectores de metal no final da mesa de desossa são tão importantes como registros de velocidade das carretas de boi ou da temperatura nos caminhões de entrega de carne para identificar eventuais falhas na cadeia de produção.

Assim, certificação e rastreamento são ferramentas disciplinadoras que permitem ao consumidor aceitar ou rejeitar a mercadoria. Com isso, todos necessariamente obedecerão ao rito da transparência que, ao mesmo tempo, é um alavancador de eficiência. Existe punição, pois o responsável por eventuais erros, seja na indústria de insumos, na fazenda, no transporte, no frigorífico ou no varejo, pode ser claramente identificado. A punição consiste na devolução do produto, acarreta em prejuízo pelo causador do defeito ou, no caso de reincidência, exclusão do fornecedor da cadeia da carne. O varejo já tem regras muito claras para a seleção e fidelização.

Constatamos, assim, uma função adicional do progresso tecnológico. As novas ferramentas não apenas melhoram a performance técnica e econômica dos elos da cadeia - elas disciplinam o setor como um todo. Quem não opera conforme as regras sairá do mercado. E isso pode ser chamado de “a nova ética na produção bovina”.

Por enquanto, estamos no início do processo. Porém, a velocidade do progresso nos sistemas de informação, inclusive a função de vigilância das redes sociais, indica que dentro de poucos anos a padronização passará a ser a rotina, mesmo em um setor tão complexo como o da produção de carne bovina.

A transformação da agropecuária da pessoa física na empresa rural com controles financeiros e contábeis é apenas mais um indicador para o controle e a consequente atitude mais ética em nosso segmento. E, olhando da Varanda para o futuro, o que vale para a produção de alimentos está se repetindo em todos os outros setores também. Ou seja, o avanço tecnológico aumenta a transparência e essa, por sua vez, disciplina o comportamento das pessoas. Eis a nova ética do século da comunicação total.