Especial IATF

 

A MAGIA da multiplicação

Programa de inseminação artificial em tempo fixo já movimenta a incrível cifra de R$ 2 bilhões por ano

Beth Melo

Apesar de toda a evolução tecnológica ocorrida nos últimos anos, somente 10% do rebanho brasileiro é inseminado, o que reflete o baixo nível tecnológico da pecuária. Para melhorar esse índice, o planejamento do programa reprodutivo pressupõe o gerenciamento do rebanho de matrizes que vão receber o sêmen, o que inclui, entre outros aspectos, a separação dos animais por categoria (vacas paridas e novilhas) e a avaliação do manejo nutricional, sanitário e reprodutivo das fêmeas. Antes de definir um programa de reprodução, seja inseminação artificial convencional (IA) ou a inseminação artificial em tempo fixo (IATF), o médico-veterinário Pietro Sampaio Baruselli, professor da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (FMVZ/USP), recomenda atenção especial à sanidade e orienta o produtor a realizar avaliações sorológicas para doenças que interfiram na fertilidade, como brucelose, leptospirose e tuberculose, assim como fazer o tratamento ou descarte das fêmeas acometidas. Também aponta a necessidade de estabelecer um calendário sanitário de vacinações contra doenças reprodutivas que causam aborto (além das citadas anteriormente, rinotraqueíte infecciosa bovina – IBR – e diarreia viral bovina – BVD).

Baruselli afirma que existe uma relação direta entre nutrição e prenhez e chama a atenção para a exigência nutricional das fêmeas, em especial as primíparas, que ainda estão em desenvolvimento e só param de crescer na segunda prenhez, razão pela qual precisam de adequação dos pastos para garantir alimento de alta qualidade, de mineralização e até mesmo de suplementação, caso necessário, para evitar perdas de concepção. “A lotação também deve ser bem controlada em função da oferta de pastagens e da qualidade da terra e dos nutrientes”, comenta e prossegue: “quando a gente faz as correções necessárias, a vaca responde bem, com prenhez.”

Embora não sejam tão exigentes quanto as primíparas, as multíparas também precisam de cuidados em relação à alimentação. De qualquer forma, ele diz que as matrizes devem estar com escore corporal (que mede o acúmulo de gordura subcutânea e reflete a condição nutricional) ao redor de 3, em uma escala de 1 a 5.

Outra exigência, na visão do professor, é com relação à reciclagem e à qualificação de profissionais para esse mercado que tem grande demanda. "Cursos realizados pelo Brasil todo, pelas centrais de inseminação, por empresas do setor de reprodução animal e órgãos públicos estão aptos a formar pessoas capacitadas na função”, garante.

O professor também recomenda a definição da estação de monta, de 90 dias, de preferência, entre outubro e fevereiro, em função das chuvas e da maior oferta de pastagens e alimentos. “Com a organização da fazenda, de forma programada, temos épocas sincronizadas para realizar a monta, cuidar da cria e a desmama, além de facilitar a comercialização da bezerrada”, salienta Baruselli, que considera o fim da seca a melhor época para parição pela questão sanitária do bezerro. Além disso, explica, quando se define a mesma época de cobertura, nascimento e desmama, formam-se lotes contemporâneos, a vaca fica mais fértil, pare bem e desmama bezerros que crescem mais pesados, otimizando a seleção das matrizes, a produtividade do plantel e a mão de obra da fazenda.

No caso de propriedades que não têm a estação de monta definida, a recomendação do professor da USP é começar com um período mais longo e, depois, encurtar até chegar ao ideal, por volta de três meses.

O grande gargalo da reprodução, na avaliação de Baruselli, é o atraso na concepção da vaca, que retarda o parto no ano seguinte e pode dificultar a reconcepção na próxima temporada. “Mesmo com o touro, a gente observa o atraso após o parto, além do que o anestro é mais intenso em vacas de corte e o touro só emprenha vaca ovulando”.

PROTOCOLO
Segundo o professor Baruselli, a utilização do protocolo de IATF, de forma correta, possibilita a ovulação no momento adequado. “É uma sequência de procedimentos para se obter êxito”, resume e acrescenta que todos os protocolos disponíveis no mercado são bons e representam o resultado de 20 anos de pesquisa e validação a campo. “Chegamos a um alto nível de conhecimento em programas de sincronização para IATF, inclusive levando em conta o rebanho brasileiro, a maioria formado por zebuínos. Temos procedimentos bem conhecidos, com o aval da comunidade científica, consolidados, que funcionam muito bem. O importante não é uma pequena variação entre os protocolos de sincronização para IATF e, sim, usar a inseminação em larga escala para o melhoramento genético do rebanho brasileiro”, enfatiza.

Márcio Nery lembra que o custo da IATF varia em função dos serviços veterinários e da logística de deslocamento

Além da ovulação sincronizada para a realização da IATF e repasse de touros, após 10 dias, para as vacas que não ficaram prenhes, outra opção, de acordo com o professor da USP, é a realização de três protocolos de IATF: o primeiro, cerca de 40 dias após o parto, e o segundo, com intervalo de 22 a 30 dias do primeiro, após diagnóstico de gestação por ultrassom, assim como o terceiro. O resultado, nesse caso, é 50% de prenhezes por IATF, o que representa 87% de prenhezes no final do programa reprodutivo com ressincronização.

Segundo Baruselli, na IATF, os custos por vaca inseminada variam de R$ 45 a R$ 60 e incluem o protocolo, a aquisição do sêmen e os serviços do veterinário, sendo aproximadamente um terço para cada. “Estudo realizado na USP, considerando os custos operacionais, mostrou que cada 100 vacas submetidas a uma IATF seguida de repasse com quatro touros até o final da estação de monta representam um ganho econômico de 25% em relação à monta natural”, calcula.

Já na inseminação artificial convencional, a eficiência reprodutiva é baixa, em comparação com a IATF e com a monta natural, por causa da dificuldade de detecção do cio, o que resulta em diminuição do número de fêmeas inseminadas e atraso na concepção, podendo comprometer as próximas estações de monta. Ainda segundo estudo da USP, o índice de prenhez na IATF é de 50% no primeiro dia da estação de monta. “Após essa IATF, o criador pode optar pelo repasse das vacas vazias com touros, os quais permanecem até o final da estação de monta ou com a ressincronização do cio, repetindo três protocolos de IATF, eliminando a necessidade de touros na propriedade”, diz o professor da USP.

Com o manejo de uma IATF, seguida de repasse com touros, são obtidos 80% de taxa de prenhez ao final da estação de monta. Já com o manejo de ressincronização com três protocolos de IATF, a taxa de prenhez ao final da estação de monta é 87%, demonstrando a viabilidade do programa reprodutivo com ressincronização, de acordo com o estudo.

Quanto ao sêmen sexado, Baruselli conta que a USP tem parceria com a empresa que comercializa o produto no Brasil e há cerca de dez anos vem realizando pesquisas para ajustar o momento mais adequado para realizar a inseminação com esse material genético especial. “Com os ajustes dos processos atuais de produção, estamos conseguindo taxas de prenhez semelhantes à IATF, de 40% a 45%, o que representa 80% a 90% quando comparadas às obtidas no sêmen convencional”, conta, sendo que 90% dos nascimentos são do sexo desejado. “Para a reprodução de matrizes, utilizamos sêmen sexado de alta habilidade materna, e para os machos, sexado para alto ganho de peso”, ilustra.

MERCADO
Segundo o Index da Associação Brasileira de Inseminação Artificial (Asbia), em 2014, o mercado de inseminação artificial comercializou 13,2 milhões de doses de sêmen, sendo 8,2 milhões para corte e 4,9 milhões para leite. Pelos cálculos da entidade, pelo menos 70% do sêmen comercializado são utilizados em protocolos de IAFT.

“A qualidade e o desempenho reprodutivo e produtivo no Brasil deram um salto com o casamento definitivo da IA (e IATF) e o melhoramento genético, proporcionando maior produção de carne de alta qualidade por hectare. No entanto, possui um percentual ainda baixo, comparado ao processo de monta natural”, afirma Márcio Nery Magalhães Junior, diretor-tesoureiro da Asbia.

O professor Pietro Baruselli calcula que a IATF representa 90% das inseminações do gado de corte e 50% no leite. Segundo ele, dados da indústria farmacêutica veterinária, de 2015, indicam que os protocolos de IATF absorveram 10 milhões de doses de sêmen, sendo 7,5 milhões de corte e 2,5 milhões de leite.

Trabalho recente sobre a avaliação do impacto da IATF no Brasil, feito pela equipe do professor Baruselli, com base nas estatísticas de 2014, da Asbia, mostra a geração de valor da atividade que demanda o trabalho de cerca de 3.000 médicos-veterinários.

“Considerando o valor anual do processo de IATF no País, estimado em R$ 500 milhões, com fármacos para sincronização (R$ 150 milhões), doses de sêmen comercializadas (R$ 200 milhões) e prestação de serviço veterinário (R$ 150 milhões), o impacto dessa tecnologia na cadeia de carne e leite é de R$ 2 bilhões/ano (R$ 1,1 bilhão no corte e R$ 0,9 bilhão no leite)”, estima o professor. “Esses resultados devem-se ao aumento da eficiência reprodutiva e aos ganhos genéticos, com reflexos diretos no crescimento da produção de carne e leite”, analisa.

Nery afirma que a utilização da IATF tem crescido ano a ano, por oferecer algumas vantagens em relação à monta natural e à inseminação artificial. Dentre os benefícios dessa tecnologia, ele menciona controle total da reprodução, eliminação da detecção de cio, inseminação de matrizes com cria ao pé, indução da ciclagem das vacas em anestro, alta taxa de prenhez no início da estação, concentração de nascimentos e desmame em épocas mais favoráveis, aumento do número de bezerros, maior peso ao desmame, padronização dos lotes, inseminação em grande escala e otimização da mão de obra.

“Dados coletados a campo mostram que o nascimento do bezerro na época desejável do ano resulta em uma arroba a mais no desmame”, ilustra o executivo da Asbia. De acordo com Nery, o custo da IATF varia em função dos serviços veterinários e da logística de deslocamento e, em termos de protocolos, está ao redor de R$ 18,00 por vaca.

Na IATF, inseminador tem papel primordial sobre os resultados da operação

FERRAMENTA DO PROGRESSO
“A IATF é uma das ferramentas para a evolução da pecuária brasileira, que proporciona bons resultados, porém, exige planejamento, o que inclui a escolha do sêmen e a nutrição e a saúde da vaca, entre outros fatores”, faz coro com Baruselli o professor da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade Estadual de São Paulo (FMVZ/Unesp), de Botucatu/ SP, José Luiz Moraes Vasconcelos, conhecido como Zequinha. “Com essa tecnologia, temos mais vacas, em menos tempo e com redução da estação de monta.”

O professor Zequinha concorda que, antes de entrar no programa de IATF, a vaca deve estar em boa condição corporal e sanitária, para minimizar a perda de peso nos pós-parto. “Precisa de comida disponível e de boa qualidade, compatível com a produção de leite, daí a importância de se definir a época mais adequada para o nascimento e a desmama dos bezerros”, comenta. Ele acrescenta que animais que nascem mais cedo desmamam mais pesados e, em consequência, o abate dos machos ocorre precocemente.

Outro requisito, segundo ele, é a escolha do protocolo e do sêmen de boa qualidade. “Em geral, a escolha do protocolo é a que proporciona o menor custo por vaca gestante. Já os resultados dependem da raça, da idade e do número de crias da matriz, da qualidade do sêmen e do inseminador”, observa.

Considerando que a gestação dura de 280 a 295 dias, a estação de monta ideal, na visão do professor, é 75 dias para que todas as vacas estejam paridas no início da estação seguinte. Na opinião do acadêmico, deve-se, primeiro inseminar as fêmeas em boa condição corporal. “Em geral, a vaca parida em outubro está em melhores condições, pois ainda não perdeu peso, apesar de, possivelmente, estar em anestro”, analisa.

ESCOLHA DA RAÇA
Na opinião de Zequinha, da Unesp, a decisão depende da fazenda. Ele diz que o maior desafio é com relação à raça Nelore, que é mais rústica. Já as raças adaptadas, como o Senepol, estão no manejo intermediário.

Segundo Alexandre Zadra, colunista da Revista AG, todos os taurinos adaptados (Bonsmara, Caracu e Senepol) têm sido usados em monta natural nos cruzamentos, quando se busca gerar a mesma heterose obtida na IA ou na IATF das matrizes zebuínas com sêmen de touros europeus. “Outra opção é a utilização de reprodutores Brangus ou Braford no repasse de matrizes meio-sangue Angus para produzir animais cruzados que se encaixem nos programas de premiação dos frigoríficos”, diz.

Nos zebuínos, a preferência é o Nelore, em razão da disponibilidade de touros avaliados nos diversos programas de melhoramento da raça, bem como o Brahman, nesse caso, sobre vacas meio-sangue adultas, para a produção de bezerros three cross de alto potencial de ganho em peso para os confinamentos, conforme explica Zadra.

“No cruzamento industrial, devemos produzir fêmeas de porte médio (450 kg a 500 kg), quando adultas, através de raças como Senepol, Angus e Hereford, mantendo, assim, ótima relação peso do bezerro x peso da vaca (a qual deveria ser, no mínimo, 45%) e sobre parte do rebanho matrizeiro (50%)”, ensina.

Nesse caso, ele recomenda utilizar raças terminais como Charolês, Simental e mesmo Bonsmara, que no Rio Grande do Sul encaixa-se muito bem com as matrizes cruzadas, mantendo adaptação razoável ao calor seco e ao frio do inverno, como ocorre com as raças Braford e Brangus.

No caso de uma raça de tamanho moderado, Zadra diz que é preciso levar em conta a categoria de matrizes que serão inseminadas para a escolha correta da raça paterna, visando evitar distócias (complicações no parto). Um exemplo é o uso de raças taurinas adaptadas ou bimestiças como Brangus e Braford sobre novilhas F1 britânicas.

O colunista da AG destaca o impacto econômico do mês de nascimento dos bezerros, com reflexo no ganho de peso, no caso dos machos, e na fertilidade das fêmeas. “Estudos demonstram que os nascimentos que ocorrem nos meses oito e nove resultam em bezerros 20 kg mais pesados, em vista da disponibilidade da forragem nesse período até a desmama”, afirma.

IA x IATF
Na avaliação da médica-veterinária Alessandra Corallo Nicacio, pesquisadora em Reprodução Animal da Embrapa Gado de Corte, a IA e a IATF são técnicas semelhantes. “Na primeira, recomendamos a observação de cio e realizamos a inseminação após 12 horas, e, na segunda, o momento da inseminação depende do protocolo hormonal utilizado”, compara.

Alessandra lembra que a base da IATF é a aplicação de hormônios para controlar a manifestação de cio e, principalmente, a ovulação. “Conforme o fármaco utilizado para induzir a ovulação, a inseminação deve ser feita em um momento determinado”, explica. O médico-veterinário é quem deve escolher o protocolo para cada situação e indicar o momento adequado para realizar o procedimento, sugere a especialista.

Assim como outros pesquisadores entrevistados, Alessandra afirma que, para ter bom desempenho reprodutivo, as matrizes precisam estar em boas condições sanitárias e nutricionais, caso contrário, a resposta ao protocolo pode não ser satisfatória.

De acordo com a pesquisadora, no gado de corte muitas vezes a estação de monta começa no início das águas. “Por isso, recomendamos que as matrizes sejam avaliadas, considerando sua condição corporal ao longo do ano, em especial na desmama, quando é possível pensar em estratégias para melhorar o aspecto nutricional até o início da estação de monta”, orienta.

Além disso, ela aponta a necessidade de o produtor acompanhar e conhecer as condições de pastagens para saber se no final da seca ainda haverá disponibilidade de forrageira. “Caso seja necessário, convém consultar um especialista em nutrição animal para auxiliar no manejo nutricional das matrizes.”

Para não errar na sincronização de cio, ela diz que basta seguir o protocolo corretamente, respeitando os horários e as doses de cada fármaco. “Mas que fique claro, a IATF não tem 100% de resposta e muito menos 100% de prenhez, pois existem muitos fatores que influenciam no resultado, além do protocolo”, avisa.

Deve-se ter cuidado com o armazenamento e o descongelamento do sêmen no momento da inseminação, a capacitação do inseminador, a conservação, a aplicação das drogas, e, principalmente, o manejo dos animais no curral. “Animais estressados costumam apresentar menores índices de prenhez”, salienta.

Na opinião de Alessandra, não existe um protocolo ideal, mas, sim, o melhor protocolo para cada situação. “Há várias marcas disponíveis no mercado, todas de ótima qualidade, o que dá mais opções para o médico-veterinário trabalhar. Aliás, quem deve decidir sobre essa questão é o veterinário responsável pelo programa reprodutivo da propriedade”, comenta.

Alessandra Nicacio lembra que muitas pesquisas ainda estão sendo feitas para adequar os protocolos ao sêmen sexado

De acordo com a pesquisadora, atualmente existem muitos estudos sobre o assunto e os protocolos estabelecidos são bastante confiáveis. “O importante é priorizar a IATF no início da estação de monta, sempre com os melhores animais e não nas matrizes atrasadas ou que foram as últimas a parirem na estação, afinal, essa é uma tecnologia de certo custo”, ensina.

Na opinião da pesquisadora, o dia de início do protocolo não é relevante para sua eficiência, desde que os horários de aplicações sejam respeitados. “O término do protocolo é sim determinado e deve ser seguido à risca”, argumenta.

De acordo com a pesquisadora, com uma IATF, a taxa de prenhez gira em torno de 45% a 50%. Com o repasse, ao longo de toda a estação de monta, esse porcentual pode até superar 70%. Para garantir esses índices, Alessandra diz que o pecuarista necessita de profissionais treinados para manejar o sêmen e os fármacos; de médico-veterinário que saiba escolher o melhor protocolo para a propriedade; adquirir sêmen de boa qualidade; ter matrizes em boas condições sanitárias e corporais; ter bom manejo de curral, evitando estresse aos animais; além de um sistema de repasse adequado, definido e bem executado, entre outros fatores.

Na opinião da pesquisadora, o repasse das fêmeas que não ficaram prenhes na inseminação pode ser feito com nova IATF, com a observação de cio e IA convencional ou mesmo com touro. “Essa é uma escolha que cabe ao produtor junto com o veterinário e vai depender da infraestrutura da propriedade e da disponibilidade de investimento”, pondera. O ideal, em sua opinião, é atingir o intervalo entre partos de 12 meses, o que é bastante difícil. “Essa é uma questão de eficiência reprodutiva e maior produtividade, e a IATF permite, inclusive, que isso ocorra de forma mais rápida para o rebanho como um todo.”

Alessandra destaca a importância do inseminador como peça- -chave no processo, razão pela qual precisa ser bem capacitado. Caso a propriedade não tenha esse tipo de profissional, ela recomenda a contratação de serviço terceirizado. “Muitos veterinários têm equipes montadas, dispondo de inseminador para prestar esse tipo de serviço”, informa.

De qualquer forma, ela diz que o produtor precisa conhecer um pouco sobre IATF para conversar com o profissional antes de contratar o serviço. “Profissionais com muita ou pouca experiência prática sabem o que estão fazendo e ambos podem ter problemas ao implantar o programa reprodutivo. “Erros e problemas podem acontecer. Independentemente do profissional contratado, cabe ao produtor o bom senso na hora da escolha.” Por fim, a pesquisadora da Embrapa adverte que o retorno financeiro da tecnologia na propriedade pode demorar.


Qualidade do sêmen é fator de fundamental importância

João Abdon sugere cuidados no manuseio do sêmen e programação do descongelador

Para se evitar baixos resultados, os especialistas recomendam utilizar sêmen oriundo de reprodutores de centrais com avaliação de DEPs e histórico de boa fertilidade em programas de IATF. Outra orientação refere-se aos cuidados no armazenamento, na manipulação e na aplicação.

“A inseminação exige qualidade e nem tanto rapidez”, afirma o médico-veterinário, João Abdon dos Santos, consultor em reprodução na Bahia. “Não colocar muitas doses de sêmen ao mesmo tempo no descongelador, cuidar do nível de nitrogênio no botijão, não expor as canecas fora do botijão ao realizar o manuseio e não deixar as doses no descongelador por tempo excessivo são práticas que melhoram o resultado da IATF como um todo e ajudam a preservar a qualidade do sêmen”, educa.

Abdon lembra que o sêmen sexado é mais sensível, devido à maior manipulação, no processo de sexagem e envase, dando origem a resultados inferiores quando comparados ao sêmen tradicional, porém, os cuidados na hora da inseminação devem ser os mesmos. “Resultados acima de 45% podem ser comemorados”, afirma.

A médica-veterinária e pesquisadora Alessandra Nicacio também chama atenção para os cuidados com o sêmen sexado. “É um produto que passa por um processamento demorado, o que diminui a viabilidade, por isso, muitas pesquisas ainda estão sendo feitas para adequar os protocolos a esse material mais sensível”, salienta. Também lembra que os resultados de prenhezes com sêmen sexado costumam ser inferiores aos obtidos com o convencional, mas a garantia do sexo do bezerro compensa o investimento. Na opinião de Abdon, a escolha do touro (sêmen) é de fundamental importância dentro de um projeto reprodutivo e deve considerar o perfil das fêmeas participantes da estação reprodutiva, assim como origem, sanidade, raça, avaliação genética e qualidade.

Para ele, o touro doador de sêmen precisa ser provado no mesmo sistema de criação onde será gerada a cria e deve transmitir aos seus descendentes as características produtivas observadas em sua régua de DEPs. “Sem essas informações, estamos jogando sem ter uma previsão de resultados”, argumenta. O professor da USP/FMZV, Pietro Baruselli, diz que utilizar o sêmen de um reprodutor sem saber se ele é melhorador não tem sentido. “Touros avaliados, em coleta nas centrais, devem ter a genética multiplicada.”

Embora muitas empresas mencionem em seus catálogos que o touro é recomendado para IATF, Abdon diz que ainda estamos engatinhando nesse aspecto. “As variáveis são muitas e não só o sêmen interfere nos resultados. Precisamos criar um banco de dados robusto para analisar essa variável. A central atende critérios técnicos e comerciais e nem sempre os dois são usados ao mesmo tempo”, observa. Já Baruselli considera confiáveis as informações disponibilizadas por algumas centrais e diz que há formas de mensurá-las. “Análises estatísticas que tiram o efeito das fazendas e dos lotes de vacas inseminadas conseguem comparar a eficiência reprodutiva dos touros e mostram alta repetibilidade para fertilidade”, atesta.


Pecuarista atinge 92% de prenhez em vacas paridas no início da monta

Ricardo Viacava aposta tanto na IATF quanto na transferência de embriões em tempo fixo

O Nelore Mocho CV, projeto de seleção de gado de corte conduzido por Carlos Viacava e seu filho Ricardo Viacava, utiliza a IATF há vários anos. “Nesse tempo, vimos a evolução dos protocolos e também as reduções de custos dos mesmos e comprovamos, na prática, as vantagens no manejo e a menor necessidade de mão de obra na observação de cio”, afirma Ricardo Viacava.

Ele conta que sempre utilizou IATF nas vacas trabalhadas em cada estação, à exceção das novilhas, que eram inseminadas com observação de cio. Em 2015, a ideia é utilizar IATF em 100% das matrizes, ao todo, cerca de 1.800 vacas e primíparas, além de 600 novilhas e mais 600 bezerras superprecoces.

O projeto também utiliza o protocolo de sincronização para a TETF (transferência de embriões com tempo fixo). “São cerca de 4.000 produtos gerados através dessa técnica, nos últimos anos, com excelentes resultados”, avalia. “Como a utilização do sêmen sexado na IATF apresenta resultados muito ruins, temos usado sêmen sexado somente para a produção de embriões que são transferidos”, complementa.

O gargalo, segundo Ricardo Viacava, é que nem toda propriedade pode adotar essa tecnologia, que exige boa estrutura, boa oferta de forragem e funcionários qualificados. “Sem essas três premissas, a IATF pode ser um tiro no pé."

No ano passado, o projeto de reprodução Nelore Mocho CV utilizou o manejo de ressincronização. Fez a primeira IATF, e, com 30 dias, após o ultrassom. As vazias foram ressincronizadas e receberam um novo protocolo e, depois, as que não emprenharam seguiram para repasse com touro. Também utilizou em alguns lotes uma IATF e repasse com o touro. “Comparando as duas técnicas, não houve uma grande diferença no número final de fêmeas prenhas, porém, a quantidade de produtos de inseminação foi bem maior, no caso do protocolo de ressincronização com IATF”, analisa.

Em média, Ricardo Viacava afirma que a taxa de concepção de uma IATF resulta em 50% de prenhezes no primeiro protocolo, mais 50% no segundo, chegando-se a cerca de 75% no total. “Esse número varia bastante, principalmente em função do escore corporal das vacas submetidas ao manejo. Para se ter uma ideia, na última estação, tivemos lotes acima de 92% de prenhez, quando as vacas estavam em bom estado e paridas no início da estação, e lotes abaixo dos 50%, principalmente as fêmeas que tiveram crias no final da monta”, ilustra.


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