Leite

 

Estratégias NUTRICIONAIS

A vaca lactante deve ser manejada em quatro fases do seu siclo lactacional

Ricardo Dias Signoretti*

A atual situação econômica da cadeia produtiva do leite exige que os produtores realizem todas as atividades no sistema de produção com máxima eficiência.

Os técnicos e produtores sabem que as vacas leiteiras produzem mais e melhor se submetidas a dietas balanceadas. O ponto crucial é não deixar de existir a preocupação de se fornecer alimentos de qualidade e em quantidade suficiente. Por outro lado, se houver produtores que admitem com naturalidade que, na época seca do ano, o animal perde peso, consumindo reservas corporais para se manter vivo, emagrecendo rapidamente, não há como se falar em rentabilidade na atividade leiteira.

Mesmo uma vaca estando bem nutrida, livre de enfermidades e com infestações de parasitos controladas, poderá não ocorrer a expressão de todo potencial de produção, caso o ambiente não lhe ofereça conforto. Por conforto, entende-se um local seco e limpo para repousar, sombreado e arejado, com ponto de água de qualidade o mais próximo possível e de fácil acesso. No entanto, na maioria das propriedades no Brasil Central, a pecuária leiteira permanece com baixa produção de leite por animal.

Existem diversos fatores que justificam esse resultado, tais como a falta de genética adequada para produção de leite, ou seja, em grande parte das propriedades situadas no Sudeste e no Centro-Oeste do Brasil ainda é frequente a ordenha de animais com fração genética zebuína superior a 50%; o intervalo de partos próximo de 19 meses e, em consequência, a alta proporção de vacas não lactantes, quase sempre entre 30 e 50% do rebanho adulto, o que parece indicar que a subnutrição é o maior problema.

Nesse sentido, a alimentação em quantidade e qualidade no rebanho explorado nessas regiões, na maioria das vezes, não é suficiente para suprir a demanda nutricional das vacas, que são submetidas à estacionalidade da produção forrageira e seguem a mesma rotina: no período das águas, produzem mais leite e, no período das secas, quando não suplementadas, atingem índices produtivos e reprodutivos insatisfatórios.

A maior produção de leite no período das águas ocorre, muito provavelmente, em virtude do maior aporte de nutrientes aos animais. Essa constatação é bastante curiosa considerando- se que o maior custo alimentar por vaca/dia ocorre na época da seca, visto que acima de 80% dos produtores, qualquer que seja o volume diário de produção de leite, utiliza alimentos concentrados. Outro fato interessante é que menos de 30% dos pequenos produtores suplementam com concentrados na época das águas. Por outro lado, mais de 70% dos produtores com volume diário de produção acima de 250 litros/dia mantêm o uso de grãos e subprodutos agroindustriais no período das águas.

Na maioria dos sistemas de produção, os fatos mencionados anteriormente parecem indicar que o recurso forrageiro disponível na seca suplementada com concentrados é pior nutricionalmente do que a pastagem de período das águas manejada extensivamente.

Vale ressaltar que o maior limitante nutricional da produtividade ainda ocorre na seca e os técnicos e produtores devem ficar atentos e buscar a eficiência máxima na conservação e utilização desses recursos forrageiros, proporcionando a melhoria da eficiência na atividade leiteira.

Mesmo com as deficiências levantadas anteriormente, cerca de 90% dos produtores de leite adotam alguma suplementação com forrageiras na seca. A maior parcela dos produtores parece estar ciente da estacionalidade na produção de forragens. A baixa produção no período seco do ano parece ser resultado da baixa oferta e qualidade de suplementação forrageira, em muitos casos, suplementada de maneira tecnicamente incorreta com concentrados. Vale ressaltar que somente 30% dos pequenos produtores têm fornecido concentrados proporcionalmente à produção do animal. Nosso produtor optou pela estratégia de baixo risco financeiro e de necessidade mínima de tempo de trabalho na produção de forragens acoplada à compra de concentrados na seca, quando o leite é mais bem remunerado, ao invés de investir em fertilidade e manejo de solo para obter forrageiras de qualidade e com alta produtividade. A consequência dessa mentalidade foi à disseminação do uso de algumas espécies forrageiras colhidas uma vez por ano durante a seca, péssima nutricionalmente, mas de risco baixo.

Outro fator importante, mesmo aqueles que utilizam concentrados nas dietas das vacas leiteiras realizam de forma errada, principalmente na composição e consequentemente no custo. Para isso, é preciso investir. Tanto melhor é a ração quanto maior o número de ingredientes e maior a capacidade de adquirir componentes certificados e baratos. A homogeneidade dos subprodutos é outra questão delicada, pois os teores variam muito. O caroço de algodão, por exemplo, se estiver muito úmido, apresenta problemas de armazenagem. Com tudo isso, o proprietário rural tem de pensar que quando opta por formular rações na fazenda aumenta-se a responsabilidade.

Período pós-parto

Com relação ao balanceamento da dieta, o produtor deve ser bem orientado para o fornecimento aos animais de todos os nutrientes, incluindo proteínas, carboidratos, vitaminas e macro e microminerais. Primeiro, as vacas usam a energia da dieta para manter-se e produzir leite; depois, o que resta é dirigido para a reprodução.

Além disso, não se pode esquecer das bactérias do rúmen. Essa é chave para os animais alcançarem produções cada vez mais altas. O período pós-parto deve ser corretamente manejado, evitando-se riscos de insucesso na atividade. Para tanto, a vaca lactante deve ser manejada em quatro fases do seu ciclo lactacional.

- A primeira é aquela que começa no parto e continua até duas ou três semanas após, caracterizada por alta produção de leite. O fator- -chave de gerenciamento dessa fase é a habilidade de monitorar e observar os animais para assegurar a manutenção da saúde quando passarem para o alto grupo (dietas de alto valor nutricional). A ração dessas vacas precisa ser intermediária entre a de vacas em gestação e aquelas em final de lactação. Dietas de alto valor nutricional e instalações adequadas são recomendas. Para vacas de alta produção nessa fase, pode ser adotada a seguinte estratégia: alimentação com um a três quilos de forragem de alta qualidade (feno) para manter a função ruminal; utilização de mistura que contenha proteína não degradável e fibras digestíveis (como farelo de soja ou polpa cítrica) como fontes de energia; incremento da concentração de nutrientes na ração para ajustar a baixa ingestão de alimento; adição de tamponantes para estabilizar o pH do rúmen; etc.

- A fase seguinte, de início de lactação, corresponde ao período de 14 a 100 dias após o parto. Nela, as vacas alcançam o pico de produção de leite, há queda de peso (isso exige fonte adicional de energia) e a ingestão de matéria seca é mais lenta. O tipo e o nível de proteína são críticos para que se alcance o pico produtivo. Limitar a quantidade de gordura suplementar é recomendável para manter o consumo de matéria seca. As estratégias de alimentação para vacas de alta produção nessa fase envolvem fornecimento de forragem de alta qualidade para aumentar o consumo de matéria seca; provimento de fontes de ingestão de proteína não degradável, incremento gradual de energia proveniente de grãos (máximo de 0,45 kg por dia) e limitação da quantidade de gordura suplementar a 0,6 kg.

- Na terceira fase – intermediária (70 a 200 dias após o parto ou até as vacas secarem) – as vacas declinam a produção de leite. O pico de ingestão de matéria seca tem sido alcançado com ganho de peso. Quando a produção de leite ou os componentes declinam muito rapidamente, é sinal de que as necessidades nutricionais não estão sendo atingidas. O que garante o sucesso dessa fase é a otimização da ingestão de matéria seca, devendo ser adotados, ainda, os seguintes procedimentos: início da reposição das condições corporais perdidas; elevação de gordura suplementar até os níveis desejáveis e revisão da necessidade de aditivos.

- A última fase pode começar 200 dias após o parto e terminar quando as vacas secarem, havendo possibilidade de não ser alcançada por alguns rebanhos e por animais de alta produtividade. Elas estão prenhes, ganham peso (0,450 a 0,700 kg por dia) e a produção de leite declina de 6% (vacas primíparas) a 9% ao mês (multíparas).

A estratégia de alimentação deve abranger incremento de proporção de forragens na ração, possível diminuição de fontes suplementares de proteína não degradável, remoção de fontes suplementares de gordura, eliminação de aditivos, reposição das condições corporais perdidas, estabelecimento de níveis de condições corporais de 3,25 a 3,75, quando seca; e redução do custo diário de alimentação por vaca.

A maior produção de leite no período das águas ocorre, muito provavelmente, em virtude do maior aporte de nutrientes

Agrupamento

Existe grande variabilidade na curva de lactação entre vacas. O ideal seria o balanceamento de dieta para cada vaca do rebanho, pois a exigência nutricional é uma característica individual. Na prática, isso seria impossível do ponto de vista logístico e econômico. No entanto, muitos produtores de leite ainda utilizam uma única dieta para todos os animais em lactação, isso simplifica as tarefas, mas pode levar a superalimentação e o ganho excessivo de condição corporal de animais menos produtivos. Agrupamentos bem feitos podem ser uma maneira eficaz de reduzir o custo no concentrado. Para atingir a eficiência máxima tem-se sugerido ao redor de três dietas.

Nas fazendas que utilizam pastagem na alimentação de vacas em lactação ocorre alta competição devido à dieta ser fornecida em curral de alimentação e ao baixo tempo de acesso diário. Assim, o espaço linear no cocho tem de variar de 0,75 a 1 m por vaca. Por outro lado, no caso do fornecimento de dieta completa, 0,60 m parece ser suficiente.

O principal objetivo do agrupamento é reduzir a variabilidade na exigência nutricional. A meta é formar grupos homogêneos em requerimentos nutricionais por unidade de matéria seca da dieta.

Se o produtor entender os quatro fatores que influenciam as necessidades nutricionais (produção de leite, componentes do leite, ingestão de matéria seca e perda de peso), várias fases de alimentação podem ser desenvolvidas, ou seja, o agrupamento. Na prática, o produtor pode não necessitar de todas, mas precisará gerenciar as mudanças economicamente (considerando produção de leite versus custo de alimentação – o mais oneroso é o concentrado para faixa de produção acima de 500 litros de leite por dia). Se conseguir “controlar” a transição dos programas de alimentação, problemas metabólicos podem ser minimizados e a produção de leite, otimizada. A escolha do sistema de alimentação deve servir a essas exigências nutricionais identificadas em cada caso específico.

Se essas técnicas forem aplicadas corretamente, as vantagens na atividade leiteira serão evidentes, tais como: equilíbrio na condição corporal, melhora da produtividade, melhor eficiência reprodutiva e, consequentemente, redução do custo de produção.

*Ricardo Signoretti é engenheiroagrônomo e pesqusiador científico da APTA Regional de Alta Mogiana, em Colina/SP – signoretti@apta.sp.gov.br