Entrevista do Mês

 

Genética de ponta

A inseminação artificial permite acesso a uma genética diferenciada e nos últimos anos é um setor que vem sendo alavancado pela Inseminação Artificial em Tempo Fixo (IATF). Para falar mais sobre o assunto, convidamos Carlos Vivacqua Carneiro da Luz, presidente da Associação Brasileira de Inseminação Artificial (Asbia).

Adilson Rodrigues - adilson@revistaag.com.br

Revista AG - Qual a sua avaliação sobre a evolução do mercado de cruzamento industrial nos últimos dez anos?
Carlos Vivacqua –
Vivenciamos a revalorização do animal cruzado, com boa genética, permitindo o desenvolvimento de um produto de maior qualidade frigorífica de carcaça e mais produtivo nos diversos tipos de manejo das fazendas. Crescemos nossa participação como fornecedores de proteína animal no mercado global, principalmente proteína vermelha e, em face dessa demanda, houve uma adaptação de nosso sistema de produção para a geração de produtos que atendessem essas novas exigências. Assim, houve a necessidade de se trabalhar com genética superior em todas as raças que compuseram os diversos cruzamentos. Os programas de avaliação genética brasileiros para diversas raças evoluíram e permitiram grandes ganhos genéticos, que trouxeram maior rentabilidade ao setor, além de produtos mais adequados para acessar os mercados nacional e internacional.

Revista AG - A que atribui essa ascensão meteórica: aprendizado, mudança na cultura do pecuarista que emprega mais tecnologia, sistema de bonificação por qualidade nos frigoríficos ou assistência técnica dos laboratórios e centrais ligados à reprodução animal?
Carlos Vivacqua –
Acredito que diversos fatores, entre os quais a nova geração de produtores, muitos graduados em nível superior e em áreas afins ao agronegócio. Atualmente, contamos com o que há de melhor e mais moderno no mundo em termos de produtos, serviços e softwares. Tudo está acessível ao produtor, não há barreiras protecionistas e o mercado é aberto à concorrência. Assim, as empresas que atuam no agronegócio necessitam desenvolver melhores serviços de assistência técnica. Os sistemas de produção próximos das capitais foram impactados pela valorização imobiliária e essas áreas transformaram-se em indústrias ou residências. Dessa maneira, o setor migrou para as novas fronteiras agrícolas. Portanto, um número maior de produtores obteve também acesso à assistência técnica de qualidade. Esse fato fez o “bolo crescer” e permitiu que as poucas “ilhas” de tecnologia ficassem maiores.

Revista AG – Quais as principais raças utilizadas pelos rebanhos de corte que fazem IA nos dias atuais?
Carlos Vivacqua –
No corte, as raças de grande volume são a raça Angus (preto e vermelho), a raça Nelore, aqui incluso o Nelore Registrado e Ceip e Brangus (preto e vermelho). Depois, temos outras 36 raças de corte utilizadas em acasalamentos puros ou no cruzamento.

Revista AG - Atualmente, como se encontram as divisões de mercado entre a IA convencional e a IATF?
Carlos Vivacqua –
Esse é um dado inexato; são estatísticas compostas e, assim, deve ser entendido como uma informação aproximada. Então, para gado de corte, estima-se que acima de 80% das fêmeas estão sendo trabalhadas com IATF.

Revista AG - Entretanto, seria verdadeiro que o latente progresso da tecnologia de IATF ajudou a alavancar os números do mercado de inseminação como um todo?
Carlos Vivacqua –
Correto! Entendemos que as melhorias ocorridas nos protocolos de IATF e consequente melhora nos índices de fertilidade, apoiados pela maior simplicidade no manejo reprodutivo, maior concentração nos demais manejos, maior padronização do produto entregue ao frigorífico e melhor negociação de preço, em função da melhor logística de entrega, foram facilitadores que a IATF trouxe para o crescimento da utilização de sêmen.

Revista AG - Hoje, os protocolos de IATF disponíveis atendem perfeitamente a qualquer pecuarista?
Carlos Vivacqua –
Os protocolos disponíveis atendem perfeitamente as necessidades dos pecuaristas. Esses estão bem definidos, com algumas variações entre eles quanto à categoria de novilhas ou vacas com cria e o uso ou não de ECG. O manejo sanitário e dos animais, a condição corporal e a equipe treinada são pontos relevantes para o desempenho da técnica.

Revista AG - Mesmo na IATF, a falta de mão de obra qualificada tornou-se um problema?
Carlos Vivacqua –
As centrais de Inseminação Artificial possuem, em quase sua totalidade, essa oferta de serviço, atendendo integralmente o território nacional. Produtores que possuem volume médio de animais em reprodução não devem ter dificuldade de oferta para a realização da IATF.

Revista AG - O que vale mais a pena: touro de repasse ou uma ou mais ressincronizações em tempo fixo?
Carlos Vivacqua –
Depende muito do objetivo e das condições de instalações e acesso. Se for gado puro, a ressincronização é muito interessante, pois poderemos trabalhar com genética superior na maior parte dos ventres. Demanda mais manejo e melhor qualificação profissional para fazer o diagnóstico de gestação correto, pois o mesmo deve ser bem precoce. No gado geral, o custo da ressincronização tem de ser avaliado. É possível que a utilização dos touros em sequência da IATF seja mais eficiente na composição do custo final. Se trabalhar com uma estação de monta mais longa, pode-se pensar em ressincronizar. Se a estação de monta for curta, usa-se touro. Caso se tenha poucos funcionários e infraestrutura ainda precária, recomenda-se uma sincronização somente. Em caso inverso, pode-se pensar em sincronizar novamente. Sendo o objetivo a produção de bezerros de cruzamento, pode-se trabalhar com ressincronização e a reposição das matrizes é feita no mercado.

Revista AG - Quanto à tecnologia existente, melhorou a procura dos produtores de carne por sêmen sexado? O que falta para essa tecnologia decolar também no gado de corte?
Carlos Vivacqua –
O custo do sexado ainda é alto no Brasil e no mundo. Por se tratar de uma tecnologia que é um monopólio global, a decisão na formação de preços é definida de maneira singular. Em qualquer segmento, para que haja melhoria das condições de compra, melhor oferta de serviços e desenvolvimento de produtos, é necessária livre concorrência.

Revista AG - Hoje, qual é o valor médio do sêmen de gado comercial no Brasil? É o que possui melhor custo benefício em comparação aos demais países?
Carlos Vivacqua –
O custo do sêmen é um dos mais baixos entre todos os insumos. Na realidade, deveria ser considerado investimento e não custeio. Representa apenas 2% do custo de produção e é o único insumo que deixa residual entre gerações. O valor genético do touro interfere de forma direta no preço, mas podemos considerar que temos um valor médio de sêmen do corte no Brasil, para produção de bezerros para abate, na faixa de R$ 12,00 a R$ 18,00. O volume e a escala de compra também podem interferir na precificação.

Revista AG - Em relação ao novo Index Asbia, não existe mais o relatório das importações de sêmen por raça. Qual seria o motivo dessa mudança?
Carlos Vivacqua –
O produtor não compra sêmen por ser nacional ou importado. A decisão de compra está pautada na qualidade genética do produto, no preço, na fertilidade ou em outra característica econômica de interesse de cada programa de melhoramento. As raças e suas características raciais são as mesmas, independentemente se produzidas no Brasil ou em qualquer outro país. Assim, entendemos que essa informação era desnecessária ao setor, pois não traz valor à decisão de compra ou para a análise de mercado.

Revista AG - Aproveitando o gancho, há uma grande discussão no setor sobre o uso desenfreado de sêmen importado, em virtude de vir de locais cuja adaptabilidade das raças doadoras em muito difere da realidade brasileira de produção. Qual tem sido o posicionamento da Asbia a respeito disso?
Carlos Vivacqua –
Em todos os programas de melhoramento animal desenvolvidos ao redor do mundo e que tiveram êxito, trazendo progresso genético às características de interesse econômico, a busca pelos melhores reprodutores sempre foi papel preponderante. Independentemente da origem. Não há exceção! Fechar-se, dificultar o acesso aos melhores reprodutores importados de qualquer raça, levará a um menor progresso genético. Isso é equivocado e atende interesses que não são o de alcançar o maior potencial da raça. Temos em outros países programas de melhoramento genético mais evoluídos do que os nossos, onde se trabalha com genômica avançada, se tem maior base avaliada e maior volume de touros provados, que permitiram a evolução das avaliações com maior segurança e, consequentemente, um maior progresso genético entre gerações.

Revista AG – Sob essa ótica, outro fator que poderia ser destacado seria em relação aos preços do sêmen?
Carlos Vivacqua –
Também, quando se abre o mercado, aumenta- -se a concorrência, pressionando os preços para baixo. Isso é bom para o produtor de carne, que tem interesse em utilizar o melhor material genético, pelo menor custo possível. O Brasil possui hoje bons programas de melhoramento, em fase de evolução. Mas, ainda temos pontos importantes a serem trabalhados. Por exemplo, é fundamental que qualquer programa de melhoramento animal tenha a identificação dos parentes (pai, mãe, etc.) feita de maneira segura. Medir-se o valor genético de um reprodutor sem ter essa segurança pode levar a uma avaliação totalmente equivocada sobre todo o modelo animal. Outro ponto importante, caso dificultássemos a importação, é que nós não teríamos oferta de sêmen que atenderia a demanda nacional. Consequentemente, os preços subiriam. Isso é uma simples lei de mercado. A variação, flutuação cambial pela qual passamos frequentemente, é uma grande barreira comercial para produtos importados. O que temos de fazer é desenvolver cada vez mais nossos programas de melhoramento, colocando mais investimentos em pesquisa e tecnologia, aumentar a escala dos produtores e ventres nos programas e, muito importante: observar o que estão fazendo os grandes programas mundo afora e adaptar para nossa realidade. De maneira alguma nos fechar. Sobre a adaptabilidade, na maioria dos programas nacionais de raças taurinas, temos reprodutores sendo testados que são filhos de sêmen de touros importados. Assim, já está sendo feita a avaliação que permite medir a interação genótipo/ ambiente.

Revista AG – Neste primeiro semestre, as vendas de sêmen acompanharam o ritmo de 2014? Seria possível fornecer números parciais da comercialização no corte e no leite?
Carlos Vivacqua –
Nosso relatório Index Asbia do primeiro semestre de 2015 está em fase final de execução e lançamento público. Devemos fechar essa posição em breve. Nesse relatório, segmentamos a raça Nelore Registrada da Ceip e também o Girolando em 3/4 e 5/8, para que pudéssemos ter uma melhor visão estratégica de nosso mercado. Na área de sêmen para comércio, o segmento de leite deve ter uma ligeira queda e o de corte, uma alta. No montante total do mercado, que inclui sêmen para comércio, produção (prestação de serviços e estoque) e exportação, o mercado está praticamente estático.

Revista AG – Durante coletiva de imprensa do Rally da Pecuária, ouvimos um depoimento do Maurício Nogueira exemplificando um criador com 900 fêmeas, baseado próximo a Campo Grande/MS, que não sabia o que era inseminação artificial. A partir do que já vem sendo feito, qual a expectativa para o segmento?
Carlos Vivacqua –
O Brasil é um País de dimensões continentais, grande diversidade cultural e religiosa. Isso dificulta o acesso do produtor a inovações técnicas e tecnológicas. Temos aproximadamente 12% de fêmeas em idade de reprodução sendo trabalhadas com Inseminação Artificial. Em 1984, o setor de Inseminação Artificial no Brasil comercializava 1,5 milhão de doses de sêmen por ano. Em 2015, o mercado total deve ultrapassar 14 milhões de doses. Temos trabalhado fortemente com as grandes associações de raça para o desenvolvimento conjunto, pois é totalmente conectada e correlata a atuação de ambas as instituições. A partir de agora, temos a ABCZ, a Girolando, a ABCGIL e o programa DeltaGen como associados da Asbia. A Associação Angus e a Holandesa foram também convidadas. Não existe melhoramento animal em grande escala sem a utilização da inseminação artificial.