Caindo na Braquiária

 

Carne confiável tem maciez e acabamento

“É fato que minha novilha F1 Angus com 20 meses de idade, após ser confinada por 70 dias e abatida pesando acima de 16@, produz a mesma quantidade de carne que um macho?” Questiona Abel, esmerado criador de Água Boa, a dois diretores de frigorífico na sua linda propriedade. – Com certeza, Bel (apelido carinhoso do Abel), respondem os mesmos de bate-pronto.

“É crível que 20% dos cortes dessas carcaças são colocados no mercado pelo dobro do preço dos cortes normais?”, inquiriu novamente o criterioso produtor. – No mínimo, o dobro, Bel, confirmam os representantes da indústria.

“Então, por que não me pagam nas carcaças de minhas novilhas F1 Angus o preço da arroba do boi acrescido de uma premiação para que nos estimule a melhorar a cada dia nosso sistema de cria?”, pergunta finalmente o nobre pecuarista. – Simplesmente porque não podemos, afirmam os diretores do abatedouro sem alterar o calmo semblante que lhe são peculiares.

Tais questionamentos permeiam a cabeça de dez entre dez criadores que produzem animais jovens com carcaças pesadas e bem terminados ao abate, em que há um conformismo geral por parte da classe que tem as mãos atadas por falta de opção na comercialização dessa mercadoria diferenciada.

Diz o manual básico de propaganda e marketing que nem sempre se criam produtos para atender certa demanda, devendo, sim, desenvolver-se um mercado para seu produto através de estratégias e campanhas de marketing direcionadas. Mas isso tudo está muito longe dos pecuaristas, que sabem muito bem criar seu gado, produzindo um animal eficiente e uma carcaça de qualidade, deixando esse trabalho de propaganda aos frigoríficos regionais dos quais são fornecedores.

Estamos vivendo um momento de mudanças no mercado de carne, no qual a população vem valorizando a carne macia, pagando um pouco mais que na década passada, e, com isso, os frigoríficos vêm criando programas de remuneração especial aos pecuaristas, a exemplo do Programa Angus, que valoriza animais cruzados da raça, mantendo um técnico da Associação Angus para certificar as carcaças oriundas desses cruzamentos.

No mesmo grupo, existe também a premiação de animais com sangue Hereford, sendo criada a marca de carne “Britânicos”, na qual, para serem premiados, os animais desses dois programas de carne devem ter, no mínimo 50% de sangue dessas raças.

Outro grande grupo de frigoríficos criou o sistema de remuneração baseado em qualidade de carcaça, no qual são classificados como inferior, comum ou superior (não exatamente com essa designação). Tal sistema de classificação leva em consideração idade, peso da carcaça, conformação de carcaça e acabamento, além da característica capão ou inteiro. Os preços variam R$ 3,00 entre o inferior e o comum e mais R$ 3,00 entre o comum e o superior, assim, caso os criadores aceitem levar os animais para esse frigorifico, podem ter animais que se diferenciem no preço em até R$ 6,00. Contudo, o que vem acontecendo é que esse frigorífico que implantou tal sistema já vem colhendo frutos, em que a qualidade da boiada nos currais de abate tem melhorado substancialmente desde o início do programa.

Satisfação imensa foi saber do próprio Luciano, sábio zootecnista que que participou ativamente do primeiro projeto de remuneração da carne Angus no País, que foi contratado por outro grande grupo da indústria para desenvolver um programa de remuneração para carnes especiais, bem como expandir a participação desta mesma empresa no mercado gourmet.

Programas como esses nos fortalecem e nos estimulam a continuar com a responsabilidade de produzir animais de qualidade através do melhoramento das raças, seja por meio da seleção, buscando ganho genético a cada geração, seja através do cruzamento entre raças.

Alexandre Zadra - Zootecnista zadra@crigenetica.com.br