Na Varanda

 

Feira ou show? Um dilema a resolver

Francisco Vila é economista, consultor internacional e diretor da Sociedade Rural Brasileira vila@srb.org.br

U m número impressionante: o Brasil conta com cerca de 200 exposições e feiras agropecuárias anuais. Em sua maioria, organizadas pelos Sindicatos Rurais. No entanto, esses encontros do setor produtivo têm perdido sua tradicional atratividade. São várias as causas pelo menor interesse por parte dos fazendeiros.

Primeiro, com a rápida ampliação do uso da comunicação digital e a rica programação diária dos agrocanais de televisão, o produtor tem acesso inédito e imediato a informações, comentários e até leilões virtuais. As revistas da especialidade ainda representam um meio termo entre a informação eletrônica e as conversas nos Dias do Campo. Ou seja, parece existir menos demanda por troca de ideias ao vivo, seja em reuniões ou eventos presenciais.

Um segundo motivo é a ampliação das tradicionais exposições rurais para a realização de shows musicais. Os sindicatos optaram por essa estratégia para assegurar verbas adicionais para seus orçamentos. O que não imaginaram foi que os dois públicos são excludentes. O produtor rural e a família frequentavam as feiras para ver as novidades (que hoje conseguem conhecer através da mídia durante o ano todo), conversar com os colegas (que só aqui encontravam), trocar experiências com os técnicos das empresas e admirar os melhores exemplares das raças durante leilões e premiações. Juntava-se ao interesse em atualizar os conhecimentos a vontade de realizar encontros sociais com colegas, amigos e especialistas.

Os shows, ao contrário, são organizados por empresas especializadas dentro do espaço das exposições. Esses eventos dirigem-se a grandes números de jovens que, com todo o direito, querem pular e fazer um pouco de bagunça. Assim, a maioria dos jovens “baladeiros” espanta os produtores, que se sentem marginalizados em seu próprio espaço, o recinto de exposições rurais. Como resolver esse dilema, então, sem penalizar um ou outro, e sem eliminar a fonte adicional de renda para o Sindicato?

A Sociedade Rural Brasileira desenvolveu um evento específico para reconquistar o agropecuarista e a família. O “Dia do Produtor”, com palestras, debates, churrasco de confraternização e visita a uma fazenda, tem reestabelecido o tradicional sentido de uma feira.

Devemos lembrar que as feiras, desde a Idade Média, combinaram encontros sociais (entre o pessoal do campo e os burgueses que viviam entre os muros da cidade), oferta de produtos em estandes, discursos políticos, cultos religiosos, leilão de animais, shows de palhaços, e ações da saúde pública. Por isso, o termo “show” em inglês vale tanto para exposição como para entretenimento.

Assim, o desafio para esses eventos nacionais, regionais e locais é criar um novo conceito que possa atender os diversos interesses e necessidades. A primeira exigência é definir atividades que sejam complementares a outras ofertas de conhecimento, interação e entretenimento. Fazer mais do mesmo não reconquistará o produtor tradicional, nem atrairá sucessores. É preciso identificar características que outras opções não podem oferecer. Cabem as seguintes orientações: (1) favorecer o contato social que permite intercâmbio de experiências e consultas mútuas sobre assuntos específicos do dia a dia na fazenda; (2) aproveitar a dinâmica específica de encontros pessoais, que são diferentes de cursos virtuais da Internet ou programas técnicos das TVs da especialidade. Continua-se a aprender melhor com o “olho no olho” e deixando a conversa fluir; (3) apresentar soluções técnicas, sem puxar demais determinados produtos, focando na interligação entre soluções parciais para o sistema produtivo do boi. isto é, colocar genética, pasto, nutrição, sanidade, gestão, comercialização e até o novo desafio da integração lavoura-pecuária no contexto, ou seja, favorecer abordagens holísticas que simulem a situação da tomada de decisão.

Novas abordagens da realidade cada vez mais complexa, bem como a avaliação do uso adequado das múltiplas opções tecnológicas e tudo isso em um ambiente de palestras, debates e encontros com colegas e autoridades que moldam as políticas públicas, oferecem ao produtor um quadro de orientação sistêmico que ele precisa – e quer – para promover as mudanças em seu modelo de produção. Vamos com essa expectativa avaliar as feiras, as exposições e os shows, começando já nesse mês de agosto com a tradicional Expointer, que continua ser uma das primeiras no ranking das feiras rurais bem sucedidas.