Mercado Externo

 

Enfim, aos EUA

Norte-americanos liberam a compra de carne in natura brasileira e setor já se mobiliza para atender uma demanda crescente

Erick Henrique
erick@revistaag.com.br

Após quinze longos anos de negociações entre o Governo Federal e o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (Usda, na sigla em inglês), finalmente o status sanitário do rebanho bovino brasileiro foi reconhecido. Dessa forma, 14 plantas frigoríficas de Rondônia, Bahia, Sergipe, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Tocantins, Distrito Federal, Goiás, São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Minas Gerais, Paraná e Rio Grande do Sul, localizadas em áreas livres de febre aftosa com vacinação, estarão aptas a fornecer carne bovina in natura aos norte-americanos, já a partir deste mês.

A previsão do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) é que, nos próximos cinco anos, o Brasil remeta 100 mil toneladas de proteína vermelha por ano, porém, na verdade, é um volume potencial. O diretor-executivo da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec), Fernando Sampaio, esclarece que o Brasil foi inserido em uma cota direcionada a “outros países”, cujo potencial é de 64 mil toneladas anuais.

Fernando Sampaio acredita que o Brasil realmente exporte as 100 mil toneladas de carne/ano projetadas

“Em um primeiro momento, o país deve preencher parte dessa cota, entretanto, dado o grande potencial existente, há a expectativa de que cheguemos a essas 100 mil toneladas/ano”, explica Sampaio. O mercado potencial de carne bovina in natura dos Estados Unidos é de 1 milhão de toneladas.

Na opinião de Sampaio, essa conquista é resultante de um longo e árduo trabalho que, se não fosse pelo empenho de órgãos como o Ministério da Agricultura, Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty) e outras entidades, não se teria sucesso. A demanda dos Estados Unidos é exclusivamente por cortes de dianteiro para o processamento, em especial, de hambúrguer.,

De acordo com o veterinário e especialista na indústria frigorífica, Vasco Picchi, esse será o principal destino dos cortes brasileiros pelo fato de possuirmos uma carne magra em comparação com a produção local. O índice de gordura intramuscular do gado brasileiro é de no máximo 2% ou 3% enquanto os números do rebanho dos Estados Unidos chegam a 12% e 13%.

Questionado se o setor receberá mais dos americanos que dos árabes pelo motivo de ambos apreciarem o anterior do boi, o diretor da Abiec responde: “é difícil afirmar qual será o preço médio da carne bovina exportada para a indústria estadunidense. No entanto, isso é mais do que uma oportunidade, é uma estratégia global. Como a indústria nacional demanda mais por cortes de traseiro (os mais valorizados), as empresas conseguirão equilibrar melhor as vendas, adequando-se conforme os preços mais interessantes em cada nicho”, esclarece Sampaio.


O outro lado da moeda

O prof. Pedro Eduardo de Felício, da Unicamp, respeitado especialista quando o assunto é carne bovina, não aposta muito na conquista de outros importantes mercados através dos EUA. Países que eram parceiros comerciais dos americanos passaram a comprar carne bovina da Austrália após o registro do caso da doença da “Vaca Louca”, em 2003, e se habituaram ao produto. Outro fator negativo para os brasileiros é que o país da Oceania está mais próximo daqueles que seriam nossos potenciais clientes de alto valor agregado.


Gerando divisas

Além do green card, a grande expectativa com essa conquista é o acesso instantâneo do Brasil a outros mercados internacionais de alto valor agregado. “Vários países no mundo seguem cartilha semelhante à praticada pelos norte-americanos, facilitando negociações futuras com essas nações”, reforça Luiz Cláudio Paranhos, presidente da Associação de Criadores de Zebu (ACBZ).

Lote de animais Nelore apresentou marmoreio em abate técnico no Mato Grosso do Sul

“No entanto, trata-se de um processo de médio prazo, que precisa ser trabalhado para ser conquistado. Mas sem receio, há chances de conquistarmos os mercados japonês e coreano”, garante o diretor- -executivo da Abiec.

Uma dúvida que paira é se os pecuaristas brasileiros darão conta de fornecer toda essa carne no curto prazo, marcado por uma certa “escassez” de bois, embora a realidade também seja de queda no consumo doméstico, mas o próprio Paranhos elucida a questão. “Tudo depende da demanda e da remuneração. Pagar bem o produtor é o caminho mais rápido e lógico para fazer com que os bois apareçam”, analisa.

No entender de Alcides de Moura Torres, sócio-diretor da Scot Consultoria, a pecuária brasileira é uma das maiores no globo e não vai se abalar com a nova demanda. “Não está faltando boi. Apenas a oferta está menor, são coisas distintas. O potencial de produção da pecuária brasileira está longe do teto”, diz, complementando o raciocínio do presidente da ABCZ.

“De toda a carne bovina que o Brasil produz, cerca de 20% são exportados e essa conquista é mais uma opção para o setor, auxiliando, inclusive, no equilíbrio das vendas das empresas. A possibilidade de exportar para os Estados Unidos em contrapartida da quantidade produzida de carne é pouco significativa no total, o que não deve causar impacto internamente,” reforça Sampaio.,

Frutos já estão sendo colhidos. O anúncio da abertura dos Estados Unidos foi precedido da conquista de mais um cliente. Myanmar, país localizado próximo à China, autorizou no dia 15 de julho a compra de alimento cárneo, conforme anunciado pela ministra Katia Abreu. Com isso, o Brasil será o primeiro país a fornecer carne in natura para aquela nação asiática.

As negociações tiveram início há três meses, por iniciativa do Mapa, com a colaboração das empresas exportadoras. A perspectiva do setor é de que o volume de carne comercializada seja de 10 mil toneladas anuais, totalizando cerca de US$ 42 milhões.

A ministra da Agricultura informa ainda que a missão ténica de Myanmar conheceu e aprovou a Plataforma de Gestão Agropecuária (PGA), um sistema desenvolvido pela Confederação Nacional de Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e pelo Mapa para unificar o banco de dados nacional dos produtos de origem animal, fornecendo informações referentes ao rebanho e às propriedades rurais nos 27 estados da federação.

Investir em qualidade

Não é novidade que a carne que o mundo anseia é a brasileira. Tanto que desde 2008 o País encabeça o ranking de maior exportador mundial de carne bovina e as previsões ainda indicam crescimento para os próximos anos. Segundo o Ministério da Agricultura, os embarques crescerão a um ritmo de 2,15% ao ano, ainda que o produto tupiniquim ser visto mais como “barato” do que como “bom”.

Apesar do reconhecimento indireto do Usda ajudar a atestar a qualidade dos cortes brasileiros, o líder da ABCZ coloca a busca por maior sabor, maciez e suculência como premissa aos criadores, algo que já vinha sendo feito há muitos anos com ajuda da seleção genética, do fornecimento de melhor aporte nutricional aos animais e dos progressos constantes no controle sanitário do rebanho bovino nacional, em especial no caso da febre aftosa, ações que precisam ser continuadas. “A procura constante por melhoria da carne é uma obrigação que independe do novo status conquistado”, ratifica.


E o preço da arroba como fica?

Se o anúncio das exportações de carne in natura aos EUA vai surtir algum efeito na cotação da arroba do boi gordo, a avaliação do engenheiro-agrônomo e fundador da Scot Consultoria, Alcides de Moura Torres, é que não. “Tanto é assim que o preço não subiu e, para falar a verdade, caiu. Temos de superar alguns trâmites burocráticos até que o fluxo de mercadoria se estabeleça, tais como protocolos sanitários e aprovação de plantas. Efeito positivo de fato, entrada de divisas, somente em 2016”, analisa Torres.


Na concepção do diretor da Abiec, podemos agregar valor ao nosso produto de duas maneiras. A primeira é atingindo mercados que remuneram melhor. Se pudermos vender dianteiros aos EUA a um preço mais elevado do que o conseguido com a Arábia Saudita pelos mesmos produtos, por exemplo, já estamos acrescentando valor. Da mesma forma vamos agregar quando for priorizado vender cortes nobres como alcatra, filé mignon e contrafilé à Europa ao invés de direcioná-los a quem paga menos.

A segunda maneira é acessar o segmento da alta gastronomia. “Em um estudo de branding que elaboramos, vimos que o Brasil é conhecido por ser um fornecedor potencial de qualquer corte bovino, mas de carne classificada como ingrediente, aquela que vai se transformar em lasanha congelada e embutidos, entre outros alimentos processados”, comenta Sampaio.

Não parece, mas esta é uma peça de carne de Nelore. Raça também é capaz de produzir marmoreio

De acordo com diretor-executivo da Abiec, precisamos trabalhar a nossa imagem institucional para atingir steak houses e churrascarias. “A associação tem triplicado esforços para alterar essa realidade, transformando o Brasil em sinônimo de carne culinária e gourmet. E a abertura desse mercado é fundamental para a conquista dessa nova imagem”.

“A carne bovina brasileira possui qualidade, o preço é competitivo e temos estrutura para atender a demanda interna e externa. Agora, se isso vai influenciar na forma como ela é produzida, só se houver estímulo financeiro por parte da indústria”, conclui o diretor da Scot Consultoria.

Nelson João Bertipaglia e o filho Júnior apostam na avaliação de carcaça para melhorar a qualidade de carne do Nelore

Solução na avaliação de carcaça

Para surpresa de Torres, os pecuaristas estão antenados nas demandas internacionais e também na necessidade dos consumidores internos. Integrante da raça que ajudou a construir a pecuária brasileira, o nelorista Nelson João Bartipaglia Júnior iniciou um projeto de avaliação de carcaça por meio da ultrassonografia em sua propriedade na cidade de Brasilândia/MS, a Fazenda Taperi.

Ele sabe que mesmo o Nelore, reconhecido por uma adaptabilidade e rusticidades invejáveis ao clima tropical, também precisa elevar o rendimento de carcaça, a espessura de gordura subcutânea, maciez e marmoreio. Esta última característica, em especial, é extremamente cobiçada no mundo todo. O produtor destacou 36 animais do plantel, sendo 10 fêmeas e 26 machos, todos criados em condições de pastagem e terminados em confinamento durante 80 dias.

As avaliações por ultrassom iniciaram já na desmama, quando bezerros, e o primeiro abate técnico foi realizado em um frigorífico do município de Estrela D’Oeste/SP, já com idade entre 24 e 25 meses e peso médio entre 17 e 20 arrobas. As carcaças apresentaram espessura de gordura mediana ou uniforme e presença de marmoreio.

Para o criador da Fazenda Taperi, o abate mostrou que a raça é capaz de ser rentável, de alto rendimento de carcaça, com ótimo acabamento, além do bom rendimento de marmoreio, mesmo criada conforme as condições da pecuária brasileira. Além disso, o produtor está preparando mais dois abates técnicos nos próximos anos.

Segundo a diretora técnica da empresa responsável pela ultrassonografia de carcaça dos animais, Liliane Suguisawa, os animais foram escolhidos pelo equilíbrio em musculosidade, acabamento e marmoreio, em 2012.

O trabalho também contou com a consultoria de Roberto Barcellos, conceituado especialista em qualidade de carne, que ficou impressionado com os resultados obtidos na raça Nelore. “Hoje, estamos diante de uma quebra de paradigma, pois vimos o resultado na primeira geração de seleção. Bastou definir um critério de seleção de algumas características desejadas pelos consumidores, nesse caso o marmoreio da carne, que o resultado aparece. Trabalho sério que merece ser comemorado”, completa Barcellos.

Além do investimento em avaliação de carcaça outra solução encontrada pelos pecuaristas para aumentar a oferta de carne de qualidade superior é o cruzamento industrial, no qual o trabalho conjunto entre zebuínos e taurinos tem aguçado o paladar de clientes exigentes dentro e fora do Brasil