Manejo

 

CURRAL

Mocinho ou vilão?

Carlos Gonçalves da Silva*

Por menor ou mais extensa que seja uma propriedade rural destinada à bovinocultura, existe um lugar onde todo o rebanho, inquestionavelmente, tem de passar. Esse local é o curral. Seja em períodos de campanha de vacinação, desmama, apartação, manejo reprodutivo ou em qualquer atividade com os animais, o curral é local mais indicado e correto para tal prática.

Quando indaguei no título (Mocfinho ou vilão), é pelo fato do local que, por lógica, deveria ser propício ao conforto e bem- -estar do homem no manejo dos animais e garantir manejo racional dos mesmos, sem agressões e com baixo nível de estresse, mas, via de regra, não é visto assim Brasil afora.

Não é preciso andar muito para se encontrar estruturas construídas de formas variadas e sem nenhum conhecimento técnico de manejo de bovinos. Algumas plantas apresentam pontos que são verdadeiras armadilhas aos bovinos e causadoras de prejuízos ao pecuarista, pois resultam em um alto índice de lesões e hematomas, comprometendo muito o desempenho produtivo do animal e a qualidade da carne no frigorífico.

Currais mal projetados ainda são uma realidade na cadeia produtiva de gado de corte, tudo porque projetos como esses eram executados sem planejamento do manejo e havia desconhecimento dos produtores em relação aos procedimentos de bem-estar animal e humano atualmente difundidos no setor. Historicamente, as construções eram feitas em madeira de lei, oriundas da região, levando em conta um antigo “conceito” de que quanto mais grossos fossem os palanques (mancos/ mourões) e tábuas, melhor seria o curral.

Com o passar dos anos, a escassez de madeira fez com que a mesma fosse buscada na Bacia Amazônica, porém, isso elevou os custos de construção a quem se localizava mais distante, além da necessidade de legalização. Surgem, então, materiais alternativos como cordoalhas; concreto, madeira tratada, etc. Coberturas que antes eram com madeiramento e telhas de barro passaram a ser feitas com estruturas de aço e telhas de amianto ou zinco.

Curral é um local projetado para a curta permanência dos aninais

Juntamente com esses novos materiais, chegou a cultura do bem-estar animal, que priorizava currais que permitissem ao homem e ao animal um manejo racionalizado e que concentrasse baixo número de pessoas dentro da composição. As plantas também passaram a facilitar o trabalho diário e ser construídas de acordo com o volume de animais da propriedade, sendo instaladas em pontos estratégicos para diminuir o percurso do bovino até o centro de manejo. Surgiram estruturas com pontos de água, áreas de descanso e reserva de animais, além de embarcadouros projetados para facilitar a entrada e a saída de bovinos, na sua maioria, equipados com troncos de contenção e balanças.

Localização

Quanto mais centralizado for o centro de manejo, melhor será, pois quanto menor for o percurso que os animais fizerem, menos estresse e desgaste eles terão, o que interfere diretamente na perda momentânea e no ganho de peso futuro, pois quanto menos andar, menos energia queimará. O ideal é que se construam corredores de acesso, favorecendo em muito o manejo dentro da propriedade. Preferencialmente, escolha um local com nível mais alto que o terreno em geral. Caso não seja possível, eleve o nível com o uso de aterro. Deve-se levar em consideração a posição do trajeto do sol durante o dia, pois interfere muito na qualidade do manejo, como será visto no item cobertura.

Tamanho

Nos novos conceitos e projetos, os currais em si estão bem reduzidos no tamanho, mas foram incluídos de centros de manejos dimensionados conforme o rebanho da propriedade, cercados com muitas remangas (piquetes montados no entorno, com cochos e água) as quais permitem que o rebanho seja trazido do pasto em maior quantidade e fique esperando o manejo se alimentando e se hidratando. O mesmo local serve de espera até o momento do retorno ao pasto de origem.

Segundo Carlos Gonçalves, é comum encontrar estruturas construídas de formas variadas e sem nenhum conhecimento técnico

Tronco coletivo

Seguindo o conceito de manejo racional, esse é construído em curva, pois os animais acreditam estar indo para uma saída a qual terminará em um determinado equipamento, facilitando o manejo sem a necessidade de agredir o bovino. O piso deve ser construído em concreto e possuir passarela ao longo da estrutura, assim se torna mais fácil conduzir o animal dentro do curral. As paredes laterais devem ser todas fechadas para que o gado seja estimulado sempre a seguir em frente.

Cobertura

A cobertura é importante para a proteção dos produtos biológicos (vacinas e outros medicamentos utilizados), bem como a proteção dos equipamentos ali utilizados (tronco, balança, microscópio, computadores, etc.). Visa também auxiliar no conforto dos trabalhadores durante as atividades e deve ser projetada para proteger toda área de serviço e embarcador. No início de qualquer projeto de construção de curral, é sábio observar a direção em que o sol nasce e se põe e assim definir a posição exata em que será feita a cobertura, a fim de que se obtenha sombra o dia todo.

Embarcador

É onde acontecem muitas das contusões e lesões de carcaça. O embarcador deve ter paredes fechadas, rampa de acesso antiderrapante e ao seu final recomenda-se que tenha lance em nível e ajustável à altura do caminhão. Também é desejável a construção de uma passarela ao longo do embarcador, além de uma porteira de correr ao final do mesmo. Dessa forma, evita-se que seja usada a porta da gaiola boiadeira, que por muitas vezes é solta sobre a lombar dos animais, causando enormes lesões nas partes nobres do gado.

Tronco de contenção (brete)

Estudos relatam que o bovino tem boa memória, fato pelo qual ele não deve associar que tanto o curral quanto o tronco de contenção sejam locais de sofrimento e dor, pois se ele tiver essa lembrança, certamente irá se impor para não entrar mais. O tronco de contenção deve ser ficar onde se possa limitar e impedir os movimentos do bovino e permitir que sejam feitas todas as intervenções necessárias, sem riscos ao homem e ao animal. Ao se adquirir um tronco, não se atente somente ao preço do produto, e sim ao ideal sistema de contenção para o manejo na propriedade. Muitos modelos disponíveis no mercado não são adequados para alguns tipos de manejo pecuário e é nesse momento que o produtor pode pagar muito caro pela escolha errada, pois um equipamento inadequado pode também gerar grandes prejuízos principalmente em animais de terminação para corte.

As grande empresas fabricantes desses produtos estão sempre atentas à adequação das medidas e de novos designers para os produtos, permitindo, assim, equipamentos mais modernos e com maior eficiência e segurança. Quando o pecuarista não tiver total conhecimento do que é melhor, o preferível é que o mesmo consulte o médico-veterinário que lhe atenda, os profissionais ligados ao manejo dos bovinos ou até mesmo um profissional da área de venda.

Balança

É um item que ainda gera divergências de opiniões quando se vai construir ou adequar um curral. Alguns pecuaristas persistem nos modelos tradicionais, as famosas balanças mecânicas. Outros já se atentam a modernidade, agilidade de trabalho e unificação com o tronco de contenção. Ao redigir esta publicação, tive o cuidado de fazer um comparativo de custos dos dois modelos disponíveis no mercado: tronco + balança mecânica separados X tronco com balança eletrônica conjugados. Os valores quase se equiparam, variando conforme o modelo de indicador de pesagem escolhido.

Quando separados, aumenta-se a necessidade de porteiras de apartes, o número de lances de curral e mais área de cobertura. Consequentemente, aumenta-se a necessidade de manejo, pois passarão a ser duas atividades separadas, uma vez que, no equipamento conjugado, já se consegue realizar a intervenção e a pesagem em um só momento, facilitando a tomada de decisão. Ainda há o ganho extra a quem faz o gerenciamento e o controle do rebanho: alguns equipamentos eletrônicos já servem tanto para a coleta dos dados e para gerar relatórios de avaliações tanto individual quanto do lote.

Treinamento

Por mais que a estrutura de curral seja construída dentro dos conceitos atualmente utilizados, equipados com os melhores produtos, não é possível ter um manejo totalmente eficiente e produtivo. Para tanto, ainda falta um ponto desafiador, que é a conscientização dos funcionários e gerentes de que mudanças são necessárias. Quando isso é compreendido pela mão de obra, os resultados são rápidos, os animais ficam menos estressados, com baixo índice de contusões e lesões de carcaça, maior produtividade em ganho de peso, rendimento de carcaça e, consequentemente, melhor rendimento frigorífico.

Tronco coletivo em curva respeita preceitos do manejo racional de bovinos

Existem no mercado nacional diversos profissionais aptos a realizar tais treinamentos, que levam em conta aspectos do comportamento e da estrutura biológica dos bovinos. Após uma experiência como essa, os peões passam a conhecer o comportamento do animal, facilitando, assim, o manejo, dispensando a necessidade de agressões físicas e correrias dentro do curral. Passa-se a trabalhar nas condições dos animais e não na do homem.

*Carlos Gonçalves é supervisor Comercial da Coimma em Redenção/PA carlos@coimma.com.br


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