Feno & Silagem

 

DENSIDADE

Palavra de ordem quando o assunto é qualidade de silagem

Sérgio Toledo Filho*

A cultura do milho, pela tradição no cultivo, produtividade, custo operacional de produção e valor nutricional, tornou-se a “cultura padrão” para a confecção de silagem, sendo fundamental na produção intensiva de bovinos.

Sempre há interesse em melhorar cada vez mais a produção de silagem e, para isso, têm-se focado sempre nas práticas relacionadas à ensilagem, como colheita, tamanho médio de partícula, teor de matéria seca, uso de inoculantes e sistemas de vedação. Aqui, vamos abordar um aspecto diferente, agronômico, que muita vezes passa despercebido pelo produtor: a densidade de plantio.

A densidade de plantio é definida como o número de plantas por unidade de área, e pode ser manejada pela quantidade de plantas por linha e pelo espaçamento entre linhas. Isso possui um papel importante no rendimento de uma lavoura de milho, uma vez que pequenas variações na densidade exercem grande influência no rendimento final da cultura e no valor nutricional.

As características mais desejáveis em uma cultura de milho para ensilagem são teor de matéria seca de 32 a 35%, alta concentração de açúcares para a fermentação e equilíbrio entre alto teor de grãos e baixo teor de fibras, aumentando a digestibilidade. Tudo deve ser associado à máxima produção de matéria seca por hectare.

O valor nutritivo do milho está diretamente relacionado ao arranjo de plantas, densidade de semeadura, espaçamento entre linhas e arquitetura da planta. Esses fatores podem interferir na composição nutricional da planta de milho e consequentemente da silagem.

Desde o momento do planejamento da colheita, decisões como escolha do híbrido, época de plantio e adubação são fundamentais para se produzir uma planta de milho que produzirá silagem de boa qualidade. Os valores que observamos não são tão variáveis, embora entre regiões eles possam variar mais. Mas quanto à densidade, a amplitude de valores é muito grande. Encontramos valores de espaçamentos entre linhas de 35 a 120 cm e densidades de plantio de 35.000 a 85.000 plantas por ha-1. No entanto, a densidade inadequada está entre os fatores que são responsáveis pela baixa produtividade das lavouras de milho. Por isso, a densidade de semeadura exige cuidados devido às diversas interações que ocorrem entre as plantas e o ambiente, afetando a arquitetura da planta, alterando padrão de crescimento e desenvolvimento e influenciando a produção de carboidratos, o que afeta a proporção entre as partes da planta (grãos, espiga, colmos e folhas).

Mas por que isso ocorre?

Com o aumento do número de plantas por hectare, há aumento do volume de massa seca, espigas e grãos. Porém, há grande competição por água, luz e nutrientes do solo, o que obriga as plantas a crescerem com certa restrição. Assim, como conjunto – por hectare – se produz mais, ao passo que, individualmente, as plantas produzem menos e com diferenças nas suas estruturas. Estudos da Universidade da Pensilvânia/ USA mostraram que a maior produtividade alcançou-se com 105.000 plantas por ha-1; porém, a partir disso, observa- -se a tendência de diminuição da produtividade.

Portanto, temos de encontrar um ponto ideal entre produtividade e qualidade ou, pelo menos, entender a importância dessa variável e as opções.

Mas, afinal, qual a densidade ideal? Quantas plantas de milho devem existir em um hectare? Isso depende de uma série de fatores. Aqui vamos abordar que existem diversas situações e algumas limitações. Lembre-se sempre de consultar um engenheiro-agrônomo para avaliar a situação de sua propriedade.

Primeiro, porém, vamos ver como se calcula quantas plantas e quantos quilos temos por hectare. Um hectare são 10.000 m2. Assim, divida esse valor pelo espaçamento para saber quantos metros lineares possui o hectare plantado. Depois conte quantas plantas existem em 1 m linear (pode-se fazer a média de 3 a 4 avaliações). Então, multiplique o número de plantas pelo valor linear do hectare. Por exemplo: contamos, em média, quatro plantas por metro linear e que o espaçamento é de 0,5 m. O peso médio por plantas é de 0,8 quilos. Posto isso, temos que: 10.000 m2/0,5 m = 20.000 m lineares. Se temos quatro plantas por metro linear, nosso hectare possui 20.000 m lineares x 4 plantas (ou 0,8 kg) = 80.000 plantas ha-1 ou 64 t ha-1.

A população ideal para maximizar o rendimento de grãos de milho varia de 30.000 a 90.000 plantas ha-1, dependendo da disponibilidade hídrica, fertilidade do solo, ciclo híbrido e espaçamento entre linhas, sendo 80.000 plantas ha-1 o mais comum, havendo casos de chegar a mais de 100.00 plantas ha-1. Quando se tem menor fertilidade do solo, deve- -se trabalhar com densidade menor para que a planta não tenha alta restrição de crescimento. Geralmente, tem-se trabalhado com 4,5 a 5,5 sementes por metro linear, em espaçamentos de 70 cm a 90 cm, gerando de 50.000 a 70.000 plantas ha-1. Produtividade média de 50 t de massa verde ha-1 é considerada alta, embora alguns especialistas considerem 65 t ha-1.

A redução do espaçamento de semeadura entre linhas propicia melhor distribuição espacial de plantas de milho e melhor produção de forragem, aliada à maior cobertura do solo e aumento do número de plantas por unidade de área. Dados de pesquisa mostram vantagens do espaçamento reduzido (45 cm a 50 cm entre fileiras), comparado ao espaçamento convencional (80 cm a 90 cm), especialmente quando se utilizam densidades de plantio mais elevadas. O surgimento de novos híbridos de milho precoce aumentou o potencial de resposta da cultura à densidade de plantas. Isso se deve à arquitetura das plantas dos híbridos modernos, que permitem o plantio mais denso, em virtude de os mesmos produzirem menor quantidade de massa, terem estatura reduzida, menor número de folhas e folhas mais eretas, aproveitando melhor a luz, a água e os nutrientes do solo. Mesmo o aumento da densidade de plantas de milho podendo aumentar a produção de MS, em algumas situações, isso irá afetar outros componentes relacionados ao valor nutritivo da silagem, pois implica no tamanho da planta, da espiga e da espessura do colmo.

Quando se aumenta a densidade de plantas, aumenta-se a interceptação da radiação solar incidente pela comunidade de plantas de milho, otimiza-se o seu uso e potencializa-se o rendimento de grãos, a parte mais nutritiva da planta. Uma avaliação de diferentes híbridos de milho, espaçamento e densidade de plantio mostrou que o rendimento de grãos cresceu com o aumento da densidade de plantio em ambos os espaçamentos (reduzido e normal), demonstrando que poderia se aumentar ainda mais a produtividade com o aumento na densidade de plantio. Todavia, no espaçamento de 50 cm (considerado reduzido) entre linhas, a produtividade apresentou maior ampliação quando se passou de 40.000 plantas ha-1 para 77.500 plantas ha-1 do que no espaçamento de 80 cm (considerado normal), indicando que entre as linhas é mais vantajosa quando se utilizam maiores densidades de plantio.

Entretanto, pesquisas mostram que os percentuais de colmo, que normalmente giram em torno de 25%, crescem quando ocorre aumento na população de plantas ha-1. Isso significa que, com aumento da população de plantas, a porcentagem de colmo pode passar de 30%, aumentando também o valor total das fibras. Considerando que a maior concentração de fibra (Fibra em detergente neutro – FDN e Fibra em detergente ácido – FDA) está presente no colmo, consequentemente, o excesso de população de plantas resultará em menor digestibilidade e consumo do material produzido.

Pesquisadores americanos encontraram queda no valor nutritivo do milho com o aumento da densidade. A digestibilidade in vitro da matéria seca diminuiu 2%, pois a FDN e a FDA tiveram aumento de 2,6%.

Maior adensamento propicia melhor distribuição espacial, melhor produção de forragem, maior cobertura do solo e aumento do número de plantas por unidade de área

Pesquisas realizadas pela Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos, mostrou que existe uma relação direta entre densidade de plantio e teor de fibra. Os resultados sugerem que o aumento da densidade, embora aumente a produção por hectare, a qualidade da silagem tende a diminuir.

O mesmo foi reportado por pesquisadores da Universidade de Alberta, no Canadá. A tabela da página 39 mostra que a digestibilidade in vitro da matéria seca diminui 15% quando se aumenta a densidade de 50.000 para 125.000 plantas ha-1. Isso porque os teores de fibra aumentaram, sendo 4,5% e 5,2% para FDA e FDN, respectivamente. Também diminuiram os teores de proteína e amido.

FDA – FIBRA EM DETERGENTE ÁCIDO, FDN – FIBRA EM DETERGENTE ÁCIDO, DFDN – DIGESTIBILIDADE DA FDN, DIVMS – DIGESTIBILIDADE DA MATÉRIA SECA, PB – PROTEÍNA BRUTA (UNIVERSIDADE DE ALBERTA, 2007)

Em relação à produção de leite, em estudos realizados na Universidade do Novo México/USA foram observadas as produções máximas com aumento da densidade de 76.000 para 86.000 plantas por ha-1, devido ao maior número de grãos. Entretanto, outros pesquisadores encontraram produção máxima de leite com densidade de plantio de 81.000, sendo que densidade de 117.500 plantas ha-1 não teve influência na produção, uma vez que a digestibilidade in vitro da matéria seca decresceu 0,7%, sendo que a FDN aumentou 1,3%. Eles concluíram que aumentar a densidade para mais de 80.000 plantas ha-1 não melhora a digestibilidade, apesar de aumentar o número de grãos na espiga, que é contrabalanceado pelo aumento de fibra. Isso foi confirmado por outra equipe americana que avaliou duas densidades de plantio (75.000 e 150.000 plantas ha-1) e observaram que os teores de FDN e FDA da silagem aumentaram em detrimento dos nutrientes digestíveis totais (NDT), apesar da produção de leite das vacas não ter sido alterada. Entretanto, eles encontraram diferença na produção de leite entre os híbridos avaliados, mostrando que existem híbridos que respondem de forma distinta a diferentes densidades de plantio. O mesmo foi reportado em uma avaliação em que a produção de leite aumentou por hectare em 24%, ao passo que o NDT diminuiu 2% e a energia metabolizável, 4%, com o aumento da densidade de plantio de 45.000 para 150.000 plantas ha-1. Aumenta-se a produção por hectare devido ao aumento de produção de biomassa, que favorece aumentar a taxa de lotação (kg de leite ha-1), mas, por causa do teor de fibra ser maior, a qualidade da silagem diminui, evidente pela queda no NDT e na disponibilidade de energia para lactação (tabela da página 40).

Por isso, o híbrido também influência fortemente a densidade de plantio, sendo importante escolher, de acordo com a necessidade, recursos naturais e região. No geral, híbridos precoces requerem maiores densidades de plantio, comparados a tardios, para expressarem o máximo de rendimento. Isso ocorre porque os híbridos precoces originam plantas mais baixas e de menor massa. Por serem menores, há menos sombreamento e, então, o espaçamento pode ser menor, uma vez que as plantas aproveitam melhor a luz.

Híbridos tardios também têm diferença. Estudos da Embrapa com 270 híbridos mostram que as tardias apresentam de 40.000 a 50.000 plantas ha-1. Já híbridos duplos podem chegar a 65.000 plantas ha-1, sendo o normal de 45.000 a 55.000 plantas ha-1, enquanto os triplos atingem 80.000, sendo o normal de 55.000 a 60.000 plantas ha-1.

Outro problema que pode ocorrer se aumentarmos em muito a densidade é a competição. O excesso de plantas dificulta o uso de recursos pelas mesmas, de forma individual, levando à redução do diâmetro do colmo, com maior suscetibilidade ao acamamento e ao quebramento. Além disso, é reconhecido que pode haver um aumento na ocorrência de doenças, especialmente as podridões de colmo, com o aumento na densidade de plantio.

Esses aspectos podem determinar o aumento de perdas na colheita, principalmente quando é mecanizada.

A água é fundamental para o desenvolvimento das plantas. Se aumentarmos a densidade, será necessário aumentar a disponibilidade de água? Com relação à disponibilidade hídrica, associada à disponibilidade de nutrientes, observa-se que a densidade deve ser aumentada sempre que esses fatores forem otimizados, para que seja atingido o máximo rendimento de grãos. Em situações de áreas irrigadas ou se não há restrições hídricas, é aconselhável usar o limite superior da faixa da densidade recomendada pela empresa que comercializa o híbrido. Grosseiramente, quanto maior for a disponibilidade de nutrientes e água para as plantas, maior será a densidade para se alcançar o máximo rendimento. Isso está de acordo com resultados observados no Novo México/USA – cujo clima é subtropical quente e seco – que indicaram que o milho plantado em 75.000 plantas ha-1 e irrigado com 508 mm de água, que é de 10% a 33% menor do que o valor muitas vezes aplicado na região tende a diminuir a produção de MS e o valor nutritivo em relação ao milho plantado em 22.500 e 27.000 plantas ha-1, e irrigadas com a mesma quantidade de água.

Excesso de plantas causa quebramento e acamamento

Mas será que é necessário também aumentar a aplicação de nitrogênio no solo? O estudo já citado da Universidade do Novo México, nos Estados Unidos, avaliou o efeito de doses de nitrogênio (221 kg e 283,5 kg ha-1) na produção e valor nutritivo de plantas de milho submetidas a três densidades de plantio (56.250, 67.500 e 75.000 plantas ha-1). Os resultados mostraram que não houve diferença na produção e na qualidade do milho em nenhuma das doses em nenhuma das densidades testadas, mesmo quando as doses de nitrogênio foram reduzidas em 20%. Porém, em outro experimento, foram testadas duas densidades de plantio (81.000 e 117.500 plantas ha-1) e seis doses de nitrogênio (0 a 252 kg ha-1). A máxima produtividade em matéria seca foi de 21,25 t ha-1 (60,7 t de matéria verde ha-1) com 152 kg de nitrogênio ha-1, independentemente da densidade de plantio, não havendo aumento de produtividade e nem no valor nutritivo acima dessa dose. Assim, os pesquisadores concluíram que milho para silagem deve ser produzido com cerca de 81.000 plantas por ha-1 a uma dose de nitrogênio de aproximadamente 152 kg de nitrogênio ha-1, para combinarem produtividade e valor nutritivo.

A redução no espaçamento entrelinhas e o aumento da densidade de plantio é uma realidade na cultura de milho no Brasil, tanto que já existem empresas que produzem colheitadeiras adaptadas para espaçamento de até 45 cm. O aumento da densidade de plantio, até certo ponto, tem promovido o aumento da produtividade de grãos, melhora na qualidade da silagem, aumento na porcentagem de NDT e redução na porcentagem de participação de fibras na matéria seca. Entretanto, mesmo com adubação e disponibilidade hídrica o suficiente, não se deve aumentar a população de plantas por hectare mais do que cerca de 10% em relação à orientação da empresa produtora de sementes para não comprometer a qualidade final da silagem, senão ocorrerá aumento significativo nas porcentagens de fibra (FDN e FDA), reduzindo o consumo e a digestibilidade da silagem.

Portanto, se o objetivo do produtor for quantidade de matéria seca produzida – volume de silagem – a densidade deve ser entre 10 e 20% maior que a recomendada para a produção de grãos. Entretanto, se o objetivo for silagem de alta qualidade – priorizando a produção de grãos e a digestibilidade – a população de plantas por hectare deve ser semelhante à usada para produção de grãos.

*Sérgio Toledo Filho é mestre em Ciência Animal e Pastagem pela Esalq/USP