Competição

 

Competição

A competição move o mundo. Se não fosse por ela, muito provavelmente ainda estaríamos nas cavernas ou nas árvores. Um cara descobriu o fogo? Eu quero também. Alguém fez uma lança? Eu vou fazer uma melhor. Uns são fazendeiros. Eu vou ser também. Eles produzem bezerros pesados. Eu vou produzir também. E se possível, melhor do que todos.

As vacas do vizinho são pesadas, as minhas vão ser também. E por aí vai.

Por um lado, é muito positivo, mas, por outro, pode ser uma grande bobagem.

Positivo porque acho que estamos bem melhor agora do que quando estávamos nas cavernas ou nas árvores. A competição justa e salutar nos leva a sermos melhores, fazermos as coisas de uma forma mais bem-feita. E pode ser uma competição com a gente mesmo. Quero fazer melhor do que eu fazia antes. Legal, bom.

Por outro lado, temos de nos cuidar para não competirmos de uma forma burra, desonesta, que nos faça ser pior do que somos, somente para satisfazer egos naturalmente já inflados.

Trazendo esta conversa para o nosso campo, precisamos tomar cuidado com modismos e com números que não representam muita coisa. Para quem vive somente da pecuária ou tem nela grande parte de sua renda, é necessário prestar muita atenção e saber diferenciar o que é conversa e o que realmente interessa. Agora, quem tem na pecuária um hobby ou uma forma de ascensão social, não deve se preocupar com o que estou dizendo, faça com quiser, divirta-se e aproveite.

Se você faz parte do primeiro grupo, seja competitivo nas coisas que vão trazer retorno financeiro pra você, no curto, médio e longo prazos. Você não precisa nem deve ter vacas gigantes e pesadas demais, a não ser que seus pastos sejam próprios para esses animais.

Lembre que vacas, bezerros, bois, garrotes e touros são meios de você ganhar o seu dinheiro fazendo o que gosta. Mas se não ganhar dinheiro, vai ficar difícil de manter a sua propriedade e o seu gado.

Uma vez um amigo me comentou sobre as conversas de bar do pessoal que mexe com leite na Nova Zelândia. Acho que até já comentei sobre isso aqui nesta coluna, mas, se já escrevi, não custa reforçar. Os produtores de leite de lá não comentam sobre o tamanho da fazenda, nem sobre a quantidade de vacas que eles têm nem quantas estão sendo ordenhadas, nem sobre a média de litros que estão tirando por dia, nem da média de litros por vaca. Eles acham que esses números sozinhos não querem dizer muita coisa. O que eles realmente conversam e são muito competitivos nisso é sobre quanto estão lucrando com o leite. Quanto mais lucram, mais bebem e se divertem. É uma beleza.

E estão certos. Do que adianta dizer que as vacas produzem uma média de 25 quilos de leite por dia? Ou que entrego 10 mil litros por dia para a companhia de leite? Isso sozinho não diz nada. Podemos ter esses números, que a princípio soam como ótimos e estarmos com um prejuízo enorme.

Minhas vacas pesam pelo menos 700 quilos, temos um índice de prenhez de 90% e os bezerros desmamam com 300 kg. Só que não disse que dou ração todos os dias para as vacas e para os bezerros, que tenho dez funcionários para cuidar de 100 vacas e que o prejuízo da fazenda é enorme, e que minha empresa de engenharia banca a brincadeira.

Vamos ser competitivos no que realmente importa. Dá uma olhada e pensa: “estou realmente fazendo a coisa certa?”