Na Varanda

 

Boi para o Tigre?

Francisco Vila é economista, consultor internacional e diretor da Sociedade Rural Brasileira vila@srb.org.br

A recente visita do líder chinês à Brasília levantou o ânimo dos que estão preocupados com a economia. Após anos de inércia política, o encontro abriu boas perspectivas para o setor de alimentos. Investimentos maciços em projetos de infraestruturas combinados com atos diplomáticos para desbloquear as barreiras sanitárias injetaram uma dose de otimismo nos empresários.

Nessa linha, o presidente da Sociedade Rural Brasileira defende a negociação de um acordo plurianual que define o que o governo chinês prevê de necessidade de importação de proteínas vegetais e animais para, a seguir, firmar contratos de longo prazo com definição de tipo, qualidade, volume e preços.

Antes de avaliar o assunto em seu contexto histórico e político, convém identificar o potencial de demanda, oferta e, assim, barganha das principais potências globais do segmento das carnes, pois o posicionamento correto é o primeiro passo para vencer no comércio internacional.

Em 2014, os EUA lideraram a produção global de carne bovina, com 19% do mercado; seguido pelo Brasil, com 17%; a União Europeia, com 13%; a China, com 10%; a Argentina, com 5%; e a Austrália, com 4%. No cenário da exportação de carne, o jogo já é diferente. Em 2013, o Brasil liderou com 20,17%, antes era a Índia, com 19,26%; seguida pela Austrália, com 17,38%; e os EUA, com 12,79%. Do outro lado do balcão, temos as importações lideradas, em 2014, pelos EUA, com 13,60%; seguidos pela Rússia, com 13,15%; o Japão, com 9,80%; Hong Kong, com 7,41%; China, 7,09%; União Europeia, com 4,90%; e Coreia do Sul, 4,64%. Para corretamente posicionar os principais jogadores, temos de juntar as importações de Hong Kong e China, passando, assim, esse país para a pole position dos importadores, com 14,52%.

Para concluir o raciocínio, falta introduzir o fator de consumo per capita. As Américas lideram com algo em torno de 40 kg/habitante/ ano. Enquanto isso, a Europa contenta-se com menos da metade. Certamente, não será por falta de renda, mas sim de hábitos e culturas diferentes. A China consome em torno de 7 kg por pessoa. Isso reflete a média mundial. Dessa forma, a questão principal para as exportações brasileiras é a provável elasticidade de renda dos asiáticos relativamente ao consumo de produtos bovinos. Os especialistas esperam um aumento contínuo, mas lento. Temos como resultado dessa primeira análise a previsão de uma demanda crescente por parte do nosso principal parceiro comercial. Isso é bom ou ruim?

Claro que é bom, mas, por que poderia ser ruim? Quando traçamos uma estratégia comercial intensa, precisamos analisar o perfil comportamental do parceiro, pois da força de mercado e da sua conduta contratual dependerá como o Brasil pode ser beneficiado como País e quais dos produtores e de que forma aproveitarão dessa aliança estratégica.

A China é uma potência global em ascensão. Como tal, aproveitará seu crescente poder político, físico, militar e de negociação. A prática de parcerias com a África e alguns países asiáticos, bem como a estratégia de investimentos diretos e ocultos em empresas, terras, infraestruturas e bancos ao redor do mundo, demonstra de forma bem clara que o relacionamento com o “Império do Meio” é mais pelo lado neocolonialista do que de sociedade entre iguais. Napoleão avisou há dois séculos: “Deixem a China dormir porque, quando ela acordar, o mundo vai estremecer”. E mais recentemente, em 2010, o ex-ministro Delfim Neto avisou: “Os chineses compram a África e estão tentando comprar o Brasil”. Uma pesquisa na Internet revela as ações e os números concretos dessa invasão econômica do Tigre no território do Boi.

Porém, quais poderiam ser as implicações de um envolvimento mais intenso das empresas (estatais) chinesas na economia brasileira e nomeadamente nos setores primários como agricultura, pecuária e florestas? Primeiro, um empurrão nas infraestruturas que servirão para a rede mundial de comércio desenhado pela China. Isso envolve todo tipo de transportes via autoestradas, ferrovias, hidrovias e, naturalmente, a modernização dos portos, tanto no Brasil como nos países do outro lado dos Andes. A história mostra que o poder político é reflexo da potência econômica. E essa, além da existência de recursos naturais e humanos, pode ser ampliada pela geografia natural (costas marítimas) e artificial (infraestruturas). A China está desenvolvendo projetos em todos os continentes, inclusive através de compra de empresas nos EUA, para assegurar o fluxo transcontinental mais rápido e econômico de suas importações (matérias-primas) e exportações (manufaturados). Assim, em alguns anos, o Brasil Central ficará mais próximo dos grandes centros de consumo na Ásia.

Devido à escassez de recursos hídricos, a China importa água embalada em produtos como grãos e carnes. A política do governo de Beijing fez com que 200 milhões de camponeses (equivalente a uma população brasileira) tenha mudado da roça para a cidade em apenas uma década. Mesmo assim, metade da população ainda vive no campo, enquanto esse índice é de 15% no Brasil.

Perante esse cenário, a China desenvolverá acordos, contratos e práticas de comércio que assegurarão o abastecimento de sua população com alimentos seguros, de qualidade, em volumes crescentes e, naturalmente, a preços acessíveis. O impacto direto nos produtores no Brasil é a tendência de concentração. Somente os pecuaristas que consigam combinar eficiência com qualidade e produção a baixo custo serão competitivos. Sua remuneração não provirá de margens, mas sim do volume de produtos padronizados com lucro unitário reduzido. Dessa forma, o produtor tradicional, com seu sistema extensivo e sub-tecnificado, não será competitivo e, com o tempo, se verá excluído da atividade. Essa tendência, aliás, consta nas previsões da Embrapa, que diagnosticou que 40% dos 5 milhões de produtores rurais deixarão de trabalhar o campo até 2030. Em resumo: a China precisa importar alimentos do Brasil, mas somente os produtores que aplicam tecnologias de ponta e boas práticas de gestão aproveitarão essa oportunidade. A nova frente comercial acelerará a concentração no setor. Ou seja, temos aqui mais um motivo para rapidamente iniciar negociações de acordos plurianuais de comércio com o gigante asiático. Produzir Boi para o Tigre pode ser o lema estratégico dessa parceria.