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ADAPTABILIDADE

Termotolerância em Bovinos de Corte e a importância das avaliações adaptativas

Ângela Maria de Vasconcelos* e Débora Andréa Evangelista Façanha

O Brasil é reconhecido no cenário mundial como detentor do maior rebanho bovino comercial do mundo e o mais importante exportador de carne bovina. Segundo dados da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec), em 2014, as exportações apresentaram um crescimento de 7,7% em relação a 2013. Para o ano de 2015, estima-se um aumento de 10% no volume de exportações de carnes frescas ou industrializadas, principalmente para Hong Kong, Rússia, União Europeia, Venezuela e Egito. Esse crescimento expressivo foi possibilitado, sobretudo, pelo status sanitário do País. Em 2013, o Ministério da Agricultura declarou que 99% do rebanho bovino e 78% do território nacional encontram-se livres de febre aftosa, o que certamente impulsiona a aceitação da carne brasileira no mercado externo.

Dentre os fatores que contribuem para a manutenção das condições sanitárias dos rebanhos, destaca-se o sistema de produção predominante: o extensivo, no qual os animais são criados em pastagens de grandes extensões de terra, com uma baixa taxa de lotação, favorecendo vários aspectos sanitários, somado a fatores como solo, clima e recursos humanos, que colocam o Brasil em posição de destaque no cenário de exportação de carnes.

Porém, que tipos de limitações os bovinos precisam transpor quando são manejados sob condições extensivas ou mesmo em confinamentos a céu aberto?

O Brasil é um país de dimensões continentais, composto por seis biomas, dos quais os mais significativos para a pecuária de corte são o Pantanal, o Cerrado, a Mata Atlântica e os Pampas. Desses, apenas o Bioma Pampas encontra-se em região de clima temperado, cujas temperaturas médias são compatíveis com a zona de conforto térmico da maioria das raças de bovinos. Os demais biomas, onde se concentra mais de 80% do rebanho de corte, encontram-se inseridos nos 93% do território nacional situado entre os trópicos. A consequência direta desse fato é que, em determinadas épocas do ano, correspondentes aos meses mais quentes, os animais são expostos a elevados níveis de radiação solar, sobretudo os que são manejados em sistemas extensivos ou, pior ainda, os que são confinados em espaços desprovidos de sombreamento.

As altas temperaturas ambientais são prejudiciais à produtividade animal, pois os melhores genótipos para desempenho, normalmente, apresentam uma elevada produção endógena de calor, devido à intensa atividade metabólica, o que os torna mais sensíveis ao estresse térmico. A elevada incidência de radiação solar é um dos fatores mais importantes que afetam o desempenho dos animais em regiões tropicais, especialmente bovinos de corte manejados sob condições de campo em sistemas extensivos de criação. Assim, com o objetivo de desenvolver sistemas eficientes de criação, a procura por genótipos tolerantes ao calor está aumentando nos últimos anos, na região tropical do Brasil, por causa da habilidade desses animais em se ajustarem às alterações climáticas.

Tabela 1 - Variáveis ambientais e respostas fisiológicas de tourinhos da raça Brahman em ambiente tropical

Médias seguidas pelas mesmas letras na coluna não diferem entre si pelo teste de Tukey a 5% de significância

A capacidade de manter o equilíbrio térmico com o ambiente está diretamente associada com a habilidade de desencadear os mecanismos termorreguladores, os quais dependem de um conjunto de características morfológicas e fisiológicas adquiridas durante o processo evolutivo, no sentido de garantir o equilíbrio térmico com o ambiente. Esses caracteres devem ser identificados em cada grupo genético, a fim de que possam ser adotados como marcadores fenotípicos em programas de melhoramento genético, caso apresentem herdabilidade elevada, favorecendo a seleção de animais adaptados ao clima tropical.

Dentre as raças de corte utilizadas no Brasil, os bovinos Brahman são dotados de excelente potencial para adaptabilidade às condições de clima tropical. Possuem a pele fortemente pigmentada, que filtra a radiação de ondas curtas, mantendo os animais livres de carcinomas cutâneos. Uma das principais vantagens adaptativas é a habilidade do bovino em perder calor pela sudorese, o que contribui intensamente para a tolerância ao calor. Outras vantagens adaptativas são a capacidade de utilizar alimentos de baixa qualidade, a capacidade de percorrer longas distâncias em busca de alimentos e água, a resistência a endo e ectoparasitas, além da regularidade reprodutiva, mesmo em ambientes estressantes. Um fator que contribui também para a habilidade de suportar temperaturas estressantes é a estrutura de pelame apresentada pelos animais, pouco espesso, composto por pelos curtos e claros, capazes de refletir boa parte da radiação solar, o que possibilita aos animais pastejarem em horários de intenso calor, com danos mínimos.

As vantagens adaptativas são citadas, na maioria das vezes, de forma empírica e para que possam ser inseridas em programas de seleção, as características que garantem a termotolerância precisam ser avaliadas e mensuradas sistematicamente, dentro de uma abordagem multifatorial que permita avaliar aspectos morfológicos e suas relações com mecanismos fisiológicos de adaptabilidade e de desempenho.

Um estudo realizado na Fazenda Morro Alto II (Uberbrahman), localizada em Uberlândia/MG, Brasil, a 18°55’S, inserida no bioma Cerrado, utilizou 62 machos, recém-desmamados, com idade entre 233 e 264 dias, com o objetivo de avaliar as respostas adaptativas de tourinhos jovens da raça Brahman em sistema extensivo de criação, sob as condições ambientais do Bioma Cerrado, nas diferentes estações do ano. Esses animais encontravam-se no início de uma prova de desempenho, na qual são analisados aspectos raciais, exteriores, além do crescimento, ganho de peso, entre outras características de desempenho.

Foram realizadas sete coletas de dados, a cada dois meses, sempre no mesmo ambiente e horário, ou seja, das 8h às 11h. O ambiente foi monitorado através de temperatura e umidade do ar, velocidade do vento, além da carga térmica radiante, estimada através de um globo negro instalado no mesmo local ocupado pelos animais.

Os tourinhos foram avaliados quanto às respostas termorreguladoras, a saber, termólise evaporativa cutânea e respiratória, através da taxa de sudação e de frequência respiratória, respectivamente. Foram também registradas as temperaturas da superfície cutânea e retal para aferir a condição de homeotermia.

Paralelamente, foi avaliada a estrutura do pelame, utilizando-se as características morfológicas, quais sejam espessura e densidade numérica do pelame, comprimento e diâmetro médio dos pelos. Os hormônios tireoideanos, Tiroxina (T3) e Triiodotironina (T4) e o Cortisol foram também dosados, como parâmetros indicadores de estresse. A bioquímica sanguínea e as análises hematológicas foram utilizadas para atestar sanidade, condição nutricional e, consequentemente, a homeostase.

Na Tabela 1 pode ser observado o efeito significativo do mês de coleta sobre as variáveis ambientais, mostrando que janeiro foi o mês mais estressante na região, de acordo com as médias mais elevadas de carga térmica radiante. O período chuvoso ocorreu de novembro a março, durante o verão, quando foram registradas as médias mais elevadas de umidade do ar. Os efeitos associados da alta radiação solar e da alta umidade do ar podem resultar em um ambiente mais estressante, assim, nesse período os animais deverão receber uma atenção especial para conviver com o estresse térmico ambiental.

Mensuração da superfície cutânea foi uma das etapas do estudo

Em relação aos padrões termorreguladores, foi detectado que, em dezembro e em janeiro, os animais exibiram os valores mais altos de temperatura retal e de superfície cutânea, seguidos pelos maiores valores de temperatura retal e taxa de sudação (Tabela 1). Esses resultados indicaram que as perdas evaporativas cutânea e respiratória foram meios eficientes de dissipar o calor, uma vez que nesse período foram registradas as maiores médias de carga térmica radiante, associadas com altas temperaturas ambientes. Não obstante, os valores normais de temperatura retal confirmaram que os animais conseguiram manter a homeotermia em todas as estações em que foram avaliados durante o ano.

Tabela 2 - Caracteristicas do pelame de tourinhos da raça Brahman, ao longo do ano, em ambiente tropical

Médias seguidas pelas mesmas letras na coluna não diferem entre si pelo teste de Tukey a 5% de significância

Na Tabela 2, pode ser observado que o diâmetro médio dos pelos variou muito pouco ao longo do ano. A espessura do pelame foi mais elevada durante o período frio, o que pode promover maior isolamento térmico, protegendo os animais da perda de calor excessiva.

A densidade do pelame foi mais alta durante o verão (dezembro a janeiro) e durante o inverno (junho a agosto), decrescendo durante a primavera (setembro a novembro) e no outono (março). Esses resultados podem ser explicados pelas mudas de pelame normalmente realizadas por bovinos, na qual os animais, durante a primavera, substituem os mais longos do inverno por pelos mais curtos, ideais para o verão (dezembro a janeiro), ocorrendo o contrário no outono. Esses resultados estão em concordância com alguns estudos já conduzidos na região tropical do Brasil e demonstram o importante papel do pelame na adaptação às condições climáticas, além de confirmarem que a raça Brahman apresenta ajustes morfofisiológicos anuais que confirmam sua adaptabilidade ao ambiente criatório.

Tabela 3 - Parâmetros hematológicos e hormonais de tourinhos Brahman em condições de ambiente tropical

Médias seguidas pelas mesmas letras na coluna não diferem entre si pelo teste de Tukey a 5% de significância. *Tiroxina Total

Na Tabela 3, pode ser observado que todos os parâmetros sanguíneos, assim como características hematológicas e a concentração de hormônios tireoideanos, estiveram dentro da amplitude normal, confirmando a condição de sanidade e homeostase preservadas. A função imunitária, indicada pela contagem de plaquetas, também foi mantida dentro de valores normais e esses resultados contribuem para a maior adaptação da raça, uma vez que os animais podem desencadear normalmente os mecanismos de defesa e manterem-se livres de doenças, sob as condições ambientais avaliadas.

As concentrações séricas de Triiodotironina foram mais baixas em setembro e em janeiro, enquanto que as de tiroxina diminuíram apenas em janeiro. Esses resultados podem ser atribuídos ao maior calor ambiental verificado durante o verão, que pode ter causado redução da atividade tireoideana, visando à diminuição da produção de calor endógeno. Essa condição térmica mais estressante foi acompanhada por maiores concentrações de cortisol, um inespecífico, porém, importante indicador de estresse ambiental.

A análise de componentes principais (PCA) utilizando as médias de características morfológicas e fisiológicas mostrou que a frequência respiratória, a taxa de sudação, a espessura do pelame e o comprimento dos pelos foram as variáveis mais relevantes para a distribuição dos touros (explicou 29,8% da variância), ao passo que a espessura do pelame, o comprimento dos pelos e o diâmetro médio foram as mais importantes para a distribuição (17 % da variância explicada).

Assim, touros que apresentaram maior espessura de pelame usaram a termólise evaporativa, cutânea e respiratória, com a finalidade de manter a temperatura corporal normal.

Também foi verificado que alguns touros com elevado comprimento e diâmetro dos pelos, além de elevada espessura de pelame, não modificaram as variáveis fisiológicas. De acordo com os resultados da PCA, foram identificadas as variáveis mais relevantes, indicadas para a análise de cluster, que possibilitou que os touros fossem classificados em três grupos: Alta (n = 39), Média (n = 11) e Baixa capacidade adaptativa (n = 12). O grupo considerado mais adaptado foi o que apresentou menores espessura do pelame, comprimento dos pelos, acompanhados por menores frequência respiratória e taxa de sudação. Isso confirma que esses animais necessitaram usar em menor grau a termolise evaporativa, provavelmente porque aqueceram menos ou perderam mais calor pelos mecanismos sensíveis. Pode-se inferir que nesse grupo a utilização dos nutrientes da dieta é mais eficiente, uma vez que houve um menor desvio de energia para a termorregulação, obviamente havendo maior direcionamento para as atividades metabólicas ligadas à produção e ao crescimento.

A PCA revelou que a distribuição dos touros depende de diferentes níveis de respostas da taxa respiratória, da taxa de sudação e do diâmetro (22,8 % da variância explicada). O eixo 1 da PCA apontou que variam menos o diâmetro médio dos pelos e mostrou diferentes níveis de termolises evaporativas, através de frequência respiratória e evaporação cutânea.

Entre os animais caracterizados por estabilidade respiratória e de sudação (baixos valores de PCA no eixo 1), ao passo que o eixo 2 da PCA mostrou que alguns animais tenderam a manter a temperatura corporal mais estável, mesmo quando variaram mais o comprimento dos pelos e a espessura do pelame, entre as coletas. Os animais que exibiram maior plasticidade fenotípica para as características de pelame tenderam a manter normais e estáveis as respostas fisiológicas de termorregulação. Esses resultados asseguram que as características estudadas podem ser consideradas eficientes marcadores fenotípicos, indicados para a seleção de animais mais adaptados ao calor.

O estudo de Débora Façanha demonstrou, entre outros itens, o importante papel do pelo na adaptação às condições climáticas

CONCLUSÕES

Foi concluído que os bovinos da raça estudada exibiram características morfofisiológicas capazes de promover a homeotermia e a adaptação às condições do Cerrado brasileiro. Por esse motivo, pode ser indicada com êxito para os sistemas extensivos de produção de carne na região tropical do Brasil. Entretanto, deve ser dada uma atenção especial à proteção contra o estresse térmico durante os meses mais quentes e úmidos, uma vez que as reações indicativas podem se manifestar ou aumentar, mesmo em animais mais adaptados.

Ângela Vasconcelos é professora da Universidade Estadual Vale do Acaraú **Débora Façanha é agrônoma, mestre em Zootecnia e professora doutora do Departamento de Ciências Animais – Universidade Federal Rural do Semiárido - debora_ufersa@hotmail.com

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