Caindo na Braquiária

 

Entre bezerros e bois de Coxim

Alexandre Zadra - Zootecnista zadra@crigenetica.com.br

Somente através do estreito facho de luz emitido pelo farol da caminhonete de Lauriano, consultor de vendas que eu acompanhava pelas bandas de Coxim, boca do Pantanal sul-mato-grossense, era possível ver os bezerros pretos F1 Angus e suas alvas mães Nelore no pasto da fazenda de Ricardo Vicente.

Pudemos apreciar a ótima conformação de carcaça e desenvolvimento desses bezerros, que mesmo no pé das vacas e com seus tenros sete meses de idade, já deveriam passar de 240 kg de peso vivo. Criador esmerado que vem realizando a inseminação de matrizes com sêmen de touros provados de alto potencial genético a fim de recriar os machos desse cruzamento nas pastagens melhoradas em São Paulo, Ricardo tem engordado os mesmos no confinamento usando o sistema de alto grão nessa fase.

O resultado anual obtido por Ricardo Vicente com o uso de genética provada e manejo nutricional simplificado, mas com pastagens de qualidade para a recria, tem sido satisfatório, com pesos de abate desses bois inteiros aos 24 meses girando entre 19 e 20@ de peso vivo e de 55 a 56% de rendimento de carcaça, com as irmãs desses bois permanecendo no rebanho como matrizes.

O nascer e o pôr do sol no Pantanal são um show à parte. Quando chegamos à fazenda de Rolf, localizada na linda região do Pantanal de Coxim, fomos recebidos por veados, jacarés, emas, tamanduás, o que já denotou o cuidado extremo do criador com a manutenção da vida selvagem natural daquelas paragens, o qual proíbe rigorosamente a caça e a pesca na sua propriedade. Logo nos vem à cabeça quão simbiótica é a relação entre a pecuária e a fauna e flora pantaneira, podendo haver, assim, uma impressionante harmonia entre os dois.

Antes de chegarmos à sede, distante ainda da entrada da fazenda, Rolf e a veterinária Vivian, sua filha e profissional responsável pela reprodução e sanidade do rebanho, vieram a nosso encontro para não perdermos tempo. Era hora de checarmos a produção de bezerros, a fim de fazermos os possíveis ajustes necessários na indicação dos reprodutores para a próxima estação de monta.

No seu primeiro ano de inseminação, a Recanto do Paraíso usou genética Red Angus e Angus nas vacas Nelore, lançando mão do uso de sêmen de Senepol na IATF das vacas adultas cruzadas que têm sangue de raças continentais, sendo esse o motivo principal para o uso do taurino adaptado, o qual se encaixa muito bem naquele clima tropical úmido e sobre essas matrizes adultas de grande porte.

No sentido de melhorar o peso médio dos bezerros e manter o score corporal das matrizes, Rolf vem construindo o creep feeding em todas as pastagens melhoradas e divididas. No tocante à formação de pasto, a família tem, dentre outras gramíneas, pastagens de Massai nas áreas mais altas e Quicuio nas áreas encharcadas, onde vem dividindo os piquetes com cerca elétrica de três fios, funcionando muito bem por lá.

O objetivo da propriedade no passado era vender 100% dos bezerros logo na desmama, o qual vem se ajustando com a nova condição de lotação nas pastagens melhoradas. A partir deste ano, os bezerros mais pesados serão recriados e engordados na fazenda, sendo sendo então vendidos somente os mais leves da safra, os quais não deixam de trazer em sua genética alto potencial de ganho em peso. Já, em relação às fêmeas F1 Angus, a Recanto do Paraíso abrigará as melhores delas para reprodução, em que será utilizada sempre uma raça adaptada sobre elas, tais como Caracu, para se recriar e engordar a pasto, e Bonsmara, para servir de matéria-prima para dietas mais ricas na recria e engorda.

Como costumo dizer sempre, não vou às fazendas para passar a mão na cabeça dos criadores tecendo loas sobre seus sistemas, pois acredito piamente que meu papel como técnico é trazer informações que possam ser úteis na melhoria das fazendas, por meio de críticas construtivas, portanto, é comum de minha parte questionar os mesmos quanto a sistemas diferentes dos deles que possam se encaixar em seus modelos, em que nunca concluo para eles qual seria o melhor, deixando para esses tal decisão.

E assim o fiz. Deixei para os dois caprichosos criadores a seguinte questão: “Vocês estão próximos a áreas de agricultura como São Gabriel, tendo acesso a preços convidativos do milho. Já pensaram em fazer um animal superprecoce, confinando seus bezerros desmamados acima de 260 kg logo após a desmama? Um exemplo próximo a vocês é Renato Medeiros, cuja totalidade de bezerros cruzados entram diretamente no sistema de alto grão pós-desmama, passando apenas por um processo de adaptação de 15 dias e confinados por 140 a 150 dias até o abate, não havendo mais necessidade de forragens no confinamento.

Tal sistema de engorda visa diminuir a carga de machos nas pastagens da fazenda, aumentando o número de matrizes, com o consequente incremento na produção de bezerros de qualidade. Dessa forma, engorda-se o caixa da fazenda, produzindo-se muito mais arrobas por hectare/ano.