Na Varanda

 

Pecuária 1.000... é possível?

Francisco Vila é economista, consultor internacional e diretor da Sociedade Rural Brasileira vila@srb.org.br

Em recente reunião mensal na Sociedade Rural Brasileira, o Núcleo Feminino de Agronegócio (NFA) debateu o desafio de elevar o patamar de produtividade nas fazendas pecuárias. O NFA é constituído por 25 produtoras que gerenciam propriedades em vários estados e com sistemas produtivos que variam desde cria até ciclo completo e projetos de integração lavoura-pecuária-silvicultura. A mulher, por exercer papéis múltiplos de mãe, gestora de casa e, em número crescente, empreendedora, muitas vezes possui uma visão mais holística do que seus vizinhos masculinos. Com essa perspectiva, organizou- se um encontro de um dia para destrinchar a complexa matéria de tornar a pecuária mais rentável e, assim, também mais sustentável.

Relatórios de benchmarking das principais empresas de consultoria diagnosticam o corredor de rentabilidade da maioria das pecuárias de porte médio e grande na faixa de 200 a 400 R$/ha/ano. Desconsiderando o potencial da valorização da terra, esse resultado é pouco satisfatório. Nomeadamente nas regiões com aptidão agrícola, as produtoras do NFA confrontam- -se constantemente com o dilema “intensificar ou arrendar?”. Arrendar, naturalmente, para cana, milho, soja, etc.

No entanto, o que provoca essa dúvida é a distorção na comparação de usos alternativos do solo. Coloca-se do lado da lavoura de precisão a prática da pecuária tradicional, ou seja, extensiva. É como comparar a performance de um gado de raça com o ganho de peso de um animal mestiço. Para esclarecer melhor essa complexa matéria, as produtoras organizaram uma reflexão sistemática sobre o caminho para transformar uma fazenda tradicional em uma pecuária de alta performance. Naturalmente, sem truques ou milagres.

A troca de ideias com uma família do interior de São Paulo, que em 2000 migrou da atividade leiteira para a pecuária de corte e que teve a sorte de integrar desde cedo os dois filhos na fazenda, mostrou que é perfeitamente possível atingir (e até superar) os índices de rentabilidade de lavoura, desde que... sim, o negócio seja gerenciado com conceitos e processos que fazem parte da realidade de outras atividades econômicas. Tanto a agricultura de precisão como a indústria de manufatura operam com modelos e práticas padronizados. Ao incorporar essa visão ao negócio e colocar a organização de processos e o desenvolvimento das pessoas no centro da atenção empresarial, os resultados na pecuária aparecem quase que de forma instantânea.

Sem considerar o valor da terra (via custo contábil do arrendamento da região) e a remuneração do proprietário (via pró- -labore), o lucro após depreciação de investimentos em pasto, infraestruturas e equipamentos oscila entre R$ 1.500 e 2.000/ ha/ano. Ao longo do debate foram apresentadas experiências de outras fazendas que confirmaram esse patamar de resultados e que, em alguns casos afetados pela atual crise da cana, fizeram proprietários voltarem para a atividade bovina. No caso, foram terminados 2.000 animais em uma área de pasto de 200 hectares. Habilidade na compra, uma manutenção minuciosa do pasto rotacionado, calibração da suplementação conforme perfil dos animais e época do ano e o confinamento desenhado na otimização do ganho de peso são as ferramentas que, além da blindagem do risco do preço, asseguram uma rentabilidade que a pecuária merece e consegue obter. No patamar de rentabilidade da lavoura, o bovinocultor é competitivo sem estar exposto aos riscos do clima; e a necessidade de investimento pesado em maquinário caracteriza a produção de soja, milho ou seringueira.

As palestras do zootecnista Sérgio Morgulis e do consultor Alcides Torres não só confirmaram a necessidade de tecnificar os sistemas tradicionais para atender as crescentes demandas do consumidor, como também revelaram os caminhos e etapas a serem percorridos para obter resultados competitivos.

Resumindo o ensinamento do dia: o caminho para conquistar o futuro exige foco, presença, capacitação continuada e integração dos modos de pensar, das rotinas e posturas de todos os envolvidos no processo produtivo e na condução do negócio. É difícil? Sim. Mas é possível, além de ser necessário