Brasil de A a Z

 

Paradigmas para a seleção do Nelore

Dilema das pistas e dos Programas de Melhoramento

William Koury Filho é zootecnista, mestre e doutor em Produção Animal, jurado de pista de Angus a Zebu e proprietário da Brasil com Z® – Zootecnia Tropical

Amigos agropecuaristas, já estamos em junho, mês que abre a temporada de maior oferta de reprodutores no mercado. Com a pecuária apresentando um cenário positivo e a relação de troca de bezerros por touro muito boa, o momento é favorável para o investimento em genética de qualidade. Sendo assim, defina o que é qualidade para você e trate genética como insumo, que, se bem investido, o retorno econômico é certo.

DILEMA DAS PISTAS
Atualmente, a pista vive um grande dilema: os grandes campeões deixaram de ser referência para pecuária do país. O que fazer para reverter essa situação? Preocupadas, Nelore do Brasil e ABCZ têm promovido reuniões técnicas envolvendo diretores, técnicos e criadores para discutir os atuais critérios de julgamento. Tenho a honra de compor esse time e o desafio não é nada simples, em função da interação genótipo/ambiente e o fato de o animal considerado mediano na pista ainda poder ser exagerado para sistemas de produção a pasto.

Tecnicamente, é preciso julgar sem se impressionar com tamanho e pesos exagerados, privilegiar um tipo precoce e volumoso, considerar que uma fêmea na baia deve apresentar boa cobertura de gordura, observar as características funcionais de aprumos, analisar o desenvolvimento dos testículos e o posicionamento de bainha nos machos, vulva e úbere nas fêmeas. Nas fêmeas paridas, avaliar o conjunto vaca/cria, valorizando matrizes com produtos saudáveis ao pé. Pela importância de mercado e promoção da raça, é importante que a pista do Nelore evolua no sentido da funcionalidade e permaneça forte.

DILEMA DOS PROGRAMAS
O melhoramento genético também vive seus dilemas, tais como: desmistificar a busca insana pelo tal TOP 0,1%, o desafio da formação de índices econômicos, a difícil interpretação do grande número de características avaliadas nos diferentes programas e a aceitação de que algumas características, como raça e aprumos, devem continuar a ser selecionadas pelo olho.

TOP 0,1% (ou 1 em 1000) na população avaliada pelo programa. É necessário se perguntar 0,1% em quê? Geralmente, pode ser um índice que não necessariamente represente seus objetivos de seleção ou aquilo que realmente precisa ser melhorado no seu rebanho. Assim, um touro TOP 10% até 30% pode ser mais indicado para seus objetivos por apresentar biotipo mais adequado ou ser forte em uma característica reprodutiva ou ainda na habilidade materna que sua seleção precise melhorar. Ao utilizar reprodutores jovens, é necessário considerar o desempenho dentro de grupos de manejo e genealogia, já que a acurácia da informação, nesse caso, é baixa.

As tecnologias de marcadores moleculares e seleção genômica permitem aumento de acurácia considerável para estimar valores genéticos em animais jovens. Permitem ainda obter informações genéticas de indivíduos sem desempenho próprio quantificado ou progênies avaliadas. O interessante e paradoxal é que a conclusão de experts no assunto, provenientes do mundo todo, que se reuniram em São Paulo no “5th Internacional Symposium on Animal Functional Genomics” foi que: se empresas ou programas tivessem que priorizar seus investimentos, a indicação é que os esforços deveriam ser para coleta de fenótipos com qualidade. Por quê? Porque somente com bancos de dados de qualidade, é possível desenvolver equações de predições capazes de estimar a influência das diferenças genotípicas nas características de interesse no melhoramento genético de bovinos de corte e implantar a seleção genômica.

Com a pertinente preocupação em desenvolver índices econômicos de seleção, características como Eficiência Alimentar vêm ganhando espaço, assim como medidas relacionadas a rendimento de carcaça. Vale ressaltar que o raciocínio tem sido desenvolvido com foco no animal a ser abatido, mas que os custos de manutenção e as eficiências reprodutiva e produtiva das matrizes produtoras de bezerros para corte e fêmeas para reposição devem apresentar impacto econômico ainda mais significativo, o que torna mais complexo o desenvolvimento de índices econômicos que contemplem todo o ciclo de produção em bovinos de corte.

CONCLUSÕES
O assunto é complexo e polêmico, mas uma verdade deve ser dita: não devemos alimentar a discórdia entre os aficionados por números e os românticos da seleção somente pelo olho.

A virtude provavelmente está em interpretar bem as avaliações genéticas, conhecer as linhagens e utilizar uma dose saudável de avaliações visuais para a receita do Nelore do século XXI, modelo que deve ser moldado pela ciência e pelo talento humano!


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